sábado, 7 de novembro de 2009

Praia Cheia

foto retirada daqui


- Olha o picolé, picolé... Geladinho, baratinho!
- Tem de macadâmia?
- Oi?
- Macadâmia.
- O que é que tem?
- Tem?
- Tem o quê?
- De macadâmia.
- Tem picolé.
- Picolé de macadâmia?
- Como assim?
- Moço. Eu quero um picolé. De macadâmia.
- Senhora, não sei o que é isso não. Se parece com limão? Tem de limão!

- Menina, olha como você conseguiu ficar bronzeada! Que protetor você está usando? Bronzeador?
- É... Um baratinho, até, da embalagem marrom, aqui, oh, deixa eu pegar para você ver. Sabe que nunca pensei na diferença de protetor e bronzeador? Qual é?
- Um protege e outro bronzeia.
- Mas se bronzeia não protege?
- Deve proteger também.
- E se protege não bronzeia?
- Também, ué.
- Mas então qual a diferença?
- Ah, querida, agora eu não sei. Me empresta esse para eu passar?

- Essa areia está grudando em todo lugar, que horror. E esse sol de rachar! Como a praia tá cheia hoje, meu deus.. Até parece que ninguém nunca viu sol... Também 40° não tem nem como ficar em casa, só com ar condicionado. E quem tem, né? Como eu queria estar numa piscina agora... A gente podia ir para a casa da tia Sandra dar um mergulho, hein? Essa praia está insuportável. Não tem nada para fazer, e essas crianças aqui do lado não param de berrar.
- Estão te chamando para jogar frescobol, lá na outra ponta da praia.
- Ha-ha.

- Manhê, vou nadar.
- Nada, mas toma cuidado!
- Com o quê? A água?
- É, o mar.
...
- Mãe, por que vc falou para eu tomar o mar com cuidado? Foi horrível! Tem muito mar e é salgado!

- Filha, para que cavar um buraco tão fundo?
- Quero ver se acho petróleo.
- Mas não é assim que você vai conseguir.
- Mãe, você já achou petróleo algum dia?
- Não.
- Já tentou?
- Não.
- Então como você sabe que assim eu não vou conseguir?!

- A gente podia tomar uma água de coco, né.
- É, podia. Passa uma cerveja.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Amor eterno... Ao Corinthians

Quarta e domingo eram noites péssimas para ela. Principalmente se o Corinthians perdesse – coisa que acontecia com bastante freqüência, ultimamente. Mal podia terminar de ver a novela, que sua sala era invadida por marmanjos alvinegros, com cervejas na mão e aflitos pelo Ronaldo. Isso quando eles vinham.

Seu relacionamento era assim: vira e mexe tinha que dividir sua atenção com a redonda, aquela mesma que 22 jogadores correm atrás, no campo, e todos os outros 92,4 milhões de homens brasileiros acompanham – seja nos estádios ou pela própria televisão.

Não tinha jeito. No começo até entendia, chegou a ir uma ou duas vezes no Pacaembu com o namorado, para ver se conseguia se animar com a energia do estádio. Não dava – chegava suada em casa, depois de muito empurra-empurra e muito homem passando cantada furada em seu ouvido. Resolveu que o melhor jeito era deixá-lo ir sozinho.

Ele seguiu a risca: passou a ir a todos os jogos, mas sem ela. Quando não ia aos estádios (apesar de ter contato com uns cambistas, muitas vezes os ingressos acabavam rápido e os preços eram absurdos), assistia-os nos bares. Aliás, preferia até o bar ao estádio: pelo menos lá ele podia beber, enquanto via os jogos. E era com cheiro de cerveja que voltava para casa.

A paciência dela frente aos jogos era cada vez menor. Chegando tarde em plena quarta? Não dava. Não dava mesmo. Ou ele chegava extremamente alegre e feliz – o que era bom, mas ter que agüentar o ritmo dele à meia-noite, após um dia de trabalho esgotante para ela, era muito; ou, vinha para casa irritado por ter perdido mais uma partida – e aí ai dela se comentasse qualquer coisa a respeito.

Além do horário, da cerveja e do estado emocional do rapaz após os jogos, outra coisa que a irritava profundamente eram as possíveis companhias. Com certeza deveria ter mulher na jogada. Não estavam na moda as tais marias-chuteira? Ele negava e ainda provocava: se fosse para ela estar preocupada com as possíveis marias-chuteira, deveria estar preocupada também com marias-gasolina, marias-parafina, marias-palheta, marias-maçaneta, marias-vão-com-as-outras... Não que ele fosse jogador de futebol, tivesse um bom carro, surfasse, participasse de uma banda de rock ou ligasse para mulheres muito fáceis (afinal, para conquistá-la, levou meses) e para aquelas que não têm opinião. Falava tudo isso puramente para deixá-la nervosa.

Ela, que nunca havia se considerado ciumenta e impaciente, ficava cada vez mais incontrolada quando o assunto era futebol. Não podia imaginá-lo pelas ruas urrando “Timão ê, ô!”, não agüentava ter que lavar aquela camiseta branca e preta, não queria mais nem ouvir o nome do Rona... Deixa pra lá.


O jeito foi terminar. Logo que o Corinthians empatou com o Coritiba, resolveu: não continuaria mais com ele.

Agora, nada mais da torcida da gavião, do Pacaembu (corintianos acham que o Pacaembu é deles), das faltas, dos pênaltis, de futebol. Nada. Começou a namorar um tenista.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Jogos de Azar

Dona Arlete passou a vida inteira reclamando de seu marido, Seu Ferreira. Não eram só os problemas de casa, como largar roupa suja no chão ou não abaixar a tampa da privada, que a afligiam. Havia um pior: o vício no jogo.

Todas as tardes, o marido saía do trabalho e nem passava em casa. Ia direto para a praça, onde participava de disputas incríveis de dominó. Quando ganhava, deixava o lugar e rumava para o bar, afinal, precisava comemorar. Quando perdia, também - lá sempre havia alguém aguardando para ser sua dupla no truco, jogo em que era invicto e no qual, com certeza, poderia ter o gosto da vitória.

Seu Ferreira sempre fora um cara de sorte - menos pelo fato de não ter tido um menino, e sim três meninas. Ele nunca teve problemas financeiros e a única coisa que o jogo lhe provocava eram brigas com Dona Arlete.

A raiva pelos jogos perdurou na mulher até o dia em que um bingo, ao lado de sua casa, fora aberto. Não deu outra. Começou a freqüentá-lo. Talvez assim causaria algum tipo de vingança ou, pelo menos, inveja no marido. "Lá tem uns moços jovens, bonitos, que sempre me dão sorte...", vivia dizendo. Seu Ferreira, no entanto, sabia: o recinto era apenas um lugar onde as velhinhas do bairro podiam fofocar e trocar receitas de bolo.

O tempo foi passando e Dona Arlete se tornou a freguesa mais assídua do local. Parou de limpar a casa, parou de fazer comida. Enfiava-se no bingo logo quando abria, e só saía ao ver o lugar ser ocupado pelas moças da limpeza. O segurança da casa a conhecia, a moça do bar também. O menino da roleta, então, nem se fale! Ela se sentia tão bem, tão querida, que sua família passou a suspeitar que ela estivesse mais feliz no bingo do que na própria casa.

Suas filhas começaram, então, uma campanha para a mãe deixar o local. Passaram a visitá-la com mais freqüência, traziam doces, levavam a mulher para o cabeleireiro, shopping e até para barzinhos na Vila Madalena. Não adiantava. Ela logo voltava para o lugar. Pegava o ônibus, saía a pé, mas com suas filhas ela não ficava. Nem com Seu Ferreira.

Depois de anos sem deixar de ir a uma partida de dominó, o velho percebeu o ápice do problema de sua mulher quando precisou voltar para casa após o trabalho e fazer sua própria janta - justo no horário de seu jogo. Estava ele, na cozinha, se aventurando com batatas cozidas enquanto os colegas se divertiam no dominó. Não podia agüentar tal infelicidade. E sua mulher lá, jogando.

As contas começaram a deixar de ser pagas, a casa passou a ficar imunda. Seu Ferreira contraiu uma doença por causa do pó e não conseguiu mais sair da cama. Deixou o dominó. Deixou o truco. Mesmo assim, Dona Arlete não deixava de ir ao bingo (deixou de ir à missa, mas nunca ao bingo).

Os problemas de saúde de Seu Ferreira se agravaram, e no dia 5 de maio de 2007, ele faleceu. Mesmo dia em que o bingo de Dona Arlete foi interditado pela subprefeitura de seu bairro. A liminar de seu funcionamento foi cassada. Do dia para a noite, Dona Arlete se viu sem chão – perdera numa só rodada, toda a sua vida. Não queria mais saber dos filhos, não queria mais saber de comer, nem conversar mais com as amigas. Inclusive, passou os últimos anos sem dar satisfação à família: não queria saber de visitas.

Nesta última quarta-feira, dia 16 de setembro, suas filhas voltaram a se animar com a mãe: a Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados passou a aprovar a volta das casas de bingo no país. Fazia tempo que elas não se alegravam com fatos políticos... Talvez agora a mãe pudesse ficar mais feliz.

- Alô? Mãe? Está me ouvindo? Mãe, você viu que parece que vão abrir os bingos?

- Sim, mas não me interessa mais.

- Como assim, mãe, você vai poder rever seus amigos...

- ... Há muito tempo deixei o bingo. Não gosto desses tipos de jogos.

- Como assim, mãe? Mas eu ouvi dizer que a senhora ainda estava apostando nos jogos, em outros lugares, mas estava... Então não é verdade o que Dona Conceição, sua vizinha, disse?

- Não, é verdade, sim. Agora sou campeã de dominó. E de truco.

E Dona Arlete continua jogando, até hoje, na praça, no bar – mas claro, somente depois de ter arrumado a casa e preparado a comida.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Pêra

Me lembro como ontem daquele salão de festas do prédio cheirando a bexigas. Eu estava ali, parado, vendado, na frente de todos. Exposto. Ela, ao lado de suas amigas. Linda em seu vestido florido e seu cabelo preso.

-É esse?

-Não.

-Esse?

-Ahm... Não.

-Esse?

-Também não.

-Pô, e esse?

-Esse pode ser. Sim!

Tirei a venda. Era ela. Me arrependo até hoje de não ter escolhido salada-mista.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Pessoas e pessoas

Existem pessoas que se satisfazem em fazer outras felizes. Pessoas de bem, assim são chamadas. São aquelas que evitam brigas - e quando existem, até chegam a apartá-las.

Existem pessoas que não se preocupam em falar para outros o que Fulano ou Beltrano fez. Não se preocupam em espalhar fofocas. Aliás, pouco falam sobre pessoas - preferem colocar em pauta assuntos como animais, árvores, idéias, músicas e livros.

Existem pessoas que não acordam pensando nos terríveis afazeres domésticos - e acabam até se divertindo ao lembrarem do que terão que fazer durante o dia. São aquelas pessoas que não passam a vida reclamando do que têm que fazer, do que não têm que fazer, do que fizeram, do que deixaram de fazer e pior: do que os outros têm que fazer, do que os outros não têm que fazer, do que os outros fizeram, do que os outros deixaram de fazer.

Existem pessoas que sabem sofrer na medida certa. Certa a ponto de aprender. Depois que aprendeu, não tem porque sofrer. Já foi. São pessoas que não fazem do seu penar um penar alheio - não jogam seu fardo de culpa nas costas dos outros para assim, se sentirem aliviadas. Se sentem dor, aprendem com ela. Não tentam passá-la aos que estão ao seu redor. Não tentam se colocar em posição de vítima. São corajosas, essas pessoas. Ah, como são!

Existem pessoas que não veem porquê remoer erros passados ou mais, viver em tempos que não os presentes.

Enfim, são, normalmente, pessoas que se afastam de intrigas. Também são queridas. Pessoas queridas não precisam se auto-afirmarem para se sentirem amadas. Elas simplesmente sabem que o são e são porque demonstram o querer aos outros. São porque amam os outros.

Esse tipo de pessoa costuma fazer piada da vida - e não da menina gordinha ou do menino de óculos. Imagine elas subjulgando alguém, colocando um terceiro em ridículo, inventando mentiras a respeito dos outros! Não, não. Pessoas assim não fazem isso.

Pessoas assim são difíceis de encontrar.

Você, definitivamente, não é uma delas.

sábado, 5 de setembro de 2009

Sei

Eu sei que não voltei mais ao francês. Nem ao inglês. Nem ao esporte. Nem a nada disso. Eu sei que eu por você eu passo muito tempo aqui no computador, onde talvez eu nem deveria escrever tanto - para minhas palavras não se perderem nesse ambiente cibernético. Eu sei também que deveria passar mais tempo com vocês, que deveria passar mais tempo com os outros, que deveria passar mais tempo comigo mesma. Eu sei, eu sei.

Tudo bem, entendo você quando diz que eu deveria andar mais a pé, fazer mais exercício. Não, eu não vou mais voltar a fazer volley. Nem ballet. Também entendo quando você diz que tenho que me alimentar melhor. Almoçar direito. Jantar. Eu tento. Tento jantar sempre que chego - às vezes você já está dormindo, e eu esqueço de ver o prato que deixou preparado para mim no microondas. Esqueço, simples assim. Sinto meus olhos tão cansados que abafam o barulho do meu estômago. Ou sinto tanta vontade de vir para meu quarto que nem passo pela cozinha. E muitas vezes acabo nem dormindo assim, tão rapidamente.

Aliás, você tem razão. Eu não posso ficar acordada até tarde, dormir pouco. Não quero cultivar olheiras. Mas... O dia é tão curto para mim que preciso da noite. Não tem jeito. É como sair à noite. Sim, a essas horas?, abro a porta, dou-lhe um beijo, pego o elevador, entro no carro que me espera lá embaixo. É que eu preciso da madrugada, também. Preciso de muitas coisas. Eu sei que você sabe disso, e eu sei que justamente por isso me acha meio mimada. Não sou. E se fosse, seria culpa sua. Olha aí, já estou culpando você, que tanto me quer bem. Que tanto se preocupa e me sufoca.

Sim, muitas vezes sinto sufocada pelas suas perguntas. É só preocupação, não é? Entendo. E as cobranças? Tenho que estudar, manter as amizades, visitar os parentes, comer direito, me arrumar, ler todos os livros, dirigir e... Fazer exercícios! Não dá, não consigo e sei que não consigo. Sabe, eu já tento fazer todas aquelas coisas que eu quero. Se tiver que fazer todas as que você queria ter feito quando tinha minha idade serei consumida mais do que já sou pelo monstro dos dias que passam correndo.

Quanto mais coisas fazemos, mais rápido o tempo passa. Eu sei que quero fazer muitas coisas (por mais diferentes que sejam do seu querer). Eu sei que muitas daquelas que você quer que eu faça é para meu próprio bem. Eu sei que tenho que passar protetor solar, tenho que comer frutas, tenho que ir no médico, no dentista, tenho que ligar para o Fulano que me ligou , tenho que visitar a Cicrana, tenho que arrumar o quarto, tenho que voltar às aulas de línguas, tenho que começar a fazer algum exercício, tenho que deixar de fazer besteira, tenho que deixar de falar besteira! Eu sei, eu sei.

Eu sei que você acha que eu acho que sei de tudo.
Mas isso... Não, não sei.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Nós

E foi assim como tudo começou. Uma ponta aqui, outra ali. Éramos, apesar de tudo, um fio só - pena que não sabíamos. Nem desconfiávamos. Aliás, a única diferença entre nós era o lado para onde íamos. Ou melhor, o lugar para onde olhávamos. Esquerda ou direita; frente ou trás. Sempre assim: opostos.

Numa tarde abafada de pleno agosto, nos pegaram. Nunca havíamos nos olhado. Cada mão, agarrou-se a um de nós. Apertou-nos - e fez apertarmos nossas vistas para confirmarmos aquilo que víamos: outros eus. Iguaizinhos.

Nos víamos, porém ainda não éramos nós. Éramos dois eus, que suspeitavam se tornar um nó, mas só suspeitavam. (Era aquela suspeita bandida que surge quando os olhos apertam os corações - os quatro olhos, apertando os dois corações diferentes. Diferentes-mas-nem-tanto, afinal, estavam prestes a virar um só. Um nó.)

Nos enrolaram. Nos envolveram. Nos apertaram. Tão firme que ficamos sem ar. Nos deram um nó. Dois. Três. Nos firmamos, nos firmamos. Ou nos amarramos? Nos amarraram.

Nós viramos nós. Assim continuamos por um longo tempo... Presos, feito aqueles de marinheiro. Feito aqueles na madeira - colados ao jatobá.

Foi nessa época quando nos tornamos nós cegos de tanto amor. Além de cegos, insuportáveis. Ninguém nos aguentava mais: "estão muito fortes! Não consigo nem soltar! Olha que apertados... Sufocante!"

Tentaram nos separar, mas éramos tão apertados que garfo nenhum conseguia tal feito. "Vou buscar uma tesoura!", ao ouvirmos a frase, demos um nó na garganta. Imediato. Tesoura?!

---

As lâminas afiadas se aproximaram de nós. Dos nós. As mesmas que já haviam rasgado cartas de amor, sem darem tempo de serem entregues, sem permitirem um sorriso doce ao saírem do destinatário.

Elas estavam ali, nos encarando. Juntinhas, cínicas, nos observavam. De repente, abriram, brilharam e nos deram um abraço gélido. Simples e rápido. Toda a força que tínhamos esmaeceu-se. Toda a dificuldade para nos soltarem se foi. As linhas se estiraram. Fomos nos desfazendo, nos soltando, nos quebrando.


Conseguiram. Elas, as lâminas, desfizeram os nós (desfizeram-nos). Quero dizer, ela. Cruel, fria e que nem marca tinha - nessas horas você percebe a importância das marcas para cortarem as relações: nenhuma. Elas aparecem depois.

Ela veio como quem não quer nada. Estava muito bem amolada. Melhor seria se estivesse cega, ou se a mão que antes nos unira, agora não se encaixara nela para nos romper.

Subitamente, dilacerou-nos. E foi de tal modo que nunca mais nos vimos. Cortou qualquer ligação que houvesse entre as pontas. Nosso fio já não era o mesmo. Diminuímos.

Terrível foi o dia em que éramos nós e voltamos a ser apenas eus. Terrível. Passei a ser somente um pedaço. Assim, incompleto.

Maldita tesoura.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Pepê e seu jeito estranho de fazer as coisas

Parte 2

Na escola, por exemplo. O normal é querer sentar no fundão (claro que existem aqueles que gostam de sentar na frente, mas no fundo, no fundo, todos acham o fundão mais legal) e não querer de jeito-maneira-alguma ser chamado para resolver equações ou aplicar fórmulas matemáticas na lousa.

Pepê adora. Senta em qualquer lugar - não se importa - e sempre que é chamado para a lousa faz questão de não só tentar responder as coisas (digo tentar porque na maioria das vezes ele não sabe, mesmo), como também imitar os professores dando aula. Os colegas gostam, acham engraçado. Já os professores... Dona Ivete, por exemplo, fecha a cara.Uma vez até mandou-o sentar e o ameaçou a tirá-lo da sala. Mas Pepê percebeu o sorrisinho que ela escondia de gosto por tê-lo ali. Ficou na dele, e simplesmente, continuou escrevendo com o giz, os números.

Aliás, ele é um dos poucos que percebem sorrisinhos alheios. Quando os outros notam, ele já viu faz tempo. Antes mesmo dos sorrisos se mostrarem. Isso era bem estranho - ainda mais quando comentava para alguém: "Olha só, o Seu Geraldo, vai dar um sorrisão daqui a pouco...". Não acreditavam, óbvio. Idéia maluca, a dele! Até que, de repente... Peraí! Não é que Seu Geraldo está sorrindo?!

[Leia a parte 1 antes, com muito gosto, aqui]

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Fósforo

De tanto esquentar a cabeça, saiu fogo. Depois de apagar, parou de funcionar.

[saidera]

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Desnorteado

Não tinha rumo, o que não era um problema pois sabia como seguir - sem rumo.

[7/7]

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Habilitação

Foi reprovado no teste de motorista. Era lógico, mal sabia dirigir sua vida.

[6/7]

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Vaca

Ela o traía, ele a amava. Gostava de animais.

[5/7]

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Obediência

-Filha, toma banho!
-Não, estou saindo. Vou para o Bruno.

Foi. E obedeceu a mãe.

[4/7]

domingo, 9 de agosto de 2009

Mania de Perseguição

Fez um twitter, mas excluiu todos aqueles que o seguiam. Ficou mais tranquilo.

[3/7]

sábado, 8 de agosto de 2009

Dieta II

Café com adoçante. A bolachinha do lado? Comeu-a. O café estava com adoçante!

[2/7]

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Dieta I

A pipoca era light. Encheu-a de manteiga e continuou no regime. A pipoca era light, oras.

[1/7]

terça-feira, 7 de julho de 2009

Surpresas

(I)

Eu sabia que não deveria ter ficado em casa. O tom dela quando se despediu, logicamente, demonstrou sua preocupação. Não comigo. Mas com o que eu poderia fazer. Com o que eu poderia encontrar.


Provavelmente, deve ter se arrependido das reclamações quanto a minha desordem, quanto a minha desorganização. "Não aguento mais essa bagunça! Este chiqueiro! Já devia ter suspeitado que sua casa seria um reflexo de seu quarto... Claro, claro. Ele não conseguia manter um quarto arrumado, como não pude prever que manter um apartamento seria impossível?!", reclamava.

Agora estou aqui, perdido em minha bagunça, encontrando a bagunça dela. Não deveria ter resolvido fazer uma surpresa. "Olha, só, amor, arrumei as gavetas!"... Quando melhor se quer ser, pior acaba sendo. As gavetas... Essas cartas... Essa foto! Como ela está bonita... Tão linda que tenho vontade de matá-la. Feliz, idiota. Com um canalha ao lado. Sorrindo, abrançando-a. Não sou eu.

Quanto mais mexo nestas papeladas, maiores são as punhaladas. Arrumar... Muito mais deveria ter sido arrumado. A começar pela nossas vidas.

Não era só da bagunça que ela reclamava. Era também do cheiro de cigarro que empestava a sala. "Quando você deixará de se intoxicar? Você se mata pouco a pouco!". Me mato. Ela que, agora, cada vez mais, me mata. Corno.

Preciso encontrar mais sujeira, um bilhete de cinema, teatro, notas fiscais. Esfregue isso na minha cara. Quero ver. Tudo com outro cheiro. Como não pude perceber. O ar estava empestado não pelo meu cigarro, mas pelo perfume barato daquele filho-da-puta.

Aliás, cada vez mais, sinto vontade de fumar. Para que tudo - a cama, o sofá, as almofadas - fique com o cheiro do meu cigarro. Para que não possa mais sentir o chero doce dela pelo apartamento. Doce o caralho. Azedo. Azedo ao se imaginar que se misturou com o de outro.


Obsessivo? Não. Eu que tive aguentar toda sua obsessão. Sim, sim. Ela era assim: obsessiva. Não podia ver uma conta sem pagar - apesar de muitas delas assim ficarem - que entrava em desespero. Não comia "carboidratos". Nem glúten. Se colocasse uma torrada na boca dizia que morreria. Nunca vi alguém que não comesse glúten. As embalagens deveriam alertar somente a ela sobre tal ingrediente.

Também tinha mania de simpatia. Assim mesmo. Tinha que ser boazinha com todos. Todos a adoravam. Sorriam e ela sorria.

Com os vizinhos, inclusive. Sabe aquela história de entregar um bolo, assim que se muda, para os outros apartamentos? Aquela, que só se vê em filme tosco americano? Ela fez questão de protagonizá-la. Ridículo.

Entregou para os vizinhos do andar. Todos. Sorte que isso tudo não passou pelo elevador. Azar nosso prédio ter 6 apartamentos encrustrados nesse maldito 4º andar.

Aliás, devia ter suspeitado antes. Ah, vagabunda. Aquelas tardes sem ir ao trabalho! Agora eu entendo bem o que ela fazia... Enquanto o infeliz aqui passava horas em frente ao computador, ouvindo o idiota do chefe, ela, com certeza deveria estar se entregando para os vizinhos do andar. Do prédio. Do bairro. Não, não, só deve dar para aquele moleque do 45. Puta.


(II)

Puta, tenho que correr antes que ele perceba. Já combinei com o Fábio de passar lá naquela loja de vinhos... Aquela, qual é o nome? Que tem um monte de vinhos bons, caros, e tal... Nunca fui lá. Ele me falou que era uma boa.

Enfim, dane-se o nome. Afinal, o que é um nome?! What's in a name? That which we call a rose. By any other name would smell as sweet. Não, não. Não tenho tempo para Shakespeare. Quem diria! Eu, recusando-o de meus pensamentos! Oh, Ana Lúcia Vasquez, você não era assim. Nunca foi.

Até aí, eu também não sabia que tinha essa doença maldita celíaca. Quando dizia que tinha problemas com o intestino ninguém levava a sério: "Toma Activia...". As pessoas acham que o único problema de intestino que uma mulher pode ter é prisão de ventre.

A humanidade se renova no seu ventre, escreveu Cora Coralina. Não era assim? Não é assim, afinal? Do ventre saímos, oras. Cora Coralina é um nome que soa bem. Ah, meu deus, cadê o Fábio? Ficamos de nos encontrar aqui, garçom, nessa mesa de bar...

Preciso além do vinho, de alguma coisa para decorar a sala. Umas velas, talvez. Não sei porque o Rogério inventou de ficar em casa. Justo hoje! Ou será que ele sairá mais tarde? Daqui a pouco eu ligo, porque se ele estiver lá, vai dar tudo errado. Tudo.

Acho que as coisas já vem dando errado, para falar a verdade. Não sei, ele parece distante, diferente. Me olha com outros olhos. Sempre com aquele maço nas mãos, maldito. Ele, que me tem em suas mãos, prefere agarrar aquele pacotinho cheio de veneno. Como odeio cigarros!

Já o Fábio... Ah, querido. Sempre alto-astral, vai para a academia, cozinha... É uma belezura! Me divirto tanto com sua companhia... Às vezes, penso até que seria melhor viver com ele e não com Rogério.

Ai, Ana Lúcia! Que baboseira! Imagine só, o que os vizinhos diriam?! "Essa daí, saiu do 41 e pulou para o 45", que horror!

Bom, depois do vinho, a gente passa em algum lugar, compra umas velas. Acho melhor já comprar comida, também. Peixe? Carne? Não sei. O que estiver com a cara melhor. Não vou ficar cozinhando. Iria estragar meu visual. Tenho que ficar linda.

Sorte que o Fábio me acompanha. Ele me acompanha para tudo. Sempre disposto.


(III)

Disposto a expulsá-la de casa, Rogério já não podia suportar tanto sofrimento. Passara a tarde vasculhando as gavetas, os armários da casa, em busca de pistas que o fizessem cada vez mais acreditar em uma possível traição.

Não fora trabalhar. Passara o dia remoendo-se. Ódio. Era isso que sentia. Não diziam que seria o ódio o oposto ao amor? Pois antes o amor sentido, agora se transformara em ódio.

Queria esganar o rapaz do 45. Esportivo, dentes alinhados, bom moço. Sabia cozinhar... Quantas vezes, com um avental amarrado na cintura, não tocara a campanhia para pedir uma xícara de farinha? "Não temos farinha! Ela tem problemas com glúten!", repetia.

- Amoor... Cheguei!

Carregando sacolas de vinhos, queijos, velas - era isso mesmo? Velas?! - e coisas não identificáveis mas que cheiravam a comida, Ana Lúcia tentava se equilibrar para trancar a porta.

Passara o dia inteiro na rua para preparar algo especial para a noite. Sabia que Rogério merecia. Esteve tão irritado durante todas aquelas semanas, coisas do trabalho, sei lá, que um jantar especial, com certeza, faria esquecê-lo de seus problemas.

- Amor? É isso mesmo? Você também chama aquele moleque assim - de "amor"?

Não entendeu. Colocou suas compras de lado, em um canto, e andou em direção ao marido.

- Não, querido, não estou entendendo... - disse enquanto seus braços, carinhosamente, o envolviam - Você não foi trabalhar? - perguntou antes de beijá-lo.

Virou a cara. Não suportava aquela falsidade. Onde já se vira? Ela passou o dia inteiro me traindo e agora vem cheia de mimos para cá? Dirigiu-se para o canto, onde estavam as sacolas. Tirou um vinho e passou a observá-lo.

- O que são essas coisas? Cabernet. 2005. - olhou-a através do vidro. Tudo estava vermelho, transfigurado. Apertou a garrafa pelo gargalo. Fez que a atiraria contra a parede.

- Não! Rogério, querido, o que está acontecendo? Comprei para que nós...

- ... Nós?! Não existe mais "nós", Ana Lúcia.

- Como não?! Você está se sentindo mal? O que está acontecendo, meu Deus? Você está agressivo!

Meus olhos começaram a arder. Arder tanto que parecia que eu estava cortando cebolas. Não, parecia que estavam sendo cortados. Lacrimejavam. Apertei Rogério pelos braços. Ele me empurrou. Caí sentada. No sofá.

- Rogério! Você está louco! O que acontece? O QUE ACONTECE?!


Desatei a chorar. É isso que acontece.
Quando melhor se quer ser, pior acaba sendo.

- Você não vê, Ana Lúcia! Passei o dia inteiro em casa, mas preferia não ter passado. As coisas que vi... Preferia não ter visto. "O que os olhos não vêem, coração não sente", certo? Bilhetinhos do 45? Cartas com declarações de amor? Notas fiscais de lugares onde nunca estive! Ana Lúcia. - parou subitamente. Olhou nos olhos molhados da mulher - Você me traiu.

Ela não para de chorar, caralho. Eu que sou traído e ela que se faz de coitada. Mulher não presta, mesmo. E esses pacotes todos?! Jantar... Com certeza agora deve estar arrependida. Mulher não presta.

- Rogério - ele me faz chorar, para que minha cara fique inchada e minha maquiagem borrada. Não estou acreditando. Tenho que parar de soluçar - com quem eu teria te traído?

- Aquele moleque, do 45.

- Fábio? Atleta, bonitão?

Ainda tem coragem de chamá-lo assim, e com essa calma. Para de soluçar, porra!

- Aquele atleta, que ficaria lindo depois de uns socos, sem dente, roxo.

- Rogério! Por favor, pare. Pare! Não fale assim...

-... DO CANALHA? Agora devo também elogiá-lo? Ah, sim, e por que não dividir você com ele... Chame-o aqui. Adoraria um ménage! - minha vontade é de ESPANCÁ-LO.

Não acredito. Não acredito que ele pensa que o traí. Não acredito. Sinto vontade de rir. De gargalhar. HAHAHA. Agora, além de soluçar, estou gargalhando. Para! Para de soluçar, ou de gargalhar... Olha a cara do Rogério! Meu deus, ele não está entendendo nada... Coitado! Eu, com Fábio? hahaha, eu e Fábio! Tenho que parar de soluçar! E de gargalhar! Ele está ficando nerv... Eu com o Fábio! Quem diria...

Vadia, ainda tem a coragem de rir na minha cara! Gargalhando, descaradamente. Mulher não presta. Ana Lúcia, Laura, Rosângela, Márcia, Marcela... TODAS! Qualquer uma! Puta-que-o-pariu!

- PARE DE GARGALHAR! - berrou enquanto os soluços de Ana Lúcia misturavam-se, desesperadamente, às risadas.

- Rogério, Rogério... Fábio não gosta de mulheres.

- Viado! Fui traído por um viado? Só me faltava essa!

Não acredito. Sinto vontade de rir. De gargalhar. HAHAHA. Homossexual, Fábio! Quem diria! Eu bem que suspeitava... Aquele avental, aquele jeito delicado, sabia bem escolher as palavras, mal usava palavrões.

- Não foi traído, Rogério! Eu nunca faria uma coisa dessas!

Não, mas não é possível. GAY? Ainda não estou acreditando. FÁBIO? GAY. Mas, por que ela esconderia isso de mim? E esses passeios...

- O que significam essas fotos, então? - disse, revirando a gaveta em que as encontrara.


- A gente tem saído, ele tem me ajudado muito, hoje mesmo, fomos comprar as coisas para você. Ele gosta muito de você.

- E o que são aquelas notas, bilhetes?

- Para você.

Quero rir. Muito. E abraçá-lo. Como é bobo! Meu deus! Como foi capaz de pensar uma coisa dessas... Quero rir. Muito. E abraçá-la. Como sou bobo. Mas não é possível... Gay?! O Fábio? Mas ele e Ana... Como fui capaz de pensar uma coisa dessas... Ele pensou que estávamos juntos. Ciúmes de alguém que nem de mulher gosta. Gosta como amiga, como todos os homens deveriam gostar. Ciúmes de alguém que nem de mulher gosta... Amiga, vá. Que graça tem sendo só amigo?

Começou a chorar. Ou melhor, ambos tinham os olhos molhados. Se abraçaram. Se beijaram. Tomaram o Cabernet. Comeram. Sorriram, riram. Se abraçaram. Se amaram mais do que nunca. Acima de tudo, perceberam: as surpresas muitas vezes traziam surpresas, para ambos os lados. Surpresas, realmente, inesperadas.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Açúcar-Cera



Aquece-se o açúcar. Seus grãos se fundem, tornando-se uma pasta. A consistência passa a ser grudenta. O branco, antes, quase transparente; agora, é bege escuro, marrom claro. Se mantido por muito tempo no fogo, endurece, enegrece. O doce, mantido outrora, passa a amargar a boca de quem o prova. Perde seu valor.

Assim como o açúcar na panela para virar caramelo, a vida de algumas mulheres, em plena Beirute, também passa a ser mexida, revirada, movida por acontecimentos externos mas inerentes a suas emoções, a seus mais íntimos sentimentos.

A descoberta de ser a amante, quando se pensava ser exclusivamente amada; o casamento que está por vir, mas a virgindade que já se fora; o amor passível na maturidade, em oposição aos cuidados com a irmã mais velha; a menopausa se aproximando, onde apenas se é rondada por jovens; a homossexualidade, quando o principal assunto são os homens e a vaidade feminina.

Por esses, e outros conflitos, passam as cinco personagens centrais do filme Caramelo, da diretora e também atriz Nadine Labaki.

Em um cenário tipicamente feminino, um salão de beleza - e em meio a tinturas de cabelo, cremes faciais ou maquiagens-, as histórias passam a envolver ora pela doçura, ora pelo sofrimento. Derretem feito açúcar sob nossos olhos, transformam-se, seduzem. Enquanto ao mesmo tempo, trazem a tona a solidão muitas vezes sentida.

Se por um lado, causam o prazer típico do açúcar; por outro, são como a cera usada para depilação: arrancando a dor que há por dentro de cada pessoa.

O caramelo no filme, inclusive, é o ingrediente principal para a depilação. Sendo assim, o doce açúcar é usado para arrancar, dolorosamente, aquilo que não corresponde ao padrão de beleza.

Entre risos, choros, sussurro e gritos, a vida delas, porém, continua. Como a de todos. Doce, mas na medida certa. Sem nunca perder o seu valor. Ou passar do ponto.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Olhares

Batera o sinal. Agarrou sua mochila, abriu a porta da sala de aula e saiu corredor à fora, rindo.

- Ei, você não precisa correr! Volta aqui...

Os passos trôpegos a fizeram cair nos braços do menino que a chamava, colega de classe, típico estudante de colégio de classe média - com cabelos lisos caindo sobre os olhos ("Você tem que cortar, garoto! Tá ficando muito... Feio!", dizia), algumas espinhas no rosto e gosto musical duvidoso - que a acompanhava sempre até sua casa, ouvindo-a falar sem parar.

Viraram à esquerda, entraram em outro corredor repleto de salas e armários escolares. O chão verde brilhante, agora, era o caminho para a saída. Nunca vira colégio tão labiríntico quanto aquele ("É para que a gente fique preso para sempre aqui dentro", diziam). Porém, ela nunca se perdera.

Dona de si. Até que era bem independente para sua idade. Sabia o que queria, ou ao menos, pensava que sabia. Difícil influenciá-la. Alguns a achavam teimosa. Ela preferia apenas ser, digamos, difícil de ser convencida.


Seu olhar, por outro lado, perdera-se em meio a tantos outros. Convenceu-se em parar abruptamente. Deixou-se levar. Congelou no de outro rapaz. Simples. Rápido. Em apenas um instante. Os olhos claros se fixaram como flechas nos dela - imãs. Prenderam-se, assim como prendera o tempo, também congelado.

Já havia conversado com ele. Bem mais velho, a ponto de, inclusive, ter o "ar de velho sábio". Não, não. Ar de quem entendia de tudo. Das coisas. Da vida. Das mulheres...
Aliás, várias delas se encontravam ao seu redor. Ele, encostado na parede, com a perna em cima de uma cadeira que segurava a porta e várias daquelas meninas-mulheres que mesmo vestidas com o mesmo uniforme branco e azul-marinho que ela, pareciam mais bonitas, lindas, reluzentes. Os cabelos bem arrumados, as peles maquiadas, as unhas pintadas.

Claro, eram bem mais velhas também. Mulheres. É, eram mulheres. Tinham aprendido a se portar como tais, pelo menos. Ela, em compensação, era uma menina que mal sabia ser moça (apesar das tentativas vãs). Se elas se formavam dali a pouco, no ensino médio; ela, no ensino fundamental. Ridícula. Pequena. Nada. Mal podia haver comparação.

Enquanto ela deixava a infância - elas, a adolescência. O que não sabiam, porém, era justamente nesse ponto convergirem: na dificuldade de soltar as respectivas amarras.

Era o último ano em que as veria. Era o último ano em que o veria. Assim. Tão perto. Tão longe. Sabia que o abismo da idade era, apenas, aparente. Dentro de alguns anos já não seria tão assustador. Só ver o exemplo de seus próprios pais: deviam ter uns... 4, 5 anos... Sempre pensava que enquanto seu pai tinha 15, sua mãe, apenas 10. Era uma meninota! E ele, um rapazinho. Nem sonhavam em se encontrar. Imagine só.

Já entre eles... Ora, seriam o quê? Quatro anos? Menos, até. O que são três anos de diferença entre duas pessoas?! Dos 19 para os 22. Dos 31 para os 34. Dos 59 para os 61. E dos 86 para os 89?! Nada... Aquilo não era nada!

Estava ali, rindo nos braços de um com o olhar fixo/parado/imóvel no outro. E ele estava lá. Ouvindo as risadas das outras com o olhar fixo/parado/imóvel em uma.

Sorriram.

E o instante infinito daqueles olhares e daquele sorriso perdurou para sempre na memória dela.

domingo, 28 de junho de 2009

Nuvens

De repente, tirara os olhos do livro e virara-se para o céu. Percebeu como, de uma hora para a outra, milhares de nuvens encobriam o azul e, como algodões, dançavam no infinito.

Cobriam de uma mesma cor, mas corriam em direções diferentes - via uma a se engrandecer enquanto outra passava como seus olhos faziam nas páginas amareladas.

Eram tantas que mal podia diferenciar suas formas. Aliás, essa era uma brincadeira rotineira de sua infância. Quantas não foram as horas em que ela se perdera olhando para o céu, imaginando coelhos, gatos, prédios, pessoas, barcos, frutas... Isso quando não, apenas, deitava-se nos bancos do andar térreo do prédio de sua avó e, de baixo, admirava-se com o tamanhão do prédio que parecia se movimentar em contraste com o céu.

O vento também a distraíra: uma porta batendo ao fundo, o farfalhar das folhas, o sopro em seu ouvido.

Como crianças, as nuvens brincavam empurradas pelo vento em seus balanços invisíveis. O sol tudo observava, às vezes escondido atrás delas, deixando-a gelada na sombra; outras vezes, a queimar sua pele, beijar-lhe o rosto.

Na sua frente, uma fileira de pequenas árvores dançavam completando a cena dirigida pela natureza. Eram pinhos-bravo. Mas pareciam tão delicados...

Além do som do vento, a soprar em seu ouvdo, podia ouvir o cacarejar, abafado pela distância, de uma galinha. Onde estaria o animal? Seria só a distância que abafaria seu som ou também o tempo? Ouvira uma vez que galinhas poderiam muito bem ser parentes de dinossauros... E se, perdidos em meio aos morros, longínquos, também não haveria alguns deles, vivendo num tempo inalcansável, dada a distância inatingível...

Eram esses os morros que a encaravam: cobertos por um manto verde, repleto de bolinhas - na verdade eram árvores, ela sabia, mas preferia enxergá-las assim como as via: eram bolinhas, apenas feitas para formar uma textura sobre a terra em curvas que recortavam o horizonte. Morros infinitos, assim como o céu, descansando acima deles.

Quase sólida, uma enorme nuvem fez de sua vista mais escura. Passava, sem pedir licença, sobre sua cabeça. Quem seria ela embaixo daquela imensidão?! Sentiu um pequeno pingo pousar em sua pele. Quanto não teria viajado, daquela nuvem até ela, apenas para descansar em sua pele?

Esfriou. O vento gelado já não sussurrava canções incompreensíveis - pedia para que ela se retirasse. Já estava há muito tempo os observando.

Colocou seus chinelos, puxou a cadeira e seu livro e entrou. Deitou-se no sofá decidida que voltaria a ler... Até perceber uma lagartixa verde-musgo rondando uma mosca parada. O teto, apesar de não tão infinito quanto o céu, também continha aquela que, naquela manhã, não a deixava ler. Desistiu. Permaneceu parada, observando.

Campos do Jordão, 28 de junho de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Marrom-Vermelho

O céu estava vermelho como sempre. Foi-se o tempo em que os céus eram azuis ou cinzas. Aliás, aquela geração de crianças que agora comandava o pedaço de país a que estavam destinadas nunca haviam conhecido a cor azul.

Tomavam uma bebida gasosa, marrom, e se deliciavam após os arrotos. Os adultos apenas existiam para serem máquinas e os velhinhos eram todos jogados em casas com plantas murchas onde eram esquecidos.

Era um tempo difícil, muito difícil. A comida não era escassa, mas nada nutritiva. Sendo assim, crianças morriam desnutridas - as mesmas que sugavam pelas manhãs o líquido marrom-gasoso.

Em certos lugares de latas enferrujadas, um certo tipo de adulto tentava rabiscar algo em pedaços verdes das paredes. O lixo, também enferrujado e ao lado dos retângulos esverdeados, servia de alvo para as plaquinhas de metais atiradas pelas crianças.

Não tinha papel, e aliás, as palavras só chegavam aos interessados por meio de uma tela quadrada - que ficava preta ao apertar um botão - e que estava conectada a vários botões de letrinhas.

Cada vez que se apertavam os botões de letrinhas as mesmas iam aparecendo nas telas. Quem fazia isso eram outros tipos de adultos, que passavam o dia sentados nas cadeiras escutando um aparelho que falava as coisas que estavam acontecendo pelo mundo.

O mundo, com céu vermelho, também não tinha árvore. Animais tinha sim... Umas baratinhas que eram adestradas para divertirem as crianças em seus dias de stress. Inclusive, os adestradores de baratas eram pessoas perigosas, que se quisessem, poderiam formar um exército delas para atacar aqueles que passassem o dia em frente às telas.

Além dos adestradores de baratas, existiam outro tipos de pessoas perigosas. Eram os adestradores de balas. Não as docinhas não, as de chumbo, mesmo. Eles usavam um cano com um gatilho que ao ser apertado deixava o corpo das pessoas vermelho. Que nem o céu. O céu era vermelho.

Também tinha um outro tipo de adulto que passava todas as horas correndo. Corria do tempo, da polícia, dos quilos a mais. Corria tanto que seu rosto era deformado pelo vento contrário a sua direção. De tanta deformação, o adulto-corredor tinha que se submeter às plásticas - e então, encontrava-se com a adulta-plástica e tinham filhinhos.

Os meninos não bebiam leite materno. Bebiam líquido marrom-gasoso, desde sempre. Recebiam, quando iam para o latão enferrujado, latinhas de líquido marrom-gasoso. Alguns de tanto líquido-gasoso se tornavam bolhas de gás e saíam voando.

Voavam pelo céu vermelho.

terça-feira, 2 de junho de 2009

B-u-n-d-a.

Esse país é uma bunda. Bonita, redonda, carnavalesca. Diz que aceita as diferenças. Diz que merece respeito. Diz que tem o melhor futebol, o melhor carnaval, o melhor biocombustível do mundo e a melhor população. O povo mais hospitaleiro, mais generoso. As brasileiras são as mais lindas. Nossos bosques têm mais vida, nossa vida no teu seio mais amores.

Temos uma democracia, o melhor sistema eleitoral. Temos urnas que funcionam, modernas, bonitas, que funcionam! Temos políticos que não se lixam para a opinião pública. Temos políticos que se lixam, mas quem se importa?! Quem se importa para a opinião pública?! Quem tem uma opinião pública? Quem concorda com a opinião do público? O público tem uma opinião?

O público tem alegria! Tem alegria e leite em pó para a criança, que se derrete na escola de latão - que se aventura por rios caudalosos para chegar ao barraco chamado "escola". Escola é aqui, é ali, o país é uma escola! Somos todos alunos, atentos mas que celebram quando o professor falta: aula livre. Liberdade!

Liberdade de se expressar - mas cuidado com o que vai falar. Liberdade de achar e desachar - mas cuidado com o que encontrar. Aliás, melhor não procurar. Espere que alguém procure por você. Com certeza algum otário perderá seu tempo procurando, aí você só joga um charme e já era - achou sem nem procurar. Malandrão.

É o pato? Nada. Pato é quem paga. O pato. Nós pagamos, mas nem vem cobrar juros que aí o que você terá é calote. Assim mesmo. Ah, não vai acontecer nada mesmo... Mesmice.

Mudam-se os tempos, mudam-se as pessoas. Mudam nada. Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Não, não diga isso! Temos que contradizê-los, rebelarmos, fazer valer a força da juventude, essa garra, energia que transbordamos. Vamos mudar, mudaremos. Assim como tá não dá. Dá? Deu. Deu-deu, não, vai dando. Sempre com jeitinho.

Mas faz o seguinte: a gente finge que não tá satisfeito e reclama, tá? Aí a gente reclama de tudo. Do vaso, da vida, da vizinha, do vidro. Da sopa, da sola, do soco na boca. Do amigo, inimigo, arquinimigo. Afinal, quem é amigo mesmo? É mesmo? Então prova. Prova que nesse mundo só acredito vendo.

Já vi coisas de menos, quero ver coisas demais então comece provando sua tese para que eu depois reprove, questione, não entenda e continue achando que não foi provado. Não vou ouvir o que você disse, porque sei que estou certo.

Certo dia tudo pareceu certo. Foi horrível. As coisas não têm que estar certas. As coisas tem que estar errada. A criança tá morrendo de fome na África! E do lado de casa?! Também! Você viu? Não!

Não quero lhe falar das coisas que aprendi nos discos. De nada valem. O que vale é que estamos aqui, firmes e fortes na parada. Para o que der e vier. Reclamando para não perder o costume. Fazendo alguma coisa? Reclamando, oras. Reclamar não basta?

Esse país é uma bunda mesmo.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

X e Ypisilon

Ele, definitivamente, não combinava com ela. Ele gostava de conta; ela, de palavras. Quando nervosa, ela se punha a escrever. Ele, a fazer exercícios. Físicos. Ela amava barrinhas de cereais. Ele as detestava - preferia sanduíches gordurosos e refrigerante. Ela não suportava o gás da bebida (e isso incluía da cerveja, coisa que ele vivia tomando com seus amigos).

Ela amava música brasileira. Ele odiava a fonética do português daqui. A letra dele era feia. Dela, bonita, caprichada e redondinha. Ele sempre, mas sempre mesmo, conferia o troco - ela, perdera várias moedas por não conferi-lo.

Se um lápis parasse na mão dela, rabiscaria em qualquer lugar. Ele o faria girar entre os dedos. Nunca ia ao cinema sozinha. Sempre. Sempre usava tênis. Nunca. Vinha de uma família grande, cheia de primos e era a irmã mais nova. Ele era o mais velho e nunca conhecera os avós. Quando pequena, adorava desenhar. Ele odiava aula de artes.

Exatamente humana. Humanamente exato.

Eles não tinham nenhuma afinidade em comum.
Nem amigos iguais.
Nunca, também, frequentaram os mesmos lugares.

Eles nunca se conheceram.
E viveram felizes para sempre.

[Você achou que eu terminaria com um "os opostos se atraem"?]

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Morte

Em vida, a morte é algo difícil de se digerir. Principalmente, por ser ela que, lentamente, digere a vida. Vai aos poucos minando o que resta do ser. Leva, de uma hora para outra, quem menos se espera ser levado. Leve. Ou o contrário. Carrega, ainda que em vida, aquele que sabe ser por ela carregado. Pesado.

Começa junto ao nascimento: não tem jeito. Tudo que nasce está fadado a morrer. Fatalmente isso acontecerá (e aí "fatalmente" entra como melhor advérbio possível para se exprimir isso). Inexorável, óbvio. A morte aguarda finalmente o dia em que resolve aparecer. E esse dia é certeiro.


Quando aparece, não transforma o ser em pó; mas em lembranças, em memórias de outras pessoas. Parte daquilo que um dia foi, continua sendo - mas em outros. Canções, momentos, frases, risos. Guardados em diferentes corações, aquilo que um dia já foi de um só.

Não adianta remoer a dor da perda. Nem adianta manter o espasmo da notícia. Aliás, nada adianta depois que tudo se foi. O difícil é acreditar.

Não dá para crer em algo desconhecido. Não dá para pensar que, de fato, aconteceu. Impossível aceitar a possibilidade de nunca mais ouvir aquela voz, de nunca mais olhar àquela expressão. De nunca mais tocar, ou ser tocado.

Uma gravação, uma foto, um vídeo. Ok, são resquícios do que se foi. Mas nunca, nunca, serão capazes de trazer de volta a matéria. Trazem de volta, e à tona, as lembranças. Quantas músicas não ouvimos daqueles cujas vozes não criam outras palavras? Quantas fotos de seres que agora se esvaem e não mais podem ser vistos? Quantos escritos deixados? Provocam imensa dor. Provocam imensa nostalgia. Provocam a presença da ausência e pior: a certeza da ausência. Provocam saudades.

De certa forma, nos deixamos, nos marcamos em outros - sejam objetos ou pessoas - como forma de se perpetuar. De não sermos esquecidos, de não cairmos no breu infinito daqueles que já não fazem parte da memória de ninguém.

Muitas vezes já pensei que o medo da morte seria mais um medo do esquecimento do que da própria perda de vida. Ninguém quer adentrar ao desconhecido, por mais corajoso que se diga ser. Somos, todos, carentes e covardes. Ninguém quer, também, que uma existência tão sem sentido, como parece ser, muitas vezes, a da vida, culmine em uma insensatez perversa.

Valer a pena é o que se divulga por aí. Valer a pena. Cultivar a felicidade. Ser constante, presente, pulsante a todo momento. Exalar energia, absorver pelos poros todas as mais singelas manifestações do mundo. Todas. Tudo no infinitivo. Ou imperativo. Nunca, mas nunca, no gerúndio - não temos tempo para manter ações constantes.

Viver tanto e tudo como forma prática de não se lembrar da morte. Escrever sobre ela, então, pior ainda! Onde já se viu?! Falar de algo tão pessimista, tão sombrio, tão gelado e que agora mesmo foi capaz de trazer um arrepio às espinhas? Um sopro frio às costelas...

Aliás, como pode você, menina, com tanta saúde e vida pela frente parar e dedicar seu tempo para escrever sobre aquela coisa a que estamos fadados e, que, na melhor das hipóteses, não deve ser dita. Ou melhor, pior ainda você, com tantas idéias pela cabeça, tantas obras-primas a serem lidas, tantos filmes de diretores conceituados a serem vistos e mais: tantos trabalhos a serem feitos (o fim do semestre se aproxima, você vai ficar aqui lendo e deixando tudo para última hora?!), gastar um tempo do seu dia lendo alguém falar da morte.

Gastar seu tempo. O tempo vai, foi, e, já falei: perdeu-se agora mesmo, neste instante. Tempo da sua vida acaba de passar e você lendo sobre a morte. E eu aqui escrevendo. Imagine, que atentado faz essa garota, dizendo que morreremos! Acusando-nos à morte, assim, tão explicitamente.

É... Há quem a espere. Há quem prefira esquecê-la. Há quem festeje seu dia ou quem em prantos se afogue. Há quem a aceite. Há quem a negue. Não importa. Ela virá para todos. E para tudo. Falemos ou não, ela tá aí. Ela chega numa conversa inesperada ao telefone.

De repente, não mais que de repente, somos abalados por um "lembra de fulano? Pois é...". E somos abalados justamente pela exigência do viver, que apita a cada instante: será que teremos tempo suficiente para fazermos tudo que nossas cabeças malucas se propõem a fazer? Será que ele teve tempo suficiente para me mostrar tudo que eu seria capaz de perceber?

Será que teremos tempo para a poesia da vida enquanto escrevo aqui, em prosa, a morte?

Breve - assim parece ser a vida.
E, também, o instante da morte.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Leia-tudo-continue-lendo-leia-leia-aí-embaixo

"Garagem";
"Rua Maria Alfreda";
"Aluga-se apartamento";

"Velocidade KM/h";
"Delicie-se com o novo suco HuuumAh";
"Contratamos faixineira".

"Feira de filhotes!";
"Doe sangue!";
"Prefeitura de São Paulo: trabalhando por você";
"6245 - Pça. da Bandeira".

"Novo empreendimento imobiliário: consulte os preços acessíveis!";
"PARE";
"Não pare o carro no cruzamento";
"Estacionamento 24h";

"Suco
Picolé
Água de Coco
Tapioca
Caldo de Cana
Pastel
Carne
Queijo
Pizza
Frango
Escarola";

"Entrada à direita";
"Identifique-se - tenha o RG em mãos";
"Sorria: você está sendo filmado";
"Térreo";
"Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar".

"Consultório dra. Maria Antônia";
"Mônica";
"Gelada Fria";
"Ah-ma-ga-li não sei co-mo vo-cê con-se-gue co-mer tan-to e não en-gor-dar";
"É mesmo?";
"Aliás... tem tanta coisa que a gente não consegue entender...";
"Ué, cadê meu pedaço de pizza?".

- Ai, mãe, vai demorar? Eu não consigo parar de ler tudo que aparece na minha frente!

Disse a menina que acabara de aprender a ler, com seus pés balançando e sentadinha no sofá a espera de ser atendida.

[E que continuou lendo tudo que aparece na sua frente, mesmo depois de anos]

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Televisãozão

Era a primeira vez que seria levada ao cinema. Apesar da insistência, sua mãe sabia que seria impossível lidar com a impaciência da menina, de apenas 2 anos, durante uma hora ou mais de filme. Adiou ao máximo para que este dia chegasse, mas não conseguiu.

Pular durante a sessão, sair gritando comentários do filme, assustar-se, derrubar toda pipoca - estas seriam apenas algumas das reações possíveis imaginadas pela mãe, que com certeza, se concretizariam caso a levasse para ver um filme antes que fosse lançado em VHS (naquela época não havia DVD). Não se concretizaram.

O filme era Alladin. As luzes se apagaram. A tela, enorme, já havia sido alvo de espanto para a menina. Os trailers começaram.

Ela se levantou, esticou seus braços ao máximo, como se quisesse abraçar o retângulo branco a sua frente, e disse:

- Nossa! Que televisãozão!

Depois sentou-se, e, calada, assistiu ao seu primeiro - de muitos - filme na telona. Comportadíssima e espantada com a magia do cinema.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Condenado

Estava destinado a ter um cachorro Cocker sem graça, uma mulher que mimasse o cachorro Cocker sem graça, uma filha com aparelho nos dentes viciada em video-game que também mimasse o cachorro sem graça. (E ninguém que o mimasse - apenas que pedisse para ele também mimar o cachorro Cocker sem graça)

Ia acordar às 6h, todos os dias, bater cartão como funcionário de uma repartição pública, tomar cafezinho todas as tardes na copa. Cumprimentar o porteiro, voltar para casa, levar o cachorro para passear e dar mais jogos para a filha. Visitar a sogra aos domingos, comer a mesma macarronada com frango, ler o jornal de vez em quando e assistir ao Fantástico.

Antes, jovem que era, sonhava com um mundo de possibilidades. Agora, com cabelos grisalhos a surgirem e o maldito Cocker a latir, não entendia no que errara - mas sabia que as possibilidades não eram bem possibilidades, afinal, a escolha seria única e o que se escolheu já era previsto.

Poderia ter aceitado a mudança de país logo num de seus primeiros empregos. Não quis. A mulher o convencera de que não se adaptaria e já estava na hora de ter algo sólido onde sempre vivera. Mudar de país acarretaria um novo começo de vida e se fosse para ter um novo começo de vida que fosse colocando uma menina no mundo.

Poderia ter bebido mais em encontros com os amigos - deixara de entender muitas piadas, foi sério demais. Aliás, levara a vida muito a sério com sua água tônica. Em compensação, não tivera problemas no fígado como alguns de seus companheiros. Nem problemas no casamento.

Antes não sabia o que seria dele. Poderia saber, mas preferia optar pelo desconhecido. Não acreditava em destino. Agora, tinha a certeza de qual seria seu futuro.

Continuaria tendo que aguentar o cachorro maledeto, passear no parque com a filha depois de muita insistência de sua esposa, levar a menina ao dentista, comprar aquela bota de cano alto de presente de aniversário para a mulher, passar sempre no jornaleiro - folhear todas as revistas - e sair com o mesmo jornal, carimbar os processos que se acumulavam em sua mesa, e beber água tônica.

A certeza de saber o futuro transformou as peripécias do destino em algo tão óbvio que preferia, mas não admitia, ter a incerteza que sempre tivera.

Preferia, no fundo no fundo, poder jogar de lado toda aquela previsão do que a que estaria fadado - seja lá o que isso fosse. Era tarde. Estava condenado.

domingo, 5 de abril de 2009

Trilha Sonora

Quando o inverno chegar, eu quero estar junto a ti. Pode o outono voltar, eu quero estar junto a ti. Todo feliz, ele ia cantarolando Tim Maia no caminho de volta à casa. Depois de um dia de trabalho seguido por aulas, cansado, tinha que andar por várias ruas até chegar ao seu destino final. Não era problema. Tinha na melodia uma bela companhia.

Logo após entrar em sua rua, percebeu que a vizinha, desde o portão, exaltada, o chamava.

-Você soube do seu tio?

O menino, que tinha uns 15 anos, sabia bem do seu tio Eustáquio, de 39, internado, por problemas no fígado. Sempre bebera. Apesar de receber milhares de conselhos para que parasse com o vício, nunca dera ouvidos. Nem mesmo quando a doença se agravou: insistia na companhia etílica, enquanto desistia da companhia de dona Iracema - que mesmo depois de anos namorando, nunca conseguira convencê-lo de se casarem. Ele era teimoso, mas adorava o sobrinho. Ela esperançosa, e sempre comprava balas para o menino.

- O que aconteceu? - disse, enquanto pensava nos versos seguintes de Primavera.

- Morreu.

Assim mesmo, seca, soltou o acontecimento do dia que pairava sobre a vizinhança. A música parou. As imagens do tio, como em flashbacks, atingiram sua mente. Aquela música nunca mais seria a mesma.

Anos depois - muitos, diga-se de passagem - a voz do Tim Maia invadiu o carro que dirigia. Com sua filha ao lado, lembrou-se do episódio.

Engraçado como que músicas acompanham momentos de nossas vidas e marcam para sempre situações.

Não tem jeito. Algumas inexoravelmente estarão atreladas às passagens fortes em que foram ouvidas. Ou nem precisam ser passagens tão fortes assim.

Em um feriado chuvoso, na praia, lá estava eu - escrevendo. Não sozinha, acompanhada por uma grande amiga, e a letra de I Will Survive nunca mais foi a mesma. Um fim-de-semana no sítio e Pedra Letícia nunca mais será a mesma.

Até Maria Chiquinha me faz lembrar um certo karaokê de quando pequena. Nunca mais é a mesma. Claro que Dancin´Days lembra outro karaokê de quando mais grande - só que ainda pequena. Aliás, karaokês marcam noites e músicas. Cantar marca noites e músicas. Mesmo que cantemos tudo errado - e Dig-Dig-Joy sempre virá com um caubói.

Tem também as músicas que marcam épocas. Não vou falar da MPB e a ditadura. Não me marcou com tanta intensidade assim. Mas se ouvir Cartomante inevitavelmente lembrarei da minha mãe, emocionada, lembrando do tempo em que corria dos cavalos em plenas passeatas de São Paulo, lembrando das amizades que perdera para nunca mais.

Para mim, as épocas são mais singelas. Menores, claro. Mas não de menos importância. Mais fácil: época são fases. E das mais variadas, incluindo, sem ter porque esconder, bandinhas de punk-rock, micareteiros ou até Boate Azul. Não, meu passado não me condena. Apenas me faz rir. Isso é bom.

Há ainda as músicas que lembram pessoas. Marvin, por exemplo, para mim é um nome de peixinho laranja - e então a música me faz lembrar seu dono. Não tem jeito. Sem contar aquelas que se ouve ao lado de alguém. Ou de alguéns. Pronto. Ficarão marcadas.

Se alguém quiser dar uma serventia às músicas, com certeza é embaralhar nossas vidas à arte. Não é a toa que em filmes sempre há trilhas sonoras. Para que agora, confusa, eu diga que elas formam nossa trilha sonora miscelânica. Única e especial.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Minutos Divagados

Ouvi dizer que escrever em primeira pessoa é mais difícil e que a partir do momento em que se escreve em primeira pessoa, você estará apto para escrever em qualquer outra pessoa e sob qualquer outra fachada.

Para mim existe apenas a dificuldade de aceitar o que realmente se quer dizer e o de dar as caras para quaisquer que sejam as consequencias posteriores ao derramamento das palavras. Colocar em terceira pessoa facilita as horas depois. Evita a posição de culpado.

Quem disse foi ele, quem fez foi ele, ele que acha isso ou aquilo. Mesmo que ele seja um eu disfarçado. Discorrendo ainda sobre aquilo que escrevi no texto anterior (e isso me faz lembrar a prateleira dos dias em que estas doses estão organizadas), acredito que a mudança desses últimos dias se deram justamente a isso: a terceira pessoa resolveu não ser mais personagem.

O abandono do outro me faz parecer bem mais sem graça. Para quê ler aquilo que ela pensa e diz, assim mesmo - sem cuidado nenhum, na primeira pessoa?

Para deixar bem claro a fronteira da ficção. Ficção, esta, no entanto, que muitas vezes é bem verdade.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Homenagem ao Dia

Nunca mais vou escrever neste blog.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Segundos Divagados

Faz tempo que não escrevo histórias. Faz tempo que a terceira pessoa resolve não ser mais personagem - mesmo que essa terceira pessoa seja a primeira, disfarçada.

Engraçado seria se tivesse a capacidade de falar, falar, falar, juntar as falas, linkar tudo em um texto só que faça sentido - por menos que esse sentido pareça imperceptível. Na verdade, eu tenho. Todos têm. Mas é uma capacidade que nesses tempos em que tudo tem que fazer sentido e se não fizer, algo há de errado; que apenas o óbvio do sentido acaba sendo valorizado.

E aí, pensa-se menos - porque pensar dá trabalho. Lê-se menos - porque ler coisa que é preciso reler cansa. Faz-se menos.

Está vendo? Foi nessa de pensar-ler-fazer menos que as coisas ficam paradas. E ficam paradas esperando sempre uma forma mais óbvia de surgir. Mais fácil, menos complicada.

Aliás, isso do óbvio é uma coisa que para mim parece óbvia. Mas não é (porque se fosse todos pensariam que não é óbvio, que é o que acontece na maioria das vezes).

Se está muito subjetivo e você não entendeu isso do óbvio, então vou dar o exemplo mais óbvio para que você veja como parece difícil mas na verdade é o meu óbvio, então é fácil.

Tem aqueeeeeela pessoa que todos acham ma-ra-vi-lin-da. Isso é óbvio. A beleza é óbvia. Só que a beleza óbvia é chata. Extremamente chata. Afinal, a pessoa é linda, mas é chata. Logo, você e mais trinta foram levados pela beleza óbvia e - se por sorte, ou, pensando bem, azar - a pessoa da beleza óbvia acaba escolhendo você e deixando as outras 29 simplesmente por você, você aguenta a pessoa da beleza óbvia e descobre o quão ela é chata.

E aí se frustra. A frustração é uma das piores coisas que existem, eu acho. Só que as pessoas só se frustram por criarem expectativas muito altas. Mas se você não cria expectativa, então o que será o motor para a vida e para as situações futuras? Ou o problema está aí na palavrinha que envolve o futuro?

Tempo é uma coisa legal. Ninguém sabe o que ele é, ninguém sabe o que é o passado nem o futuro. O futuro menos ainda, porque ele vira presente num piscar de olhos - mesmo tempo em que vira passado.

Uma vez me disseram que Tempo poderia ser Deus. Deus, quero dizer, é o tempo. Foi a mesma pessoa que falou que o céu é, talvez, a coisa mais linda do mundo. Na verdade não sei se o adjetivo foi esse - linda - mas que me fez reparar cada vez mais do céu, ah, isso fez.

E vale a pena. Sempre que você olhar para o céu será uma visão única. Pode passar um segundo e o céu não será mais o mesmo. E se você pensar na variedade de cores que existem nessa palheta que ronda sobre nossas cabeças? É única!

Voltando um pouco à questão do céu e do tempo, não é só o céu que muda a cada segundo. É tudo. Quando eu falo tudo é porque é tudo de verdade.

Isso é um pouco assustador. Se nada fica, então por que querer deixar algo que pareça eterno? Por que construir algo que seja para sempre? Sempre não existe, oras!

Ou melhor, sempre existe em uma fração de segundo. Em uns minutos. Agora.

Cão sem dono



Ele não tinha dono. Nem ela.
Ela disse que a vida é feita para sonhar.
Ele, para viver.

Ele era tradutor. De russo.
Ela era modelo. Linda.

Eles se amavam.

Ela ficou doente. Câncer.
Ele entrou em crise. Existencial.
Há tempo pedia para entrar.

Falta dinheiro, falta trabalho, falta vontade.
Faltava ela.

Crise.
Angústia.
Desespero.
Dor dos dois.

Pelo menos, tinham os quadros do porteiro.
E uma possível ida a Barcelona.

[Sinceramente? Depois do filme fiquei meio assim, sei lá - 01.12.08]

[Sinceramente? Estas palavras estavam há tempos perdidas aqui e não sei porque apareceram apenas agora]

domingo, 22 de março de 2009

Cíclico

Começa desse jeito. Com aquela vontade. Você vai, enrola um pouco, diz que não. Vai fazer outra coisa. Passa.

Quando menos espera, volta. Volta mais forte do que nunca. Torna-se incontrolável, uma necessidade. "Preciso". Quero muito. Tem que dar certo dessa vez. Agora vai. Você tenta. Não consegue. Frustrante. Esquece. Dá raiva. Raiva.

Depois de um tempo, vem de novo. Outra vez. Não é possível. Torna-se um desejo incessante. Um vício. Não sai da sua cabeça.

Enquanto você não fizer, não vai sossegar. Vai continuar atrapalhando seu sono, pinicando sua mente. Quer saber? Agora vai mesmo.

Dane-se o que os outros pensarem. Se der errado, não tem problema. Aliás, não tem como dar errado, vem de dentro. De dentro e para dentro.

Não, não tem que ficar pensando. O jeito é encarar o nada, esse branco vazio e fazer isso logo. Você vai ver. Quando menos esperar, aquilo surge. Urge. Aparece.

E alivia.
Dá certo.

Pronto, fiz.

[só que uma coisa é certa: voltará com a mesma força do começo]

sexta-feira, 20 de março de 2009

Doses de Sambuteco

Busco inspiração. Atualmente a vida tem se mostrado muito monótona aos meus olhos. Doses de turbulência viriam como a chuva no nordeste, como o sol no litoral.

Não, na verdade, cansei da inspiração. Cansei da idéia de ser inspirada. De ter sempre que superar alguém nessa inspiração. Superar algum objetivo. Superar. Suspirar. Superar. A vida tem se mostrado muito agitada. Tão agitada que o tempo para mim não chega, foge. Doses de turbulências já vieram e - pode acreditar - foram elas que levaram a tal da danada da inspiração, que se encolheu num reduto perdido de minha cabeça e custa sair de lá (em um medo estranho de se compreender).

Tenho pressa. Minha cabeça entra num labirinto e quero que ela saia logo, mais dinâmica.

Não, não tenho pressa. Paira em mim a mais irritante calma do mundo, que implora pra que tudo ao redor pare de achar que tenho pressa, que temos pressa, que se tem pressa. A mesma calma que, por vezes, põe-se em um canto cansada de tentar aparecer. Mascarada de pressa.

Enquanto não ouço, não vejo e não falo; ESCREVO. A fim de desafogar o desassossego. A fim de juntar letras que façam sentido, na rotina da contra-mão!

[texto a quatro mãos, já que não consegui deixar de me intrometer nas palavras dele]

quinta-feira, 5 de março de 2009

Vício do Olhar

Repare bem: as ruas, as pessoas, as árvores, as cores, os movimentos - tudo está aí agora e só agora será visto do jeito que se vê.

Todos estão acostumados àquela rotina que se passa pelos mesmos lugares e se olha às mesmas coisas. A mesma árvore a fazer sombra, o mesmo paralelepípedo torto, a mesma rachadura na parede. Os cabelos, a roupa, as pernas daquelas mesmas pessoas.

Recusam olhar para o novo, o intocável, o desconhecido - e, justamente, quando é o novo quem os encara, desviam os olhos para encarar algo bem menos significante como o vazio do chão.

Uma mente, no mínimo, curiosa permite-se o luxo de se fazer turista na própria cidade. E faz desse o remédio para o tédio.

Bom é poder perceber aquela imperfeição no edifício em que se trabalha, o taco solto nunca antes pisado na sala, um tom de azul escuro no céu. Perceber bem o outro lado da rua. Deixar-se levar pelo olhar ingênuo e quase doce. Permitir-se encarar o desconhecido. Desfazer-se desse vício do olhar.

Arriscar-se e descobrir com a visão novas ruas, pessoas, árvores, cores e movimentos... Mesmo que estes ainda sejam os velhos conhecidos.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Sincronicidade

Chegou em casa e a televisão estava ligada. Sua mãe, cansada, a cumprimentou com um boa noite - deixando a TV cantarolando sozinha - e dirigiu-se para o quarto.

Passou na cozinha, improvisou uma janta com os restos do almoço e se juntou àquela solitária falante. Se dizem que os opostos se atraem, nesse momento, ela discordou: também era uma solitária.

O canal sobre viagens mostrava um programa em que diziam sobre "capim dourado". Lindo. Uma cidade que sobrevive do artesanato feito com esse material que não é plantado: surge da terra brilhando, como um presente, e assim é aproveitado.

O olhar triste da senhora entrevistada, com rugas suadas do trabalho e de sol, paradoxalmente trazia a alegria de uma jovem que acabara de descobrir a beleza da vida. Acolheu-a de tal modo que logo deduziu: só podia ser brasileira.

Depois percebeu que o tal do capim dourado, na verdade, é o produto típico de uma região de Tocantins chamada Jalapão. Era o que mostrava a solitária falante.

O programa, A Gente Vive para Contar Histórias, veiculado pelo Discovery Travel & Living, era, na verdade um documentário dividido em dois episódios.

Naquele momento, ela via o primeiro deles - Jalapão. Não foi só a beleza do lugar que a prendera pelos 22 minutos de duração. Uma voz familiar chamara sua atenção.

Era do quadrinista Gabriel , que há alguns dias havia participado de uma palestra com Laerte em que ela estava presente.

Com a companhia do músico Daniel Daibem e do fotógrafo Alexandre Schneider, eles percorreram as maravilhas ecológicas e toda a riqueza cultural do leste de Tocantins.

O programa terminara com comentando o porquê de : seu irmão não sabia a pronúncia do G, quando pequeno, então apenas o chamava de Binho, Biel, ... O tal irmão, Fábio Moon, também estava na palestra. Mas não na mesa. Ele fizera FAAP. E lá apenas estavam ex-ecanos ilustres.

Logo em seguida, começou outro episódio da série. Dessa vez, era a jornalista Daniela Hirsch, o fotógrafo Tuca Reinés e o cinegrafista Sérgio Logullo fazendo o mesmo só que na Chapada das Mesas, no Maranhão.

Um dos locais visitados, a Cachoeira Santa Bárbara, chamara sua atenção. O sol refletia nas águas que refletiam nas rochas, e, juntos, com uma coreografia improvisada, dançavam, fazendo da rigidez em que todo esse reflexo se encostava algo leve, confortável.

Durante a aula que tivera durante aquele dia, comentara sobre a vontade que tinha de voltar a uma cachoeira. Apenas com aquela imagem conseguiu refrescar-se durante aquela noite quente.

Antes de se deitar, resolveu folhear uma revista. Reparou que a foto de capa era de autoria de um Tuca. Coincidência. Resolveu dormir certa de que sonharia com cachoeiras, trilhas, verde e um tênis sujo de lama. Mas não.

Quando acordou a única lembrança que tinha do sonho era de uma festa, dada em uma casa de praia, em que os quadrinistas estavam. No final da festa, ela lhes contou sobre toda essa história, començando pelo "Chegou em casa e a televisão estava ligada" e depois da história, eles haviam desenhado, para ela, em sua agenda (e no dia de seu aniversário), uma menina de costas com ovos de páscoa.

Acordou no dia seguinte e abriu a agenda. A página estava em branco, mas não estavam seus pensamentos que juntara todos esses episódios em uma rede de sincronicidades que só a fez surpreender-se uma vez mais com a chamada vida.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Segredo de Mundo



A história é simples. Uma menina de cabelo azul muda-se para um casarão de mais de 100 anos, cheio de portas, janelas e com algumas coisas azuis - totalmente sem graça.

Somado a isso, há o fato dela ter pais que muito se importam com o trabalho e pouco se importam com ela. Junte alguns vizinhos estranhos, uma portinha secreta escondida atrás do papel de parede, a curiosidade da menina e, voilá!, bem-vindo ao mundo secreto de Coraline.

O tédio da garota leva à descoberta de uma outra realidade, em que o paralelo com "Alice através do espelho" é, praticamente, inevitável.

Se, em sua nova-velha casa, Coraline (e não Caroline, já que nomes comuns pressupõem pessoas sem graça) não tem o que fazer - e tampouco o que comer - em seu avesso, ela será recebida por pais atenciosos (e com olhos de botões), cheiro de comida, ratos dançantes, jardim com formato de seu rosto e musical de velhas-novas vizinhas.

Tudo é mágico, tudo é diferente. Mas também trágico, quando se descobre a verdadeira história em que ela se meteu, envolvendo bonecas espiãs, crianças fantasmas e uma terrível Outra Mãe.

O conto vai crescendo e, seja pelo efeito 3D ou pelo cheiro de doce que eu sentia vindo das guloseimas do menino sentado ao meu lado, acaba envolvendo a todos.

Visualmente incrível, a produção feita em stop-motion e baseada nos quadrinhos de Neil Gaiman, é capaz de levar adultos de volta aos sonhos de crianças, e as crianças às verdades dos adultos.

Com algumas passagens surreais, que, novamente, lembram o país maravilhoso de Alice, e cenas com um quê de assustador, o filme pode assustar os mais pequenos.

Sentada atrás de mim uma menininha, com óculos maiores que o próprio rosto, ansiava pelo primeiro filme no cinema. Os pais discorriam se colocá-la num 3D logo de cara não seria um trauma. Na saída, ela já não estava mais lá. Espero e acredito, que não. Impossível se traumatizar com Coraline.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Vida no Jardim

Rosa sempre se achou linda. Sempre se achou a única capaz de enfeitar vasos para namorados. Sempre. Desde que o Cravo brigara com ela, não tomou jeito. Sabia que a briga era por amor. E continuou despedaçando flores por aí.

Ela, ter se despedaçado? História. Tão boa estava que esperou que ele ficasse doente para visitá-lo. Pura maldade.

Ele, sempre tão culto e arrumado - com seu paletó engomado -, suas pétalas bem passadas, sempre tão bem penteado, era um coitado. Achava que o Girassol, realmente, aproveitava-se das circunstâncias e da alto-estima da Rosa, em uma tentativa de se envolver com a moça.

Claro, o Girassol era a sensação do jardim (que incrivelmente misturava os mais diversos tipos de flores: da mais egoísta a mais alegre). Ele, robusto, bonitão, fazia a cabeça das meninas, que sempre se colocavam a discutir com qual, finalmente, ele se casaria.

Margarida era enfática: bonachona, e sabedora da cultura florística do local, tinha uma opinião formada e a certeza - Girassol ficará com Jasmim, linda, cheirosa, delicada.

Em uma dessas tardes de verão, em que a chuva ameaçava molhar e regar os habitantes daquele quintal, Margarida discutia fervorosamente com o Hibisco a situação romântica dos vizinhos.

Eles, literalmente plantados, nunca teriam a vantagem de poderem mudar de casa. O máximo que poderia acontecer é um ir para um vaso azul, outro para as mãos de alguma apaixonada, ou ainda, algum ser envolvido por papel de seda amarelo. Então discutiam a vida alheia, próxima.

Com isso, viviam na tentativa de se contentar com os raios solares e os dias aos quais lhes haviam sido destinados.

Hibisco era um rapaz que sempre gostara das grandes pétalas. Sempre vistoso, queria chamar atenção. Orgulhava-se do dia em que dois desavisados, pensavam que ele era uma flor. Uma flor brega. "Me acharam que assim fosse eu: delicada! Mulher! Ah, como eu queria...", pensava. Adorava Dona Margarida, por mais fofoqueira que ela fosse.

Talvez, inclusive, fosse a fofoca que o fazia sentir como uma dama. Uma dona. Uma dona da casa da qual ele nunca poderia se mudar. A dona do jardim.

Dona era Margarida, que sabia de tudo. Acordava alegre, pronta para animar a quieta da Violeta, que, com suas humildes palavras, se contentava em consolar as viúvas nas noites posteriores às tardes de brincadeiras das crianças pelo jardim - sempre uma ou outra pisoteava as flores, sem querer, atrás da bola. E era uma tristeza entre os moradores da terra fofa.

Foi naquele dia que Hibisco e Margarida, com a confirmação quieta de Violeta, decidiram: fariam da vida de todas as flores algo mais feliz. Brilhariam mais. Até daquela Couve-flor, largada, isolada, que em nada se parecia com as outras.

- Sabe, o que ela precisava era de um Girassol...

- Mas quem precisa do Girassol é a Jasmim!

- Tem razão, para que ele pare de girar pelo sol e passe a girar por ela. Ele precisa sosssegar!

- Assim como a Rosa! Ela deve parar de tratar tão mal o Cravo, só porque um dia de mau-humor ele brigou com ela...

- Sabe, acho que os dois se resolvem, não acha, Violeta?

Violeta concordou. Ela sempre concordara.

- Margarida, e a Couve-flor.. você nunca fala dela!

- Também, olha lá, coitada, em um canto... Eita flor mais feia!

Não sabiam as flores, que dentre todas as flores, era ela capaz de mudar de casa. E ir do jardim para a panela, da panela para o prato, do prato para a boca, da boca para o estômago... E fazer alguma pessoa mais feliz, fazia da sua morte uma alegria para alguém.

- Vamos chamá-la para conversar com a gente!

- Não, ela me parece imersa em seus próprios pensamentos. Temos é que fazer algo que ajude a todos.

- Começaremos falando para o Girassol que a Jasmim está caidinha por ele. Até deixou umas pétalas na grama para ele. Depois, para a Rosa parar de se achar, diremos a ela que o Cravo está bem feliz sem ela.

- Depois podemos dar uma festa em comemoração aos casais, uma festança, podemos até chamar as flores do outro jardim. Ah! Adoro festas! Posso até trocar essas minhas pétalas, e então...

- Ahm... É... Er... Posso sugerir alguma coisa?

- Diga, Violeta! Finalmente você abriu esse seu miolo para falar alguma coisa!

- Porque vocês... não... param de falar dos outros? Para mim, parece ser a melhor coisa que vocês podem fazer por todos. É bem melhor. E menos irritante.

Hibisco e Margarida ficaram boquiabertos. Nunca imaginavam ouvir uma coisa dessas. Refletiram. E se calaram. Para sempre.

Violeta, não, às vezes põe-se a cantar. Pode reparar.

[personagens apareceram com a colaboração de um cara que vive pensando torto. 15.12]

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Aguados

Te pega desprevinida,
te molha inteira,
sem pudores.

deixa um riso no rosto
uma corrida no pé.

Envolve ele, você, ela, a outra, aquele,
de uma só vez.

Não distingüe: cai em todos.
Sem preconceitos.
Iguala o rico e o pobre,
o feio e o bonitão.

Estraga a chapinha da menina,
deixa tudo ao natural.

Expõe a pele embaixo de roupa branca.
Faz abrir
os guarda-chuvas.

Alaga.
Inunda.
E nunca
é mala.

Afoga.
Chove.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Quadrilha

João amava Teresa. Amava mesmo, de amor tão amado que chegava a matar. Ela era uma magricela que só não engordava de ruindade, e ele um gorducho que sempre sujava o bigode quando bebia cerveja.

Um dia Teresa estava no bar do João, que ficava ali, na esquina, quando encontrou Raimundo - que era bem arrumado e que gostava é de (o) poder. O coração bateu mais forte, as pernas balancearam, os olhos se fixaram nele e o estômago ficou gelado quando passou por perto do rapaz.

Mais gelado ficou o coração de Teresa quando viu que, atrás dele, vinha uma moça de vestido vermelho e flores brancas - era Maria, triste que só vendo.

Triste, mas foi quando olhou para atrás do balcão que a moça que acompanhava Raimundo abriu um sorriso. Um sorriso de encher os olhos de esperança e felicidade.

Era Joaquim, o garçom. Moço simpático, mas que já se cansava de tanto tentar convencer Lili para sair pro forró.

Lili era amarga e só pensava no trabalho - em limpar as mesas, fazendo, com isso, a noite passar. Carregava sempre um pano de prato em cima do ombro e nos pés um sapato gasto de tanto correr pelo salão - era copo que caía, álcool que se espalhava pelo chão, migalha pelas mesas, lágrimas no balcão...


Um dia, João, o dono do bar, recebeu uma proposta de um gringo sério e de paletó. Era pegar ou largar. E se pegasse, largava o bar. Se largasse, pegava o triste destino de sempre ver Teresa se derretendo por Raimundo.

Pegou. Foi para os Estados Unidos. Não sabia falar inglês, mas o serviço era bom e ele ganhava em dólares.

Teresa não tinha mais para quem fazer ciúmes. Sem o bar do João, mal via Raimundo. Ficou tão, mas tão desolada que pedia a Deus todos os dias João de volta - para voltar com o ponto de encontro do acaso que a fazia ver Raimundo.

Rezou, rezou e se apaixonou por aquele que todos dizem ser mais que poderoso, capaz dos milagres e de fazer graças alcançadas. Foi dormir para sempre na casa dele. Um convento, com outras irmãs.

Já que a sede de cerveja do Raimundo não podia mais ser matada, resolveu acabar com aquela sede de poder. Começou a ganhar dinheiro numa coisa que a mãe dele não soube explicar, até o dia que perdeu tudo. Até a vida.

A Maria viu que não tinha jeito. Melhor era cuidar dos sobrinhos. E eles eram umas crianças tão lindinhas que resolveu ficar assim mesmo, para sempre para titia (às vezes ela saía por aí, com a vontade de voltar a ter no rosto o sorriso de esperança).

Um dia de desespero desesperador e de dívidas no pescoço, Joaquim se suicidou. Não tinha mais emprego nem mais a felicidade que o bar trazia - já não tinha a alegria de tentar conseguir o coração de Lili - ele, pelo menos, tinha a certeza de que o coração não iria para mais ninguém.

Certeza essa que o destino tratou de mudar, quando Lili se casou com um tal de J. Pinto Fernandes que nem entrado na história tinha.

Aliás, quem é esse J. Pinto Fernandes?

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Ida-Vindas

Filmes colocam qualquer um que seja em qualquer outra realidade - ou em uma realidade qualquer. Inevitavelmente.

Alguns, transportam seus personagens para dentro de quem assiste. Incrivelmente.

Fui para Barcelona.
Veio Cristina.
Veio Vicky.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Pílulas Concepcionais

Delas poderiam surgir muitas outras vidas a pularem. Mas aí, colocou-se um "anti" na frente e a chance se escafedeu.

Francês
mon amour é para ser dito logo depois de um bonjour

Pinguins (sem trema, ai!)
na minha geladeira não tem. E na sua? (nem os com trema)

Endless Love
um cheiro uma fragrância o toque macio tudo azul... é só um creminho, minha gente, nada mais de poesia

Tarefas Domésticas
é preferível arrumar a mesa a arrumar a cama. Essa segunda é melhor desarrumar

Cortinas
ganhou privacidade, um esconderijo, um quarto maior (não precisou se trocar atrás da porta do armário). Perdeu vizinhos voyeuristas

Sonho Limpo
dormi dentro da máquina de lavar, tamanho era o cheiro de Omo

Tempo Perdido
nunca perdia as horas. Sempre perdia o relógio

Visão
o problema com os óculos, eternamente sujos, era o seguinte: ou via tudo nítido mas com cores mais apagadas, ou via tudo colorido mas com contornos mal delineados. Optava pelas cores

sábado, 3 de janeiro de 2009

Livros e Vendedores

O livro era aquele: Stardust. Quando o viu pela estante, na hora, pensou que seria o presente ideal para ele.

Há tempos que tinham conversado sobre Sandman e os quadrinhos de Neil Gaiman. E ele perguntado a ela sobre a outra história do autor, aquela em que as pessoas passam através de uma fenda e chegam em outro mundo.

- Stardust?

- Esse mesmo. Então eu só vi o filme, você já leu?

- Li, sim.

Entrou na livraria, procurou uma vendedora e pediu.

- Então, sabe, é que eu vou comprar pro meu namorado... É presente de Natal. Você viu a chuva que está lá fora? Vim a pé e me molhei inteira. Olha o que eu não faço por ele...

- Sério? E desde quando vocês namoram? - perguntou a vendedora enquanto indicava a estante de auto-ajuda para uma cliente de cabelos desgrenhados e ia em direção ao caixa. - Olha, pode pagar aqui, que eu já embrulharei para presente.

- Na verdade... Ah, obrigada.

Reparou que a moça nem havia esperado a reposta do tempo de namoro. Não fazia questão. A loja estava movimentadíssima, o que impedia uma vendedora curiosa de saber sobre os relacionamentos amorosos de suas clientes e demonstrava que as pessoas aumentavam as compras de livros - mesmo em momentos de crise (talvez para isso sirvam as crises, para deixá-las em casa munidas de bons livros enquanto não passa). Pagou, e foi direto retirar a embalagem.

- Aqui está. Então, você não me respondeu, há quanto tempo estão juntos?

- Faz pouco tempo. Pouquíssimo, aliás. Quero dizer, juntos estamos há muito tempo... Uns dois anos, até. Mas namoro-namoro, só agora.

- Nossa, bacana. Qualquer dia vem para cá com ele, para que ele conte se gostou do presente. E espero que não esteja chovendo!

Pouco tempo... Saiu da loja pensando em como ela era precipitada. Eles demoraram tanto para se definir que foi só decidirem namorar para ela sair comprando presente? Ah, não tem importância. Ele vai gostar.

Se encontraram na mesma noite, e o presente ficou na bolsa. Depois, no fim de semana, saíram. O presente, na bolsa. Vários dias se passaram, o Natal passou e o presente... na bolsa. O presente se foi, chegou-se ao futuro, virou passado e o presente? Na bolsa.

- Você comprou e nem vai dar? - diziam as amigas. - Deixa de ser besta, entrega logo o livro pra ele!

Não entregou. Passou o réveillon, viu que o Natal já estava longe, e a chance mais longe ainda - perdera-se no tempo. Ele não dera nada para ela. Ela também não ia dar. Imagine o que ele ia pensar? Que era uma doida, louca, apaixonada...

Decidiu trocar: há dias via uns livros que queria. Aliás, encontrar livros que queria não era difícil para ela.

- Ai, espero que não encontre a vendedora. Pensa, ela me pergunta do namorado e eu venho dizendo que vim trocar o livro?

- É só você dizer que ele não gostou... - disse a amiga que a acompanhava.

- Eu sei, mas sabe, sei lá.

Com os livros escolhidos, foi em direção ao caixa.

- Então, você antes tem que passar por um vendedor...

Se dirigiu a uma funcionária da loja que disse a mesma coisa e completou com "aqui é o caixa". Encontrou um vendedor. O livro, perdido na imensidão de sua bolsa, quase não saía. Estava acostumado com a escuridão. Nervosa, entregou o pacote, ainda embrulhado.

- Ai, olha só, está até no embrulho...

- Você tem cadastro na loja?

- Não, pode usar pelo da minha mãe. Ela que me deu, aliás.

Pronto. Inventara a desculpa que a mãe comprara e agora a filha devolvera. Esperava não encontrar a vendedora. Não podia encontrar a vendedora. Foi ao caixa, guiada pelo rapaz.

Lá não pôde realizar a troca. Algo dera errado. O moço do caixa chamou o seu superior, que perguntou se ela sabia qual vendedor a havia atendido. Não sabia, mas poderia identificá-lo facilmente.

O superior a acompanhou pela loja até que encontraram o vendedor. Sorte que não encontraram a vendedora. Ele tentou resolver o problema, mas nada. Chamou a gerente. Era gerente aquela mulher? Não sabia. Mas tinha um ar de irritada e resolvedora de problemas. Nada. Chamaram o CDB. Sejá lá o que isso seja. Nada também.

- Colocou o código certo? Imprimiu a nota? Não imprimiu? É problema da impressora? Você fez o procedimento adequado? Quem comprou esse livro? E vai trocar também? Por quê?

5 pessoas já haviam irtervido. Era a hora da vendedora aparecer. Mas se aparecesse, a história de que a mãe dera os quadrinhos para a filha ia por água abaixo. "Ah, sabe, eu que comprei mesmo, para dar para meu namorado, mas fiquei com vergonha de dizer para vocês que eu tive vergonha de entregar o livro para ele". Iam pensar que ela era uma envergonhada! Não podia acontecer.

Minutos se passaram dentro da loja. A amiga, pacientemente, observava tudo que acontecia. Uma senhora, perdida entre as estantes, brigava no celular. Um bebê chorava loucamente. Os funcionários, em polvorosa, tentavam resolver o problema da troca introcável. E uma música clássica ao fundo. Plena sintonia.

- Renata Cury. Cadê ela?

"Não pode ser a vendedora, ai meu Deus, que não seja a vendedora", pensava a menina.

- Quem é essa mulher? Você jogou os créditos para a Renata Cury! Por isso é que ela não consegue trocar! Pronto, agora está feito. Você tem cadastro na loja, né? Porque senão, dará problema no caixa. Não tem? Então faça. E desculpe todo esse transtorno. Tchau, queridas.

Problema resolvido, cadastro feito e uma certeza: da próxima vez seria menos precipitada. Ou então, deixaria a vergonha de lado. E passaria a contar menos da vida para vendedoras.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Mar e o Mar

Omar era um rapaz magricelo e branquelo,
que não gostava de praia.
não gostava de sandália, preferia saia.
(saia dela, a Mar)

Mar era o apelido de Marcela.
tudo que fosse de bom, era dela,
menos panela
(ela não gostava de cozinhar)

Omar viu a Mar e começou a divagar:

se mar fosse feminino seria a mar:
só tirar um espacinho para que virasse amar.
Amar a Mar, é bem diferente do que amar o mar,
não gosto de praia.

Em resposta, ela começou a falar:

mas Omar, eu amo o mar!
ele faz dois, o luar;
ele faz música, o cantar.
Mar é masculino para ser mesmo Omar.

Omar deixou pra lá o gostar somente de Mar,
e os dois terminaram bem dentro do mar.
E da Mar.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Queime Depois de Ver



Ah, não gostei. Não gostei e não vou dizer que gostei ou elogiar o modo como os irmãos Coen fizeram para criticar organismos americanos como a CIA, cidadãos americanos como os personagens do núcleo da acabemia, ou a sociedade inteira.

Não vou dizer que eles foram geniais ao metaforizarem toda a confusão dos Estados Unidos em uma única confusão - a do enredo.

Discordo se disserem que é um humor fino, em seu negro véu. Não achei. Não gostei. E assim mesmo, tão infantil como age Brad Pitt no filme, continuo não gostando.

De que adiantam dois bonitões se um é mais besta que o outro? De que adiantam milhares de palavrões se o roteiro, para mim, não se sustenta? Fucker, fucker, fucker. Essa é a palavra mais dita. E adianta.

Por que são todos são estúpidos, ilógicos, imbecis? Aliás, para que serve um agente que há 20 anos não dispara uma arma - e ao disparar, mata, com um tiro na testa, um ignorante? Para que servem tantas trocas, tantas camas, tantos casais diferentes?

Serve só para me tirar da sala com uma cara amarrada, bem do tipo que eles queriam que as pessoas saíssem. Serve para me fazer rir da ironia ali contida. Serve para me achar também uma besta por ter entrado naquela sala de cinema e ali passado 93 minutos da minha tarde.

É, eles conseguiram.
Serviu.

Mas eu não gostei.

[E talvez não tenha gostado por pura hipocrisia, mas maior hipocrisia seria dizer que gostei]

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Passado Presente



Algumas vezes o passado nos persegue. Em uma carta inesperada, em um encontro ocasional, em uma despedida. Ele está ali, escondido no presente, em cada lembrança, cada foto revista.

Assim sentia-se o tradutor Rímini: sendo perseguido pelo seu passado, em um eterno conflito entre seu presente e suas memórias - muitas delas, literalmente perdidas.

Após um casamento de 12 anos com sua primeira namorada, Sofía, ele se vê na tentativa de retomar sua vida. Por oras, vida que se confunde com a da ex-mulher - por mais que o objetivo seja perdê-la em outras mulheres.

Sofía, por sua vez, busca reencontrá-lo - incansável, insasiável, aflita. É como um fantasma do que já foi, rondando a tentativa de nova vida do rapaz.

Doentia, muitas vezes a mulher dilacerada surge na trama angustiando cada vez mais o personagem, que também se torna cada vez mais envolto em uma certa ilucidez irremediável.

É como se ele fosse puxado para um passado que não tem fim, e apesar de agarrar-se às bordas do presente, tentando assim escapar, tem uma força maior que o empurra. Uma só mulher.

As outras que aparecem no filme, ainda assim, são tão fortes quando Sofía: Vera, com seu imbatível e paranóico ciúmes. Carmen, madura e serena. Enquanto a primeira traz em sua juventude a insegurança; a segunda parece ser um poço de tranqüilidade, dado, talvez, pela idade um pouco maior que a dos protagonistas.

Vera é intensa, ciumenta. Não agüenta imaginar uma segunda. Mesmo sendo ela, a segunda. Vermelho seria a sua cor. Passional. Assim como sua última cena - ou sua primeira.

Carmen, por sua vez, surge em um encontro de trabalho. Responsável, maternal. Não é a toa que, com Rímini, tem seu primeiro filho: Lúcio. Talvez, uma luz.

No entanto, é Sofía, em um de seus desesperadores momentos de insanidade, que surge. E o que sucede é o seqüestro do menino. Como conseqüencia, Rímini é impedido de ver sua ex-mulher e o garoto.

É o passado, outra vez, puxando-o fortemente. A loucura, o amor, o presente e o passado. Todos complexamente misturados, entre bilhetes de Sofía e pedidos para que ele separe as antigas fotos por ela guardadas até na brusca tentativa dele tentar reaver sua memória da língua francesa e inglesa: já não conseguia traduzir.

Por meio de reviravoltas, Hector Babenco expôs em linguagem cinematográfica o livro de Alan Pauls, O Passado. Em uma co-produção Brasil/Argentina e com roteiro em espanhol, o filme coloca Gael García Bernal e Analía Couceyro no papel do intrigante casal, e confirma o slogan - "A separação também pode ser parte de uma história de amor". Ah! ainda traz, como participação especial, Paulo Autran (falando em françês!). Voilà!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

É, amigo...


...Começou de novo o fim.

Fim de semestre, fim de ano. Aquele fim nostálgico que bota palavras e mais palavras em blogs, frases e mais frases de despedidas, apertos em corações que há tempos não se apertavam - ou melhor, que há tempos não se separavam.

Um aperto besta, doído, inexplicável. Até parece que ninguém nunca mais vai se ver. Até parece que amanhã não virá para aproximar o reencontro. Até parece.

Só parece. Se fosse... ah, se fosse aí sim não poderíamos nem explicar o que sentiremos em uma palavra unicamente brasileira: saudade. Explicaríamos em uma palavra mais internacional, antiga e teatral: tragédia. E aí sim o aperto não seria inexplicável. Seria terrível. Mais terrível do que já é.

Ou será que ele mesmo agora é terrível justamente por não ter explicação?

Pode ver. A partir de agora, a cada texto, ele aparecerá. A cada palavra, ele voltará. A cada foto que a gente insistir em ver. A cada jargão relembrado.

Sem nem perceber, nós vamos começar a propor aos outros "vambebêeeeeeee!". Não vão entender. E nós, jornotaiada, depois de anunciar com o fervor mineiro a vontade de bebemorar não vamos ter nem Oncinha, nem Hell Ice (para a sorte de vocês!). Vamos ter qualquer outra coisa, que junto de qualquer outros bons amigos, será de novo aquela coisa que antes de termos, tínhamos.

Pensei que nunca mais sentiria aquilo que senti ano passado - depois de uma vida com as mesmas pessoas, a separação de vez. E senti. Mesmo que não seja de vez.

Haja coração!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Reforma Ortográfica


- Fique tranquilo, pinguinzinho, a linguiça acabou mas sobrou ração!

- Não quero. Então eu quero o ceu, e colocá-lo num micro-ondas.

- Nada. Te darei, então, um livro de autoajuda e um creme antirrugas - só o suprassumo. Serve?

- Prefiro um autorretrato. Aliás, tenho que terminar a autoescola.

- Para de tirar o pelo, pinguim. Nem poder dirigir você pode. Quer comer uma pera e parar de falar bobagens?

- Pera! Só um minuto, que eu te perdoo pela falta de linguiça. Agora me vem com fruta... Só enrolação. Já comeu ovo com pão de kiwi (agora eu posso usar o "k" porque está no alfabeto! yes! "y" também!).

- Você está me deixando com enjoo. Whiskas sachê pra você (agora eu posso usar o "w" porque está no alfabeto! yes! "y" também!). Vou te colocar no zoo.

- Só se para isso eu tiver que pegar um voo.

- Você vai é de micro-ônibus, e nada de me dar um contra-ataque.

- Vou é chamar a minha amiga jiboia. Ela sim terá uma ideia ótima para fazer com que você me dê uma linguiça.

- Ai, não aguento mais! Você merece ser sequestrado para bem longe!

- Seria melhor mesmo. Prefiro um sequestro a esse diálogo louco com você.

Cara, depois dessa, nunca mais vi pinguim falar.

[Olha o que essa reforma ainda faz comigo!]

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Carta a un tio, y a ti también


A ver. Hace tiempo desde que no te escribo. A lo mejor, ya no sé como escribirte. Si, eso es. Los días se pasan como noches sin dormir, las horas solamente desaparecen mientras intentamos vivir.

Pienso que es tarde, pero aún tenemos la esperanza, ¿no? ¿De qué? De salir por la calle, jugando a algo - la rayuela que está en el suelo, ¿por que no?

Porque ya no eres una niña, tonta. ¿Cuando comprenderás que en el mundo los que paran para nada - que en la realidad, es todo - se pierden en el otro mundo, y el real problema es que ése otro mundo es mil veces mejor (lo que hace más que difícil intentar volver al estado natural del mundo normal...)?

Eso es. Lo que nos falta. Ahora saldremos a bailar como si no hubiera problemas o imagínate que el vino aun no se ha terminado.

¡¿Que pasó con las luces de este cuarto?! Todas se parecen más oscuras... que hiciste, cabrón? ¿O fuiste tú, voluntad de dormir, que ha cerrado mis ojos?

Creo que una copa de café no seria mal. A lo mejor nos despertaría. No, pero no. No tenemos que usar cafeína para abrir nuestros ojos.

Tenemos que usarnos. Yo a ti y tú a mi. ¿Viste?

Ay, que no entiendes nada. A ver la actual crisis de que tanto nos decían. Si que estamos todos perdidos. ¿Pero que hacer? Paremos para pensar, algo que poco se hace actualmente.

Después de pensar, cantemos algo que alegre aquellos que ya no se sostienen por unas pocas notas.

Cantar, bailar y arriba y arriba, capitán.

Después vuelvo a escribirte, cuando el querer una horchata sea mayor que querer un zumo de graviola.

Mucho gusto a ti - persona que acaba de leer.

domingo, 2 de novembro de 2008

Sentidos Perdidos V


Já não aguentava mais as reclamações da mãe. Tudo bem, ela não poderia mais cheirar, cozinhar nem cantar parabéns para o marido, mas ele não sabia como acalmá-la e isso apenas o irritava mais.

Decidiu tomar um banho, o mesmo que havia planejado tomar horas atrás. Ligou o chuveiro. Ouviu o barulho da água. Mas não sentiu-a molhar seu corpo.

Tentou pegar o sabonete, em vão. Escorregava em suas mãos como nunca antes escorregara. Tornara-se um inútil.


Não entendia o que acontecia, mas sabia que não sentia nada. Nem o calor da água que deixara sua pele vermelha e o ar do banheiro extremamente nebuloso, nem as bolhas de sabão formadas enquanto este pulava pelo box.

Cansou-se. O banho estava irritando-o mais ainda. O que estava acontecendo? Não sentia! Pôs uma roupa qualquer, e, pela primeira vez, foi como se não estivesse vestido. Mas ao contrário da sensação de liberdade ao ter o vento acariciando-o, podia sentir apenas a angústia de não sentir.

Saiu de casa para encontrar aquela que sabia tirar qualquer problema seu. Aquela que ensinava a ele as coisas mais simples e lindas do mundo. Aquela que estupidamente o largara na noite passada.

Seus pés, acostumados ao caminho de sua casa, seguiram sozinhos. Sua mente, agora povoada de berros da dona Clotilde ("Ah! Eu vou morrer! Acabou minha vida sem meu nariz! Filho! Faça alguma coisa!") e por vapor de água quente, viajava por um caminho obscuro. Por mais claro que estivesse o dia.

- O que aconteceu?

- Como? O que aconteceu? Comigo ou com você?

- Conosco.

- Conosco? Como você tem a coragem de aparecer aqui depois de tudo que você me falou ontem? Depois do jeito que você me tratou? Depois daqueles milhares de copos de bebida a toa?! - como se não bastassem os berros da mãe, teve que ouvir o berros da garota. Realmente, aquele não seria o melhor dia de ressaca que alguém poderia ter. Não que dias de ressaca fossem bons...

- Eu falei alguma coisa? Eu fiz alguma coisa? O que aconteceu? Se eu falei alguma besteira foi por ter bebido demais.

- Você simplesmente falou que não sentia mais nada comigo.

Abraçou-a, mas seus braços envolveram o nada. Passou a mão pelo rabo-de-cavalo dela - nada. Olhou-a nos olhos, apertou seus corpos, um contra o outro, com toda a sua força. Acariciou-a, por um momento quase pensou ter sentido a leveza do tecido do vestido âmbar ao entardecer da moça. Ilusão.

Tocou os lábios secos de álcool do dia anterior àqueles que sempre o esperavam macios. Beijou-a em um beijo nunca antes tido. Pelo menos, nunca lembrara de ter um como tal. Era um não-beijo. Não tinha nada. Nada de nada nem nada de nada.

Largou-a num impulso desesperador. Realmente, não sentia. Seria falta de amor? Seria doença de cansaço? Seria tudo uma brincadeira de mal gosto ou um daqueles pesadelos reais?

- É. Acho que não sinto mesmo. Sinto muito.


Saiu irritado. Incompreendido. Ela, bateu a porta.

Sem sentido, viu-se perdido. Era mais um com um sentido perdido.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Sentidos Perdidos IV


Tocou a campanhia. Dona Clotilde, com seu avental de flores e seu vestido de bolinhas laranjas, foi correndo atender. Adorava visitas.

- É aqui o 134, né? Vim arrumar algum cano...

- Ah, pode entrar... - sua insatisfação era nítida, ao ver que não era nenhum encanador bonitão para alegrar seu dia. - Olha, pode ficar aí mesmo, é onde tem um cano com problema.

- Mas esse seu banheiro está muito fedido... Eu, hein, ainda vou ter que aguentar esse cheiro?
Clotilde não entendeu nada. Para ela, era o cheiro que sempre sentira. Normal. Cheiro de nada. Largou o moço e voltou para cozinha onde preparava o bolo de aniversário de seu marido.

Adorava cozinhar, principalmente doces. Sempre empanturrara seu Gerson de tortas de morango, de limão, pudins de leite, bombas de chocolate e bolos, bolos, bolos. Depois reclamava do tamanho da barriga do marido, ou da descoberta das diabetes.

- Ô mãaaaae...

Mal colocara o bolo no forno e teve que ir correndo ver o filho que acabara de acordar, com cheio de ressaca. Não percebeu. Só notou o rosto cansado do garoto.

- Que foi? Que horas você chegou ontem?

- Não sei. Só sei que eu precisava ir ao banheiro para tomar banho e tem aquele cara lá. Já não agüento meu cheiro, estou muito fedido, mano.

- Claro que não, filhinho, só está cansado. O moço vai arrumar o banheiro e depois você vai. Você está cheirosinho como sempre.

A mãe, realmente, enlouquecera. Ou estava com o nariz realmente entupido. Nem ele se aguentava com aquele odor desagradabilíssimo que saía de seu corpo após um dia e uma noite suando e nada de banho.

- Mas filho, que bagunça está esse seu quarto! Deixa eu arrumar um pouco...

O "pouco" dela, tornou-se horas de arrumação, e descobertas em meio às roupas amontoadas e revistas espalhadas.

- Mãe... Acho que tem alguma coisa queimando... Você está sentindo?

- Ah, deve ser o vizinho, você sabe como ele é!

Do banheiro, ouviu-se um berro. Era o encanador avisando que sentira cheiro de queimado vindo da cozinha.

- Esse encanador é muito intrometido. Onde já se viu, falar que alguma coisa estaria queimando se não há nem cheiro!?

- Na verdade, mãe, eu estou falando sério, está cheirando sim a queimado. Você não colocou nada no forno?

- Claro que sim, o bolo de aniversário do seu pai, mas acha que eu, nesses anos de cozinha que tenho, deixaria alguma coisa passar do ponto?

- Sei lá, mãe, o cheiro está realmente muito forte...

- Você está imaginando coisas, é o cansaço. - disse enquanto estendia os lençóis.

Um grito desesperado interrompeu a arrumação, era, de novo, o encanador:

- FOGO NA COZINHA!

Saíram correndo. A cozinha estava uma fumaça só. Mal se via o fogão, a geladeira. O cheiro era impossível, sufocante. Não conseguiam respirar. Dona Clotilde, porém, respirava. Não entendia da onde viera aquela fumaça.

- Ué, mas o bolo nem queimou! Como pode ter saído essa fumaceira? - disse após seu filho, com o instintor de incêndio, amenizar o fogão que era, literalmente, um fogão.

- Nem queimou? Isso é só carvão, dona!

- Nossa! É mesmo! Mas nem está cheirando a queimado...

Realmente, o encanador percebera que havia se metido na casa de uma senhora, no mínimo, sem nariz. E quase morrera em um incêndio.

- Mãe, você está doida? Olha isso aqui! Quase que a gente morre!

Doida ela não estava. Só não sentia cheiro nenhum. Seu olfato, de fato, estava com sérios problemas. E agora? Será que nunca mais uma flor seria carregada de perfume?

Se bem que para ela, flores não interessavam. A verdadeira preocupação era com as comidas - não sentiria mais aquele cheirinho de almoço pronto no ar. Não sentiria o gosto de seu almoço. Não saberia se a quantidade de sal está boa. Erraria o ponto de todos os bolos. Erraria a dose de açúcar.

E perderia o posto de "cozinheira-de-mão-cheia". Todos a criticariam. Deixaria de ser a melhor mãe/esposa/vizinha.

O jeito seria parar de cozinhar - pelo menos assim as pessoas não a veriam errar. Mas, em compensação, nunca mais sorriria ao ver alguém elogiar sua comida, em frente ao prato vazio.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Sentidos Perdidos III


Seu Caetano não entendia como aquelas pessoas podiam se irritar tanto com tão pouco. Se aquela mulher tivesse passado a noite em uma guarita, ela teria motivo para estar, no mínimo, irritada de sono - como ele estava.

O interfone não parara de tocar, cada hora alguém com um problema diferente, como se ele pudesse solucionar todos.

Já não aguentava mais aquele toque, outra vez irritando-o.

- Portaria, bom dia. - pelo menos rima ele fazia.

- Seu Caetano, hoje vai vir um encanador para arrumar meu banheiro, então eu gostaria que você liberasse a entrada. Depois também, se vier uma encomenda no meu nome - uma caixa grande, vermelho tijolo esmaecido - pode aceitar que não é nenhuma bomba, haha, e outra coisa, que horas o meu filho chegou ontem? Sabe como é, eu peguei no sono e agora que eu fui ver ele está lá, acabado, no quarto. Alguma idéia? Foi muito tarde?

-

- Desculpa, você pode repetir?

- !

- Olha, vou ligar de novo porque eu não estou ouvindo nada. Acho que deu defeito na ligação. Você está me ouvindo?

-

- É, não deve estar.

- !!

- Faz assim, espera 2 segundos.

Dona Clotilde, do 134, dona da caixa vermelha tijolo esmaecido, voltou a ligar umas 3 vezes, e nenhuma das vezes ouvia a resposta de seu Caetano. Deixa para lá. Ele deve ter entendido.

Não deu nem tempo de descanso para os ouvidos, interfone insistiu em tocar:

- Oi, você poderia interfonar para o 52 para mim?

-

- Alô, seu Caetano, o 52... Dá para você me responder? Alô? ALÔ?

-

- SEU CAETANO? SÓ ME PASSA PARA O 52!

Seu Caetano passou, enquanto o moço, irritado, achara que ele estivesse fazendo alguma gracinha.

Gracinha que nada! Era sua voz que não saía. Estava mudo.

Mudo, mas feliz: pelo menos agora podia se concentrar apenas no abrir e fechar dos portões, pois já não havia motivo para deixar o interfone no gancho - não conseguia fazer com que os outros o escutassem, mesmo!

Sem contar que agora ninguém mais reclamaria do seu sotaque puxado ou de seu tom de voz. Era tudo o mesmo - nada.

domingo, 26 de outubro de 2008

Sentidos Perdidos II


Chegou na garagem e achou estranho o carro pegar sem que ela antes ouvisse o barulho do motor.

-Seu Caetano! Abre o portão para mim!

O porteiro não abria, assim como ela não ouvira sua voz o chamar. Falou mais alto:

- SEU CAETANO, O PORTÃO!

-Calma, dona! Já vai!

Ela o viu murmurando alguma coisa e em seguida, o portão se abriu. Engraçado não ter ouvido seus berros e nem mesmo o que ele dissera - da próxima vez deixaria o vidro aberto.

Ligou o rádio, e antes mesmo de perceber qual música estava tocando, começou a cantar. Pelo menos isso pensava que estava fazendo. Não ouvia nada. Nem música, nem voz. Sabia estar ligada na estação. Sabia estar gesticulando. Sua voz não saía. Os sons não saiam.

Ou ela não ouvia.

Entrou em desespero. Começou a berrar, a buzinar... Parou o trânsito da esquina de sua casa. Pessoas se aproximaram, todas mexendo os lábios, mas não soltando vozes.

Silêncio absoluto.

Devia ter sido algum feitiço do Seu Caetano. Ela tinha certeza que ele devia estar com ciúmes de seus brincos cor de âmbar ao entardecer.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Sentidos Perdidos


O cheiro de café-da-manhã logo ao acordar o ajudou a prever, deliciosamente, como seria o dia. Espreguiçou-se, enrolou um pouco na cama e teve a certeza de que não estava atrasado. O despertador ainda não tocara. Animou-se. Abriu os olhos. Não viu nada.

Tateando as paredes, foi para a cozinha. Seguiu o cheiro. Sentou-se. Esperou um pouco, e ouviu o pão, que o esperava, pular na torradeira. Foi buscá-lo. Passou a manteiga, sentiu-a derreter, escorregar em suas mãos.

Percebeu que o barulho de água vindo do banheiro, cessara. Era o chuveiro que já não despejava água. Depois de uns minutos, pôde ouvir a tranca da porta se abrindo. O vapor quente combinado ao cheiro de banho deram a certeza de que ela estaria a caminho.

- Viu que eu deixei o pão na torradeira para você?

- Não. Estou cego, eu acho.

- Mas você está comendo... Cego? Você está doido. Enfim, esta roupa está boa?

- Qual roupa? Não consigo ver nada!

- A que eu estou vestindo, oras... Que indecência! A essa hora da manhã você vem me dizer que não está vendo minha roupa?

- Ela é de que cor?

- Como ela é de que cor? Você não percebe que é um vermelho alaranjado com tons de coral responsáveis exatamente por essa mistura única e pela originalidade na composição, que junto aos meus brincos cor âmbar ao entardecer, dá um toque especial à produção?

- Na verdade, não. Eu só vejo preto.

- Ai, vocês, homens, são mesmo uns insensíveis!

Pegou a bolsa e saiu irritadíssima, mas sem antes dizer:

- E vê se coloca café na xícara! Você está jogando tudo pra fora, molhando a mesa inteira. O açúcar, também. Eu é que não vou limpar essa bagunça. Credo. Parece um cego.

Bateu a porta.

Deixou-o com as mãos sujas de manteiga, o colo cheio de café quente que escorria da mesa, a mesma não-visão e a dúvida: como seria o âmbar ao entardecer?

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Encontro

Anos desde aquela noite fria de crise. E ponha crise naquilo. Copos na parede, cacos de vidro no chão.

Fora a bebida, alguns disseram. Culparam as garrafas vazias pela separação. Os dois não tinham juízo. Impacientes, impulsivos. A vida corria como os carros na rua movimentada onde moravam. Chegou o tempo em que nem mesmo haviam tempo um para o outro.

Buscavam a independência. Mudaram-se para aquele apartamento bagunçado, cheia de papéis e embalagens vazias. Os dois. Sozinhos. Se bastariam. Ou não.

Precisavam de um espaço. Cada um o seu. Privacidade. Na geladeira, uma prateleira era de um; outra, era de outro. A cama, dividida pelos travesseiros.

Sentiam-se sufocados. Se um arrumava o banheiro, o outro logo reclamava não poder encontrar o creme de barbear. O creme hidratante, o rímel. Separaram-se.

Foi quando, em uma mesma noite fria, e em um mesmo bar - que nenhum dos dois antes freqüentavam -, os olhares se encontraram. Anos haviam se passado.

Se viram. Se olharam. Se enxergaram.

Finalmente, se encontraram. Ele já não tinha o jeito de garoto. Ela, era uma mulher. Conversaram, conversaram, conversaram.

A noite passara tão depressa, que nem perceberam serem os últimos a sair do bar.

Atreveram-se a voltar ao antigo apartamento. Não podiam deixar a aventura escapar como haviam deixado anos atrás. Agora, não. Sabiam como se comportar. Eram adultos.

O apartamento estava vazio. Empoeirado. Restava uma ou outra lembrança. Um caco em um canto.

Não precisavam de palavras. Aquelas mesmas, que deixaram escapar, quando precipitados viam seu futuro em conjunto, já não eram necessárias.

Sabiam o que o outro pensava. Sabiam saber isso antes mesmo de perceberem o quanto eram parecidos e diferentes.

Sabiam que tudo que economizaram ao evitar trocar bobagens para amenizar a rotina, agora poderia ser desperdiçado.

Agora sim. Sabiam o sempre que jogaram fora naqueles anos de separação. Encontraram-se, naquela noite eterna. Finalmente, novamente.

domingo, 12 de outubro de 2008

Separação


Garrafas no chão, copos quebrados, flores despetaladas. Havia tempo que um grito não cortava daquela maneira as noites frias pelas quais passavam.

Havia tempo, aliás, desde que brigaram pela última vez. Antes, discussões eram freqüentes. Diárias. Cansaram.

Desgastados pelos mesmos argumentos, moravam juntos; viviam sozinhos. Já não valia a pena discutir.

O apartamento era pequeno, bagunçado. Papéis, revistas, jornais velhos - passados. Guardanapos, embalagens vazias. Cinzas, cinzeiro.

Cheirava a centro. A rua, pelo menos, era movimentada - ao contrário da rotina em que caíram.

Os sentimentos antes claros e coloridos, escureciam-se, enfureciam-se, misturavam-se em meio à fumaça dos bares pelos quais passavam noites.

Bares diferentes, diga-se de passagem. A vida em comum, tornara-se incomum.

Já não se falavam. Não se viam. Há muito tempo se olhavam mas não enxergavam um ao outro. Enxergavam um no outro. Um deturpado no outro. Outro deturpando o um.

Esgotou-se. Esgotaram-se. Por um instante, não mais que um instante, decidiram: em meio a berros, cada um foi para seu lado. Para sempre.

Um sempre tão eterno quanto juravam ser o amor que antes sentiram um pelo outro.

Festa de Aniversário


Correria, gritaria, bexigas e presentes. Enfeites de mesa, monitores com macacões amarelos.

Ilarilariê. Quer dizer, isso era na minha época. Agora é Hanna Montana, High School Musical... até Fergie, você escuta em festinhas infantis.

Coxinha, empadinha, risoli frio. Coca-cola, fanta laranja, sprite. Prato, copo, garfo e faca de plástico. Altíssima qualidade.

Conversas aqui, acolá. Parentada.

- Você é a jovem, e eu sou a mais velha. Só nós duas não temos com quem conversar!

Conversamos.

Entra-e-sai de crianças, uma tropeça, a outra chora, todas riem.

Mais uma família convidada chegando:

- Como ela cresceu!

Cumprimentos mil. E o frio?

- Ai, acho melhor a gente fechar essa porta, viu. Essa friagem vai deixar todos resfriados...

- Sabe que semana passada todo mundo ficou mal, lá em casa.

- É, menina...

- Filho! Você está todo suado! Coloca esse casaco.

- Mas eu estou com calor, estou até suado! Você mesma disse...

- Mas se você sair agora, vai levar um choque térmico!

- Eu estava lá fora até agora!

- Vai colocar ou não vai?

- Não. Acho que já é hora do parabéns, olha.

Movimento no salão de festa do prédio garantiu o que supôs o menino. Era a hora dos parabéns. Todos em volta da mesa, em suas devidas posições.

Ela já estava em frente ao bolo, mirando a vela de número 9.

- Começamos?

- Falta o papai...

- ... eu estou procurando a câmera! - respondeu uma voz distante.

Gritaria. Todos ansiosos pelo bolo. A troca momentânea de papel: agora as atenções não se voltavam à filha. Eram todas para o pai. Mudança de protagonista.

- Deixa a câmera, olha só, a Joana está com uma, depois ela passa as fotos pra gente!

Teimoso, ou gostando de ouvir seu nome sendo chamado pelo salão, ele insistia em querer achar a câmera.

- Vai, pai, a vela vai apagar! - e com ela, apagariam as esperanças de poder fazer um pedido.

Pronto. Chegou. Acomodou-se ao lado da filha, deu um beijinho e o aval: "Parabéns para você..."

Por um momento, todos estavam envoltos na mesma melodia.

"... Nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida"

A menina, extasiada. Não sabia se batia palma. Sorria. Todos estavam ali para ela. Uma vez por ano estariam todos batendo palmas. Para ela.

"...Tudo! E como é que é?! É pique, é pique. É pique, é pique, é pique. É hora, é hora. É hora, é hora, é hora. Rá-tim-bum!"

Soprou as velas. Fez os pedidos. Saiu nas fotos.

No entanto, a cantoria não terminou: "Com quem será, com quem será, com quem será que..."

Ruborizou-se. Escondeu atrás da mãe, como se a grande protetora pudesse abaixar o volume das palavras e fazer com que todos se calassem.

"... Ele aceitou, ele aceitou, tiveram dois filhinhos e depois se separou."

Fechou o rosto. Separou?

Poxa. Se não bastasse a afirmação um tanto quanto prematura (convenhamos, foi-se a época em que com 9 anos seu casamento já estava predestinado!), ainda vinha essa de incluir o divórcio na musiquinha?!

Isso sim que é desanimador.

Ou não, isso são os tempos de hoje. A atual conjuntura. Um reflexo da modernidade. A contemporaneidade.

Talvez a separação veio justamente para se contrapor a certeza do nome do menino com quem ela se casaria.

Cortou o primeiro pedaço.

"Na lua-de-mel, na lua-de-mel, tiveram dois filhinhos chamados Manuel..."

Como se não bastasse casamento-relâmpago, ainda na canção existem as mães-solteiras ou as luas-de-mel fora de hora.

Na difícil missão de conciliar o casamento com a viagem, adia-se. No caso, adiaram-se, no mínimo, 9 meses, já que nela nasceu os filhinhos Manuéis.

E aí eu me pergunto: os dois se chamavam Manuel?

Seria uma forma de demonstrar a massificação ou a dominação dos portugueses em terras brasileiras? Ah, nenhum dos dois.

"Lá no restaurante, lá no restaurante, tiveram dois filhinhos chamados Elefante!"

Pronto. Esse foi demais. No restaurante?! As crianças nasceram no restaurante e, além do mais, foram chamadas de "Elefante"!

Animal. Se elas ainda tivessem nascido no zoológico, o nome seria mais compreensível (por mais que eu continue não entendendo esses tipos de nome).

- Esse é seu, Alice! Quer?

Acho que seria melhor aceitar. Depois de perceber a música que me acompanhou em inúmeros aniversários e que continua a acompanhar todas as crianças no dia em que o dia é só delas, exclusivamente delas, o melhor que eu tinha a fazer era comer o bolo.

Aceita um pedaço?

domingo, 5 de outubro de 2008

Já Pode Votar!


Sem dúvida, foi a frase mais falada neste meu domingo de chuva e tempo abafado.

Dentro da sala do colégio, sentada na cadeira verde, na companhia de mais três sortudos, lá fui eu cumprir meu dever como cidadã de uma república democrática...


Efeito Manada
Se as pessoas agem em bando, ou se é a partir do movimento de um único indivíduo que todos decidem agir, a freqüencia e horários para se votar não poderiam ser diferentes.

Tudo bem, é extremamente compreensível se notamos o fato em um restaurante - cuja fila de espera aumenta instaneamente após você chegar o que o faz pensar, enquanto folheia o cardápio : "nossa, se eu tivesse vindo 5 minutos mais cedo, olha onde eu estaria...". Depois, sorri satisfeito em meio aos nomes de comida.

Mas em meio a "confirmações de votos", "bom dia", "aguarde um minutinho", "pode ir" e inúmeros números de títulos fica difícil administrar todos formando fila na porta.

Na verdade, difícil é administrar o marasmo quando não há uma mísera alma votante...


Café
Faltou café. De manhã tudo era novo, a chuva batia lá fora, deu para se distrair. Começo de conversa com os companheiros de seção, coincidências aqui e acolá.

Histórias, anedotas, fatos corriqueiros que juntavam diálogos quebrados entre um ou outro barulhinho de confirmação de voto.

Agora à tarde... é, aí o bicho pega. Depois do almoço, depois da chuva; vem o sono, vem o abafado.

As preces do meio-dia ("ah, chega de chegar gente!") são exageradamente atendidas. Nada. Nem um cafézinho.


Números
Nada de café, tudo de números.

"Falta quantos minutos?"

"Quantos já vieram?"

"Dita pra mim. Espera, 0094 ou 3340? Como?"

"Digita: 4559 3934 5... 5? Ou 6? 6 ou 3? Espera, não dá para ler. Começa de novo. Vai lá: quatro-cinco-cinco-nove.. é, nove. Então, três-nove... aham, nove de novo. Três-quatro. Não, não foram 3 noves. Nanão, está certo. É três-nove."

E eu que fui para humanas pensando em fugir das exatas...


Memória Fraca
Ok. Sempre achei essa história de "colinha" meio desnecessária quando se fala em apenas 2 cargos a serem eleitos.

Mas facilita. Ainda mais se você já está na linha dos idosos, ou se você tem uma criança pendurada no seu colo querendo apertar todos os números só para ver todos os candidatos e seus sorrisos amarelos.


"Manhê! Ô pai..."
Desde sempre votava com meus pais. Aproveitava as eleições para ver não só a cara dos mesários (e pensar como eles são velhos, grandes, simpáticos ou chatos), mas também dos candidatos. Ali mesmo: o nome, o número, o voto.

É bom para as crianças. Incentiva, faz com que gere uma alegria de domingo: "Votei. Ajudei nas eleições.". Insulfla o peito: "Agora sou grande!". Aumenta o ego: "Grande! Gente grande faz o que eu fiz!"

Ao serem perguntados se iriam votar muitos se escondiam. Diziam que não. Davam uma risadinha tímida. Mas saíam rindo, felizes da vida. Votei!

Uma menina, inclusive, veio chorando no colo do pai. Não tinha maneira de fazê-la se acalmar.

Devia ser o trauma após ver tantos políticos picaretas serem eleitos. Ela não queria participar daquela sujeira. Queria sair dali.

- Filha, vou votar neste, ok?

-NÃO!!!

Foi a única palavra que disse na sala, em meio às lagrimas. Uma revolucionária.


Nomes
- Pode ir, Lindinha.

Nada de vocativos carinhosos. O negócio ali era sério. Lindinha. Lindo nome, quer dizer, lindinho.

Devia ser um bebezinho lindo. Os pais, bem corujas. Namorados? Criativos. Lindinha já era nome. Docinho? Florzinha? Mas aí virariam as Meninas Superpoderosas. Complicado. Haja imaginação.

Sumária, mulher do Sumário e mãe do Índice. Sim, também estava lá. Só que não com a família.


Coincidências
Lucila entrou. Estava na urna, quando Lucila entrou - deu seu título. Lucila, também. Estava na porta.

-Lucila, pode ir.

Foram as três. Espera! É só a primeira.

- Lucila, a senhora pode esperar na porta.

- Mas não era para eu ir?

- Não, a senhora vai, e a senhora fica.

- Vai ou fica?

E dá-lhe abraços, Lucilas, coincidência, coincidência, coincidência. Votos de Lucilas.

As três resolveram vir no mesmo horário.

As três xarás do caderno.


Rostos e Perfumes
Pessoal perfumado. Mulherada se arrumava. Alguns vinham com cheiro de cigarro. Outras, com perfume francês.

317 pessoas entraram naquela sala. 317 histórias. 317 vidas.

Passaram rapidinho, deixaram o perfume no ar, o barulho do "confirma" nas urnas, e um "bom trabalho".

Alguns eram irônicos. Outros solidários.

A maioria agradecia de coração: antes nós do que eles.

- Espero não me encontrarem, que medo que me dá de me acharem e mandarem que eu fique no lugar de vocês... - disse uma mulher. Arrumadérrima para um domingo de eleições.


Ofegantes
- Nossa, essa rampa cansa demais! Imagina as crianças desse colégio? Devem ter músculos bem definidos e pernas bem torneadas!

Reclamação número 1, era quanto à rampa de entrada.

Elogio número 1:

- Nossa, está vazio!



Trocados
Confirmações trocadas, destacadas em hora errada, votos incertos, eleitores indecisos, pequenas confusões.

Nada muito grave. Era só pensar no Brasilzão que tínhamos um consolo.


Brasilzão
Votou. E você?

Na minha, mais de 80 eleitores não compareceram. E eu assinei no lugar deles. Assinei um "NC" - não compareceu.

Mesmo assim, uma senhora preocupada, perguntou-nos se a mãe dela, já de 90 anos, tinha como trocar o lugar do título para aquele colégio, ao invés de ter que ir até o Ipiranga.

Ter, tinha. Mas só para as próximas eleições.

- Mas ela quer tanto votar...

- Ela pode, mas aqui neste colégio não é possível. Tem que mudar para as próximas.

Espero daqui a 2 anos poder encontrá-la.

*

[Sim, ser mesária é um prato cheio de pessoas diferentes, preocupações iguais e números -única parte parte que é realmente chata!]

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Moinho e Flores


Sua vontade é de agarrar o mundo,
envolvê-lo com suas idéias,
deixá-lo da sua maneira.

Mudar suas cores e sabores,
personalizá-lo.

Mas é ele que a agarra.
Sem o menor cuidado. Insensível.
Machuca.
Engole. Asfixia.

Muda seu jeito e seus gestos,
nocauteia.

Soca desfeitas,
cria hematomas,
sangra as lembranças.

Afoga em suas próprias lágrimas.

E nem tem tempo para conversar com o tempo para dar um tempo...

[Cadê essa primavera para desabrochar uma flor minúscula ou mirrada que seja..?]

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Caminhão de Mudança


"Quer mudar? Ligue para nós!"

Assim dizia o anúncio. Lógico: mil planos, idéias e incertezas começaram a pulular em sua mente.

E se ela ligasse? E se ela realmente mudasse? E se ficasse pior? Não, pior do que já estava não ficaria. Ficaria sim. Ela era tão novinha, cheia de sonhos e criatividade...


E se ficasse melhor? Ah, iria ficar melhor!

Mas e se desse errado? E se parecesse muito artificial, robótico, plástico?! Ué, plástico muda - muda porque é plástico.

Ia ligar. Antes, claro, perguntaria o valor. Quanto vale uma mudança? Aceita-se moedas mutáveis? Deveria... Afinal, a bolsa sempre oscila.

Esperou dar o tempo dos seus pensamentos se reorganizarem e discou o número anotado.

Queria mudar. Há anos queria mudar.

Queria tanto mudar que nesses quereres acabou mudando várias vezes. Justamente, esse tanto de mudanças a deixava constantemente inconstante. E insatisfeita.

Agora ia mudar de vez. Um toque. Dois. Três. Iam atender. Iam atendê-la.


Desligou. Ficou com medo da voz que atenderia. E se perguntassem o que é que ela queria mudar?! Nunca saberia!

Melhor não mudar. Não com um caminhão de mudanças... Era muito pra ela!

Melhor esperar passar uma bicicleta, subir na garupa, deixar o vento mudar - mudar pelo menos seu penteado.

Ou ficar muda - o que não muda nada.

Liga ou não liga?

Liga. E ela lá foi menina de prometer e não cumprir?

- Boa tarde, serviço de mudanças, Gertrudes, quem fala?

- Ahm, é, oi... Eu queria saber, vocês fazem o quê para as mudanças?

- Vamos em domicílio, embalamos tudo, guardamos, encaixotamos, guardamos, colocamos no caminhão, entregamos, arrumamos no novo domicílio e depois os meninos cobram a gorjeta e dormem.

- Dormem na casa?

- Não, no caminhão.

- E quanto custa?

- Depende da distância e da quantidade de coisa.

- Ah, eu sou bem acessível e pequena. Não devem ser muitas coisas. Contam os pensamentos?

- Pensamentos é o quê? De cozinha, sala ou quarto?

- Cabeça.

- Ah... Esses eu não sei. Tem que ver com o superior. Eu posso estar te enviando para ele...

Estar te enviando? Não, ela não falou isso, falou? Quem a Gertrudes pensa que é?! Por acaso aquilo era um serviço de telemarketing? Ah, não. Desligou.

E mudou. Mudou, pelo menos, de planos: nada de caminhões por hoje.

domingo, 28 de setembro de 2008

Elogio ao Banho


Nada contra quem não toma.

Aliás, tudo contra, porque quem não toma banho não sabe aproveitar as coisas boas da vida. Não que não saiba. Pode até saber aproveitar algumas. Mas uma das melhores, não sabe.

Se bem que ela é uma das melhores no meu ranking de coisas boas da vida, e como tudo é relativo e eu não acordei hoje muito totalitária, respeitarei opiniões contrárias e as ouvirei com toda minha paciência.

Ouvirei, mas antes deixo claro dois pontos.

Primeiro, não vale dizer que tem gente que não toma por não ter onde tomar. Chuva existe para quê?!

[Chuva não só existe para alimentar plantas, mas também para alimentar clichês: lava as almas, se junta ao beijo e vira cena de cinema... ]

Segundo, dizer que não toma por preguiça/falta de tempo também não vale. Preguiça de se molhar ou de se secar?

Enfim, quanto aos banhos e não às pessoas, existem vários tipos.

Tá, também existem vários tipos de pessoas, e talvez se não houvesse tantos tipos de pessoas, não teriam tantos tipos de banhos, mas esse não é um texto sobre gente e sim sobre o que gente faz.

Voltando à água e ao sabonete. Banhos. Voltando, mas antes de começar de vez, um aviso: estou escrevendo sem o saber de experts em banhos.

Quer dizer, pensando bem, eu posso afirmar que já tomei muitos nessa minha vida; o que pode elevar meu nível de conhecimento em relação a eles...

Ok, considerem-me uma expert e tudo que eu vou dizer como verdades empíricas. Tudo não, mas a grande maioria, vai (se não banhos já não teriam a graça do novo).

Os tipos. Estes são tão variados como as frutas, as cores ou os sapatos. Existem várias formas diferentes de se tomar banho - o que é uma vantagem enorme para a humanidade que tem a mania de sempre cair na rotina e jogar tudo nesse buraco negro do dia-a-dia.

Em relação à temperatura, por exemplo. Existem banhos frios e banhos quentes. O engraçado é que banhos frios são para dias quentes e banhos quentes para dias frios.

Um paradoxo inigualável, que se completa nessa oposição e resulta numa bela composição temperamental.
O banho frio é capaz de tirar seu suor do corpo. O quente, deixa o suor dele no azulejo. Genial.

Quanto ao tempo. De gato ou demorado. Gato porque gatos se lambem e acham que assim estão de banho tomado. É rápido, prático, mas com certeza, deixa o ar de que faltou alguma coisa.

Este é o problema quando as coisas são muito rápidas: falta algo.

Essa falta, em compensação, acaba sendo totalmente oposta ao exagero do banho demorado. Exagero esse, capaz de demorar tanto que cria rugas.

Sim, banhos demorados deixam dedos enrugados. É a passagem do tempo exposta em apenas um banho. Alguns minutos a mais, você percebe a ação do tempo. Demorou, enrugou.

Continuando com o tempo - mas deixando de lado a questão do tempo do banho - tem o tempo do dia. Banhos podem vir de manhã, tarde, noite ou até madrugada.

Cada um com sua peculiaridade. Acordar, animar, relaxar, ou... Bom, banhos de madrugada devem ter inúmeros motivos, afinal, nem todos passam madrugadas no chuveiro - não é muito comum, já que a maioria das pessoas passa as madrugadas na cama.

Falando em maioria, existe a questão da roupa.

Sei lá, o normal é ela não participar desse evento diário, mas alguns não conseguem se desfazer dela a tempo.

O exemplo mais óbvio e simples é o da piscina: só cair e pronto. Pronto nada, deixar a blusa branca ficar transparente, colar no corpo ou encher de ar - como um balão – e o baita frio depois, completam o quadro. Aí, pronto.

Nessa entram os lugares. Nem todo banho é tomado debaixo do chuveiro. Pode ser dentro da banheira. E aí vêm companheiros. Calma... Podem ser sais aromáticos, espuma, hidromassagem, etc. Verdadeiros companheiros. Ou não.

Também tem o dentro do mar. Este, aliás, é um problema.

Ok. Super divertido, a parte mais legal da praia além do sol (porque areia serve só pra se construir castelos, grudar nos corpos, enterrar os pés, fazer pessoas à milanesa e abrigar carangueijos). O ruim do mar é que ele é muito, mas muito, ciumento.


Só quer você para ele e ele para você.

Depois de entrar, é certeza que vai puxar o seu ser com força ou vai levá-lo para onde sua maré for. Depois de sair, vai deixar sua pele grudenta, seu cabelo, então, nem se fala. Vai marcar presença até na sua boca - dá-lhe o gosto de sal!

Além disso, o mar é tão ciumento quanto possessivo. Como se não bastasse ser habitado por uma galera absurda (galera possessiva também, porque se tiver tubarão, vai querer devorar você), não deixa você não se viciar nele.

Oferece inúmeras atividades - pegar jacaré, surfar, boiar; está aberto para todos, sempre. Chama você de manhã, canta suas ondas à tarde, junta-se às estrelas durante as noites.

Tão possessivo que pega até o Sol e a Lua para ele: pega, e copia. Joga-os nas suas águas, entorta-os.

Apesar deste tipo de banho fazer o possível para agradar a todos, o banho em banheiro não agrada as crianças, por exemplo.

Elas não gostam. Hora do banho é pesadelo. Querem é brincar com os amigos. Certas elas, errados os pais – grandes hipócritas. A partir do momento em que se ensina que banho é uma atividade individual, exclusiva, e restrita somente a ela, perde a graça.

Onde já se viu se isolar de todos só para se melecar com o sabonete e escorregar no chão molhado? Largar a brincadeira para brincar sozinho – criar um mundo de vergonhas. Um mundo chato, uma hora chata. Chata, mas cheirosa.

Foi quando, para se evitar o tédio, inventaram o patinho de borracha. Alguém precisava acompanhar as crianças nesse momento de obrigação e tranformá-lo em algo lúdico.

Não que eu tenha visto muitos patos de borracha por aí. Aliás, tenho a teoria de que eles sejam apenas algo do imaginário coletivo. Algo presente em filmes, apenas. Como um clichê.

Assim como o tal do beijo na chuva: uma raridade. Infelizmente, é só começarem a sentir umas gotinhas caindo do céu, ou umas nuvens pretas o cobrindo, que a maioria das pessoas se encolhem, amontoam-se sob toldos e lajes. Saem correndo, mas não para os braços de alguém para que os beije.

O banho também não precisa ser só de água (a chuva, por exemplo, já virou de canivetes, de dinheiro, de bombas, de balas, de cartas em programas de auditório...).

Pode ser de bebida. Esse gruda tipo o do mar, mas denuncia as atividades etílicas. E deixa a roupa fedida para que todos saibam onde você esteve.

Pode ser de lojas. Amado, adorado, idolatrado –salve, salve-, pelas madames. E um saco para homens ou pessoas impacientes.

Não importa qual tipo, qual tempo, qual ingrediente, qual componente, qual humor, qual companhia.

Banho, é sim, bom. Para parar, pensar, se entregar. Chorar sem ser questionado. Cantar. Cantar para as paredes. Errar a letra. Gritar. Ou até para mandar alguém tomá-lo quando estiver irritando você.

Melhor do que mandar catar coquinho ou plantar bananeira é dizer: “Vai tomar banho!”.

Ou pedir: venha...

sábado, 27 de setembro de 2008

Gasolina de Bar


- Bom dia!

- Bom dia. - respostas automáticas como sempre. Sabia que renderiam aquelas velhas discussões de elevadores ou drive-thrus, mas nem para isso tinha saco.

Se o dia seria bom ou não, ela só saberia depois de deitada em sua cama após ele ter terminado. Estranho saber se uma coisa é boa somente após ela ter acabado...

- Álcool ou gasolina?

- Álcool.

- A senhora quer álcool?

Realmente, naquela hora da manhã, uma moça como ela pedindo por álcool poderia significar apenas três coisas. Um alcoolismo desenfreado, muitas mágoas para serem afogadas ou algo importantíssimo para se comemorar.

Virou o copo, fez uma careta inerente aos goles e saiu feliz. Revigorada.

Não sabia o motivo da bebedeira, mas agora sim. Estava disposta a começar o bom dia.

Consoantes Díspares


- Você é tão parecida a mim. Por isso que nós brigamos tanto.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Díspares Consoantes


Nunca pensara em se declarar, mas naquela tarde de outono, com folhas pelo chão e frio nas mãos, mudou de idéia.

Movida, talvez, pelo tédio (saiba que esse é o grande responsável por muitas mortes e nascimentos) e pela vontade inquietante de mudar os rumos de sua vida (outra coisa causadora de mortes e nascimentos), sem pausas ou grandes devaneios, disse:

- Faz tempo que eu não tenho um desses vícios arrebatadores, capazes de me corroer por dentro e me matar aos poucos - assim, pouco a pouco. Docemente.

- Cigarros?

- Não... Paixões.

E foi com o silêncio recebido como resposta, que, finalmente, ela percebeu. Os homens, de fato, não entendem indiretas.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Ideação


Se eu fosse uma idéia, seria uma daquelas bem loucas - chegaria até a ser revolucionária. Não seria rotulável, inclusive, de tão inovadora seria inclassificável (nem aquele que deu nome às cores e inventou o "fúcsia", "coral", "azul celeste", "bordô", "púrpura", ou outras, consegueria me dar um nome).

Mudaria o mundo, como a bomba atômica. A única diferença é que não traria medo, ódio, mortes ou feridos. Quer dizer, poderiam até chegar a morrer de amor, ou de felicidade e os ferimentos deveriam sim acontecer - só para se ter o gostinho da dor às vezes e o salgado das lágrimas - mas logo se transformariam em aprendizados e seriam curados.

Bombardearia com estrelas os céus escuros e sem luz. De vaga-lumes, as noites sem luar.

Se fosse uma idéia de extermínio, seria das cáries - porque doce é bom. Se bem que escovar os dentes também. Então seria uma idéia de exterminar a preguiça ou as pastas de dente no final.

Ah, seria uma idéia tipo a de amizade. Ou, a idéia de uma máquina de juntar gente que se gosta na hora que quisesse com muita cerveja gelada em dia quente e suco de melancia para quem dispensa coisas gasosas.

Poderia ser uma idéia de máquina que transformasse os grãos doces do açúcar em fios capazes de se desmanchar na boca. Capazes de trazer nuvens para as mãos das crianças... Se bem que essa daí já existe - é a máquina de algodão doce. Deixa eu pensar em outra.

De máquina de falta de vergonha, falta de medo do ridículo, que conseguisse inibir o julgamento dos outros; a timidez, o acanhamento, o recato. Uma cuspidora de verdade, de reparação de besteiras.

Ou não, uma de karaokê no chuveiro. É, essa seria útil para quem não consegue decorar letras e canta tudo errado no lugar com melhor acústica da casa.

Espera. Tem que ser uma idéia forte. É, forte. Ninguém a derrubaria. Devastadora. Avassaladora. Uma idéia efêmera mas eterna. Ácida mas básica. Doce e salgada. Preta e branca. Idéia de macumba e carnaval. Heavy metal e sapatilha. Teto e chão. Mão e pé.

Idéia que desse comida e roupa lavada para todos. Que acalentasse o pranto desesperado como um beijo inesperado. Idéia de mudar o mundo e mudar a própria idéia. Isso, seria uma idéia-camaleão. Mutável - este negócio de ser sempre o mesmo não está com nada.

Seria, aliás, uma idéia moderna, só que também rabugenta. Com gosto de chocolate, noite bem dormida, manhã com brisa solta. Uma idéia com pôr-do-sol, maresia e pernilongo na cidade.

Uma que fosse como banho quente após dia frio e cansativo. Ou ainda, uma que entrasse como água no corpo de todos e de todos assim fosse formada.

Uma idéia de carbono: grafite e diamante. Sem restrições - chegaria nela, neles, sem medo. Como o galã tirando a mocinha para dançar em comédias românticas.

Como início de namoro, apaixonante. Como tatuagem, para sempre. Como vela quando falta luz, confortadora. Como flor-de-lótus. Uma idéia de felicidade, transformadora neste mundo sujo.

Ah, quer saber? Seria melhor se eu fosse apenas uma idéia de ter a idéia de sair daqui e fazê-la acontecer.

domingo, 14 de setembro de 2008

Whisky e Saltos


Convidados para uma mesa com Vinícius e Tom, o domingo não pôde passar em branco. Com as ironias, boas sacadas e poesia dos dois personagens que embalaram o Brasil e o mundo com sua bossa nova (mas que para eles continuava sendo samba), fomos levados a uma viagem no tempo.

De volta às saias e aos vestidos rodados, aos cabelos curtinhos, aos maiôs grandalhões e com muita música, a peça "Tom&Vinícius" deixa um sorriso estampado no rosto até nos momentos mais tristes e uma vontade de cantar continuamente.

“Tudo Azul”, “Plaza”... Estes são apenas alguns dos bares a que somos chamados. Copos de whisky, diálogos inteligentes e, principalmente, seres humanos. Capaz de mostrar o lado pessoal da relação entre os dois (e da relação deles com o mundo), a peça tem em excesso a dose humana - uma overdose de gente em seu estado genuíno, destiladíssimo.

Pequenas discussões, grandes amores, ciúmes, paixões, bobagens, planos... Tudo isso, para mostrar o quão passional era a época em que o ritmo da vida era muito mais lento (ainda que Tom reclamasse da rapidez com que passavam alguns carros nas ruas, impedindo as crianças de brincar tranqüilamente - agora, por outro lado, os carros não correm: travam em congestionamentos...).

Whisky e boas músicas não podiam faltar. É em companhia do cachorro engarrafado e discutindo sobre mulheres ácidas ou básicas que Vinícius e Tom compõem músicas e se perguntam sobre o futuro (apenas como estarão as mesmas músicas daqui 50 anos - 100 seria muito tempo... para essa pergunta, eu respondo: excessivemente comemorando-se sua chegada à meia-idade).

Cansado de mesas de bar? Não se preocupe. Também fomos levados à fria Paris (onde Vinícius termina com Lila e começa com Lucinha), aos Estados Unidos (para que Tom cante com Sinatra) e ao belo pôr-do-sol de Ipanema. Tudo com um ritmo apaixonante - com trocadilhos à parte - tanto na peça, quanto nas músicas.

As músicas? Começam com aquelas tocadas em "Orfeu da Conceição" - ponto inicial da parceria. Passa por "Samba de Uma Nota Só" (apresentado nos States), "Tristeza", "Desafinado", "Garota de Ipanema", "Água de Beber", entre outras. É claro, não podia faltar a clássica da bossa: "Chega de Saudades" *.

Mais do que uma peça, "Tom&Vinícius" é o retrato de uma amizade inigualável. Um retrato de um amor por música, arte e poesia. Uma bela mostra de vitalidade nos acordes da música brasileira. Um musical que apenas atesta a frase de Tom Jobim: "Eu vou morrer um dia, a música vai ficar..." .

* Falando em "Chega de Saudades", assisti ao filme de Laís Bodanzky de mesmo nome. E deu vontade de tirar os saltos do armário para rodar por um salão de baile.

Além das músicas, os 95 minutos expõem vidas e conflitos inerentes às paixões humanas mostrados entre rodopios, copos e bilhetes em guardanapos.

Histórias entrelaçadas como os corpos no meio do salão, fazendo a trama girar entre casais, amigos, ou apenas freqüentadores do ritual que aviva memórias e sentimentos daqueles que parecem já ter vivido o suficiente - mas que se recusam a ficar parados esperando a morte chegar.

Triângulo amoroso (ou seriam "quadrado"?), jovens interferindo na rotina do casal (Marici vê seu par Eudes derreter-se na companhia da moça Bel, que por sua vez, apenas foi ao baile para acompanhar seu namorado Marquinhos - DJ do local - mas acaba aprendendo muito mais do que simples passos de bolero), amores reencontrados (Álvaro e Alice, ambos viúvos, enfrentam as limitações e superam barreiras da idade) e ciúmes entre amigas (Nice, trazida ao baile por Elza, acaba encontrando um par enquanto esta limita-se à solidão) recheiam a história.

Como se não bastassem, ainda rodopiam pelo salão discussões sobre o amor, problemas técnicos (como a falta de energia elétrica) e berros da Elza Soares não deixando o samba morrer.

Mais uma vez, ritmos embalam a obra e confirmam ainda mais a vontade de viver – a mesma já embalada por Vinícius e Tom.



Naquela Noite


Tinha esmalte vermelho nas unhas,
copo em uma mão,
mãos em outra.

Cheiro de cigarro no cabelo,
dor nos pés cansados de saltos.

Luzes coloridas nos olhos,
Músicas e promessas nos ouvidos.

Tudo isso, e um só pensamento:
não pensar. Viver.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Eternos Insatisfeitos


Calor:

Dá vontade de tirar a roupa e mergulhar no gelado.

Ser envolvida pela água, totalmente.

... E sair reclamando do frio.
__________________________________________

Frio:

Dá vontade de colocar mais roupa e mergulhar no calor.

Ser envolvida por cobertores ou por braços, totalmente.

... E ficar reclamando do calor.


terça-feira, 2 de setembro de 2008

Dupla Personalidade


-Deixa eu falar com a Irene.

Era uma manhã de segunda. Mal começara a semana, já estava recebendo ordens pelo telefone. E a voz não passava de uma criança.

-Desculpa, não tem nenhuma Irene.

-Como não? Tem sim, mano. Deixa eu falar com ela.

-Não, não tem.

-Tem! Ela me deu esse número.

-Então você discou errado.

-Claro que não! Fiz certinho, ó aqui.

-Você ligou pra qual número?

Sim, confirmava. Era seu telefone. Mas não podia ser, não havia nenhuma Irene.

-Olha, sinto muito mas desde que eu saiba, não moram Irenes aqui.

-Mora que eu sei.

-Sabe errado, porque não moram.

-Mora!

-Não mora.

-Mora sim!

-Não mora. Saco!

Desligou irritada: se ela disse que não, era não, oras... Horas, aliás, se passaram para que o barulho ensurdecedor do telefone voltasse a incomodá-la.

-Alô?

-Mano, eu quero falar com a Irene.

-Você de novo? Quantas vezes vou ter que dizer que não existe nenhuma Irene neste número?

-Existe sim, você que não quer que eu fale com ela.

-Não existe não, se existisse aposto que não teria porquê não passar o telefone a ela. A menos que ela esteja fugindo de você. Ela está fugindo de você?

-Não, né! Ela que me pediu pra ligar.

-Pediu, mas insisto: deu o número errado. Ou você se enganou ao anotar.

A voz aguda do menino se transformou em grave. Séria. Pesada.

-Dá pra parar de enrolar o menino e deixar logo ele falar com a Irene? Eu não tô de brincadeira não. Ele tem que falar antes de ir para a escola. É bom você passar logo essa porcaria de telefone.

-MAS NÃO TEM IRENE! Você acha que eu estaria enganando o moleque? Se eu disse que não tem, é porque não tem. E ponto.

-Moleque, não! Oh o respeito! QUAL SEU NOMI?

Juliana? Márcia? Lívia? Sandra? Qual seria seu nome? Mentiria, diria a verdade? O que responder?

-Não tenho nome...

-Como não? Tá com MEDO? Fala seu nomi então, já que você não quer que ele fale com a Irene!

-Ir..não, Sandr...NÃO INTERESSA MEU NOME!

-Você tá se escondendo, né, mano, vai falar ou não vai?

-Sinceramente? Não vou falar coisíssima nenhuma, mesmo porquê já perdi demais do meu tempo aqui. Você vai ver, depois o menino chega na escola e fala com a Irene sobre a confusão. E nunca mais voltará a ligar, pois verá que não é esse o número dela.

Começou a se confundir. Será que ela era a Irene? Será que o nome pelo qual todos a conhecia, Sandra, não passava de alguma leitura mal-feita e errônea de seus verdadeiros documentos? Pseudo-nome?

Novamente, aliviou-se ao ver que haviam desligado. Alívio curto - minutos depois, ouvia o toque vindo do aparelho.

-MOLEQUE, AQUI NÃO TEM IRENE!

-Moleque não, eu sou homi, já! E DEIXA EU FALAR COM ELA!

-Será possível uma coisas dessas?! Desculpa, então, HOMI, NÃO TEM IRENE AQUI!

Ele insistia. Ela se irritava. Não podia brigar como uma criança, mas agora, a criança dizia ser um homem...

-Pela milésima vez, você se enganou. Quando você for para o colégio, fala com a Irene e vê como houve uma confusão. Ou você anotou o telefone errado, ou ela se enganou e passou outro número. TALVEZ ELA NEM SAIBA QUAL O NÚMERO DELA DIREITO!

-Tá chamando a Irene de burra, mano? Você é da onde? É daqui do bairro?

-Não interessa. Não sei se sou daí. Eu não sou de lugar nenhum. A questão é: PÁRA DE LIGAR PORQUE AQUI VOCÊ NÃO VAI ACHAR A PESSOA CERTA!

Sem perder tempo, desligou. Na cara de uma criança! Mas ela dizia ser grande já...Sabia que ele voltaria a ligar. Foi tomar uma água. Ligou.

-Ó eu vou jogar uns papos sérios agora. Ouve bem. Você vai me passar para a Irene, senão..

-..Senão nada! NÃO TEM IRENE. E você não entendeu? Chega de ligar para cá.

Esse que era o problema, ela dava corda para as conversas. Adorava conversar. Maldito gosto! Tinha que gostar de ouvir os outros? Tinha sempre que palpitar? Tinha que ser intrometida, ouvir assuntos alheios, e ainda, não satisfeita com isso, comentar mesmo não sendo chamada?! Tinha que dar corda para um menino pelo telefone, insistente no engano? Não podia simplesmente ficar quieta? Não, não e não. Era um de seus males.

-Mas é que moça, eu sei que esse é o telefone dela...

-Moleq..quer dizer, HOMI. Seja forte e aceite: ela se enganou. Você se enganou. Todos nos enganamos. Acontece.

O dia passou e entre telefonemas, msn, blogs e emails, estava prestes a sair de casa. Já havia passado mais de uma hora sem a ligação do moleque-homi-mano-Irene.

Estranhava. Talvez ele simplesmente não tinha o que fazer durante a tarde...Mas essa Irene, também, tinha que mandar o número errado para o menino? Que inferno de mulher!

Ou será que... ela, Sandra, não era Irene? Ela também era um inferno de mulher. Ela ouvia conversas alheias, dava corda para alguns mesmo sabendo que não teria futuro, fazia com que acreditassem na sua simpatia mesmo sendo naturalmente antipática. Irritava, respondia, se intrometia.

Talvez fosse ela, Irene. Agora o menino precisava ligar. Tinha que tirar a limpo essa história. Como era a Irene que ele procurava? Alta, loira, olhos azuis e peitão? Não, então não era ela. Uma menininha com vestido sujo, meleca no nariz e pé preto de terra? Também não.

Ah! O telefone. Atendeu, pela primeira vez do dia, rapidamente.

-OI! Você quer falar com a Irene, né?!

-Eu quero, mano. Passa logo que eu já estou cansado. Chega de me tirar, mano, eu sei que ela tá aí.

-E ela é como?

-Quê? Sei lá como ela é, você é que tá com ela aí. DEIXA EU FALAR COM ELA, CARALHO.

Não era essa a resposta que ela esperava ouvir do menino. Como podia ser homi se a voz aguda e falha o denunciava? Era sim um menino. E meninos não deveriam falar assim, de jeito tão grosso.

A inocência, pureza e leveza pueril já não existia mais, pelo jeito. O momento de esperança dela se descobrir como Irene se foi. Evaporou-se como fumaça de café quente.

-Tá, foi engano. De novo.

Desligou.

Saiu de casa pensativa, angustiada. Preocupada com meninos-homens, com crianças que diziam ter crescido. Com duplas personalidades. O dia inteiro procurando uma Irene. Irene, dona de seu número de telefone.

Alguma coisa estava errada. Completamente errada. O mundo, agora sim, estava do avesso do avesso do avesso do avesso...

Ela? Após tantas chamadas, também voltou-se ao avesso. Entrou numa crise existencial. Exagerada, foi além. Não só sua existência estava agora fadada ao caos de crianças insistentes e desgovernadas, de telefonemas capazes de dar nós em cabeças desembaraçadas, mas também em alterar pessoas. Mergulhou também numa profunda crise de identidade.

Para amigos, continuava com o nome de sempre. Para desconhecidos, Irene. Isso quando aqueles com quem falava não faziam parte dos inclassificáveis: nem amigos, mas também nem desconhecidos. Aí o nome se juntava. Virava composto. Como mocinha de dramalhão mexicano. Era Sandra Irene. Ou Irene Sandra...

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Sem Passar


Parada sob o ponto de ônibus, cuja cobertura poderia protegê-la de chuvas verticais mas não a protegia do sol escaldante da tarde (que insistentemente batia em sua cara, forçando-a a formar rugas precoces), observava atentamente o ônibus imaginário, único a não passar pela rua.

Do outro lado, via um espelho errado: ao invés de ter seu reflexo, o ponto era cheio. Vazio. Cheio. Vazio, novamente. Lá passavam ônibus.

Chegar no lado oposto ao seu sempre era mais fácil. Seguir o caminho que todos seguiam era rápido. Sem problemas. Mas ela não devia, não podia e nem queria. Então, esperava.

Carros com músicas altas - acabara de ver um com vidros abertos, braços para fora tocando funk -, caminhões fazendo entregas na farmácia ou no mercadinho, crianças formando fila para a barraquinha de hot dogs (a melhor das redondezas), mulheres caminhando em direção ao banco.

A vida não parava, e ela ali, parada. Em vão, virava seu olhar para a esquerda - alguma hora veria a carcaça laranja aparecer no horizonte. Nada.

Ao lado do ponto tinha uma igreja - seu relógio. Minutos passavam, mas os sinos não badalavam. 5, 10, 15, 20. Nada. Fiéis faziam o sinal do espírito santo - seja de dentro do carro, ou a pé. Ela, nada.

Atrás da igreja, um colégio. Era hora da troca de turmas - pequenos saíam gritanto, brincando, enquanto adolescentes com fones nos ouvidos andavam em bando, conversando. Um ou outro casalzinho. Fofocas, músicas, penteados, camisetas, risadas tímidas.

Ela era eles. A mochila a denunciava. O all-star nos pés também. Estudante. Igualzinha. Sentia ser outra, mas com certeza era vista também como tal. Todos queriam ser outros. Todos buscavam a diferença. Ela queria ser outra (estava na faculadade!), mas imperceptivelmente era a mesma.

Era o mesmo que eles. Ela era eles, esperando a aula começar. Esperando o ônibus passar. Ali, mal passada. No ponto.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Sol de Lantejoula


Sabia que era apenas uma válvula de escape brasileira - que associada à dupla praia e futebol, tornava-se o "trio-pronto-para-turista" - mas estava com vontade de carnaval.

Cansado da tal rotina, e sabendo que ela devia sentir-se cansada de ser sempre a acusada de ser culpada pelo mal-humor dos mal-humorados (afinal sempre quando uma nuvem negra passa a rondar, culpa-se a rotina e atribui-se a ela o adjetivo "massacrante"), sentia falta de cores e risadas pelas ruas.

Queria sair por aí; ver crianças correndo, satisfeitas com os dias em que jogar água com tinta nos outros era permitido. Queria ver confetes e serpentinas acumulando-se nas sarjetas. Queria ouvir o casal vizinho reencontrando o novo amor - ou reinventando aquilo que os anos desgastara.

Queria ligar a TV e finalmente ter todos a sua volta concordando que "passa sempre a mesma coisa em todos os canais" - algo que embora fosse comum todos os dias, poucos notavam e apenas quando explicitamente eram os sambódromos que estampavam as telas é que se percebia a falta de opções televisivas.

Queria a felicidade mascarada com plumas e adereços. Queria uma fantasia, queria ser quem ele quisesse, sem julgamentos pré-concebidos. Queria seguir a sua vontade, vontade de vida de festa, de ritmos, de brilhos. Queria amar, amor, beijos, corpos. Queria a mulata, os clichês, as lantejoulas.

Estava a ponto de sair do trabalho, largar o computador, pegar uma cerveja e andar a toa, conversando com aqueles que, como ele, também passeavam sem direção pela rua.

Ia sentir o sol de fevereiro batendo no rosto em pleno agosto. Ia olhar as fantasias das meninas, ia fantasiar-se com elas, em uma mistura de encanto e cantos. Ia entrar na roda, ouvir um samba, esquecer dos tais problemas.

Esquecer da mulher, do chefe, da mãe, da tia que também esqueciam dele. Lembrar, apenas, do seu eu, egocentricamente, servindo de reflexo ao país: a toa, feliz, com vontade de nada e de tudo.


Tinha vontade de apenas se deixar levar, seguir o bloco, pular na avenida, cantar, dançar. Sem diferenças ressaltadas. Vontade, somente, de carnaval.

(des)Saberes


Quem sou eu para falar com tanta convicção sobre o passado, presente e futuro, nessa mesma ordem, juntando tudo ou misturando?

Quem sou eu para opinar sobre a vida alheia, aconselhar com anos de sabedoria, com o peso da experiência, com a notabilidade de uma bem vivida?

Tem vezes que baixa uma autoridade em casos amorosos, em problemas profissionais ou em discussões familiares e eu, realmente, fico sem entender ou saber explicar para mim mesma qual seria sua procedência - embora explique e palpite convencida de meus achismos como uma grande doutora em qualquer assunto (mas também em nenhum).

É complicado, e mais um mal-estar para a lista da sociedade: o saber que sabe tudo; a arrogância dona da verdade; a verdade escondida no inconsciente mas que só aparece disfarçada de 'idéias só da cabeça de alguém'.

Ah... Vai saber!

sábado, 23 de agosto de 2008

Espera


Reclamava da falta de olhos nos olhos mas desviava os seus sempre que se sentia incomodada. Nunca se sabe: o estranho que a olhava poderia roubar sua alma, entrar em seus pensamentos, descobrir seus segredos... Na verdade, nem ela era capaz disso.

Quase não sabia seus próprios segredos. Raramente entendia seus próprios pensamentos. Sua alma, perdida, era um poço infinito. Não era medo de ser exposta. Era pura covardia. E egoísmo - vai que ele descubra coisas que ela nunca antes descobrira?!

Não tinha paciência. Queria tudo agora, neste instante, sem desperdícios ou demoras. Não suportava a solidão. Se sabia que alguém estaria a caminho, os segundos a sós se tornavam minutos, milênios.

Ligava. Mexia inutilmente no celular, apertava os botões, revia mensagens antigas, apagava as inúteis. Onde você está? Olhava ao redor na esperança de encontrar alguém chegando, pequeno, distante. Mal conseguia enxergar - maldita miopia!

Odiava a espera, o tempo que parecia lentamente desnecessário, perdido, desperdiçado. Odiava sentir-se sozinha. Era uma dependente independente. Pseudo auto-suficiente. Queria saber de todos, possuí-los, para que pudessem completá-la. Reclamava da falta de privacidade mas se expunha na Internet, em blogs, orkuts, palavras virtuais, verdadeiras.


Exigia seu espaço, enquanto usava também o dos outros (as mãos sempre serviam como complemento da fala que não se bastava. Suas palavras não eram suficientes por isso uniam-se a elas gestos italianamente exagerados).

Via o céu parado em seu imenso azul. Um pássaro perdido rasgando-o. O relógio e seus ponteiros. As horas. As folhas amarelas voando.


Pensava em si mesma. Pensava nos amigos, nos passantes, no passado. Ouvia conversas alheias de uma roda de pessoas felizes, despreocupadas (pelo menos assim pareciam). Vou conversar com elas. Sentada, não queria sair do lugar. Tinha preguiça, mas as pernas, inquietas, balançavam de um lado para o outro. Seus pés não tocavam o chão.

Em meio a tantas coisas nesse vácuo da espera, finalmente, sentiu o aconchego da voz conhecida. Um sussurro (para não assustá-la na volta para a realidade de fora de sua cabeça) enchera seu corpo de alegria. Eram palavras magicamente comuns, capazes de fazer seu dia:

-Cheguei. Demorei muito?



Sei lá, Sabe?


Tem dias que a gente acorda meio assim, meio assado, bem com frio.

Tudo cinza, dor de cabeça, muito pra fazer sem nada de começar. Ou não tem nada para fazer e muito para começar.

São aqueles dias de verão/inverno, inverno/verão: eu espero o calor e vem o frio, engraçadinho, querendo me encapotar. Ou vice-versa: chega o calor querendo me deixar de pernas de fora. Palhaços. Acham que me enganam... Acham e conseguem.

Dias assim que me deixam desanimada e com vontade de fazer tudo inclusive nada de nada.

domingo, 17 de agosto de 2008

Esquizofrenias Divagadas


-Oi, tudo bem?

-Oi... Boa noite!

Sim, conversas de elevador são realmente estranhas - isso quando não envolvem óbvias análises metereológicas.

O acontecemento foi o seguinte: eu voltava sozinha da garagem, perdida em pensamentos dentro do cubículo quando ele entrou para subir apenas uns dois ou três andares. Sim, dois ou três andares: uma injustiça. E não só para mim.

Por que injusto? Três são as razões: primeiro, injustiça com as pobres pernas flácidas dele, por deixá-las imóveis para evitar alguns lances de escadas. Segundo, com o próprio elevador, que passou a trabalhar gaguejando pelos andares. Terceiro, uma injustiça
temporal - sim, encontros como esse são curtos o bastante para que se possa desenrolar qualquer diálogo, mas ao mesmo tempo longos demais para que se pare apenas no "oi, tudo bem boa noite bom dia tchau tá calor".

Como se não bastasse a injustiça, o simples fato dele me perguntar se tudo estava bem e eu responder com um esquizofrênico "Oi... Boa noite!" mostra que alguma coisa está errada. E não só comigo.


Eu simplesmente não respondi se tudo estava bem porque sabia que mesmo se não estivesse eu diria "Tudo, e com você?" e aí, além da tentativa de manter uma conversa frustrante para passar um tempo que nem deveria existir do jeito que é, estaria enganando a mim mesma e a ele - pobre coitado que encontraria uma mentirosa de elevador.


Tudo bem, eu entendo que a pergunta não passa de uma mera formalidade ou de uma singela forma de demonstrar educação, mas será mesmo necessária? Será que essa automatização das perguntas não apaga a espontaneidade - mágico instrumento capaz de criar situações ou diálogos surpreendentes no nosso cotidiano?


O verdadeiro problema, no entanto, não era a simples questão das perguntas à toa, mas sim do falso interesse para/com os outros. Tamanha é a vontade de se perder em seus próprios pensamentos (assim como eu estava antes do elevador parar e outro passageiro embarcar nessa) que as pessoas simplesmente não ouvem as respostas dadas para perguntas automáticas.

Não ouvem, por não estarem interessadas. E não estão interessadas por terem outros problemas mais relevantes a serem pensados.


Ok. Parece estranho exigir de um estranho a paciência para um desabafo desconhecido - ou não necessariamente um desabafo, mas apenas uma resposta do parecer individual daquele a quem se dirigiu a pergunta. Mas não, o problema não é nem esse. Não é uma carência de uma pobre coitada que não tem mais com o que se preocupar. É algo muito maior.


A partir do momento em que nossos atos passam a ser impensados e puramente mecânicos, suas conseqüencias simplesmente deixam de ser humanizadas - acaba-se com o mais puro e sincero gesto.
Se ao invés de ouvir, as pessoas preferem vomitar pensamentos egoístas ou perguntas para que se mantenha o mínimo padrão de "educação" e "respeito ao próximo" (leia-se: a sutil demonstração de interesse por como se encontra aquele com que se depara, para não parecermos egocêntricos), e sem perceberem, admitem diálogos esquizofrênicos, algo está errado. E não é apenas no elevador.

Aceitar, acomodar-se com uma resposta sem sentido, ou pior, simplesmente não ouvir nem perceber que a resposta não teve sentido são atos que caminham para um individualismo febril extremamente prejudicial. Repito: não só em um elevador.

Como pode-se viver em um mundo em que pessoas preocupam-se apenas em tentar sobreviver respeitando a rotina massacrante para que em um dia de folga, questione-se o que fará num futuro próximo sem perceber que aí encontra-se o futuro? Sem notar ele passando despercebido em meio a emails, contas e palavras?

Como? Ainda não sei. Só sei que se algum dia, perguntarem "Tudo bem?" uma coisa é certa: responda algo que pelo menos faça sentido, para que seus pensamentos perdidos não se transformem em uma divagação - para que eles não notem essa injustiça, não percebam essa incomunicabilidade, essa loucura avassaladora, nem essa esquizofrenia coletiva.


Ou não.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Palavras Contadas


Sempre sentiu-se bem entre os livros. Passar horas em uma livraria, era, para ela, um programa tão bom quanto comprar sapatos pela metade do preço para consumistas ou assistir aos segundos finais da final de qualquer campeonato para torcedores do time vencedor.


Ao contrário da cidade-corrida lá fora, o reduto dos livros era calmo, tranqüilo. Os livros, aliás, não tinham pressa: a esperariam quanto tempo fosse necessário ali, na prateleira. Se fossem levados por rápidos sedentos leitores, ainda restaria a esperança de poder reencontrá-los em outra livraria. Não reclamavam de seu atraso. Eram pacientes, novos, nunca antes tocados.

Guardavam paixões, lágrimas, abraços, mortes, palavras. Sabia que dentro de cada livro, milhares de paisagens nunca antes vistas se esconderiam. Sabia não saber quais diálogos encontraria. Únicos, especialmente para ela - a serem desvendados no momento certo.

Tinha plena certeza de que as histórias guardadas entre a capa e a contra capa seriam estendidas no instante em que suas mãos as separassem. Eles se entregariam em uma reciprocidade incomum no individualismo do século XXI. Se abririam, contariam a ela coisas que jamais alguém seria capaz de sussurar. Entrariam em sua alma, atravessariam sua razão. A entenderiam - ainda que nem sempre ela os entendesse.

Em um misto de euforia e ansiedade, a moça folheava as páginas daqueles cujo título a chamava. Lia as orelhas. Via a foto do autor. Sorria como uma criança sabendo que ele poderia ser seu velho contador de histórias.

-Posso ajudar?

Sabia que perguntas assim davam abertura a desabafos momentâneos, mas não tinha do que reclamar - as contas a serem pagas; os trabalhos a serem entregues; as amigas esperando por ligações; o caso mal resolvido; o retrovisor quebrado; a dieta; a visita à tia doente; a inflação no supermercado; o aumento a ser pedido; as cobranças da mãe, da avó, do chefe, do zelador, do namorado, da vizinha; tudo se evaporara magicamente tornando-se uma fina névoa de meras preocupações batidas.

-Na verdade, não.

Com uma leveza de satisfação no rosto, sorriu. O vendedor, disposto a ajudar corações perdidos em meio a retângulos coloridos, se distanciava, quando ela completou:

-Quer dizer... eu precisava saber o preço dos livros. Onde é que eu acho?

-Nos leitores que existem entre as prateleiras. Aqui, olha - e apontou para uma maquininha quadrada com visor verde e linhas vermelhas luminosas saindo por sua base.

-Obrigada.

Aproximou-se do leitor com o exemplar que, aleatoriamente, carregava nas mãos. Curiosamente, o lugar que mostraria o preço assim era chamado: leitor. Achou engraçado, embora ironicamente cruel.

Números apareceram no visor. Nunca gostara de números. E neste exato momento, soube o porquê - eles não cabiam em seu bolso (ao contrário de palavras que escritas em um papel poderiam acompanhá-la para onde quer que fosse).


Desolada, voltara a realidade: era uma loja. Como pôde deixar-se enganar por todas aquelas folhas intocáveis que a esperavam com uma risada cínica...Largou o livro em um canto, e dirigiu-se à saída, pensativa.

Não podia culpá-los. Não eram eles que queriam se manter esquecidos em prateleiras, empoeirando. Não eram eles que queriam se afastar de suas mãos, fugir covardemente pelos becos da economia.

Provavelmente não queriam ser trocados por uma nota - uma nota que não fosse musical ou, muito menos, de poesia. Lá os livros eram, na verdade, produtos. Rotulados e marcados por tracinhos que seriam lidos pelo leitor quadrado e verde (maldito leitor...Não se deve ler apenas o código de barras, deve-se ler as palavras!) e então, trocados por números.

Bom, pensando bem, aquele velho contador de histórias deve sobreviver de alguma forma. Afinal, ele escreve para que leitores-humanos possam ter seu momento de tranqüilidade, angústia ou descoberta entre as páginas de seu livro e para isso, paguem seu pão ou sua cerveja. Entendeu o recado - pelo menos, fingiu que entendera.

Uma pergunta, no entanto, insistia em incomodá-la: como podiam apenas quatro números separados por uma vírgula afastarem tantas histórias de sua vontade?

A resposta era simples. Nem tudo estava perdido - apenas a vontade ciumenta de possui-los. De trocar a prateleira da livraria pela prateleira de sua casa. De deixá-los em meio a tantos outro já lidos e que agora insistem em acumular poeira. Os números nunca seriam capazes de afastá-los - tentariam inutilmente, mas os livros nunca se renderiam às traições. As palavras lhe eram fiéis. Existiam as bibliotecas.

Agora Dobra!


A brincadeira era assim: a pessoa escrevia uma frase numa folha de papel e dobrava de modo que ela não pudesse ser lida pelo próximo.

A única coisa que saberíamos a respeito das palavras ali contidas era a última a ser posta no papel - depois de dobrar, era necessário escrevê-la na nova folha em branco para que quem recebesse o papel pudesse começar sua própria frase com a palavra alheia.


Segunda frase escrita, era a vez de dobrar o papel, escrever a última palavra e então entregar para uma outra pessoa (ou para a mesma, caso não houvesse muitos participantes interessados nesse momento de criação conjunta desproposital).

No fim, o resultado eram histórias sem pé nem cabeça, mas engraçadas - ou não.

Às vezes dava tudo errado. Nada com nada pode, realmente, chegar em nada. E aí perdia a graça, as pessoas jogavam o papel de lado (ou faziam aviãozinho, picadinho, confete, bolinha...só não reciclavam porque não era época de aquecimento global e preocupação extrema ambiental) ou trocavam pelo jogo-da-velha.

Se tela de computador pudesse ser dobrada, daria para fazer isso.

Se a curiosidade não existisse, eu insistiria nessa brincadeira com a única condição que seria não ler o que o outro escreveu, restringindo-se a última palavra apenas.

Mas não dá.

Por isso tem horas que o bom e velho papel cumpre sua missão mil vezes melhor do que essa tela que daqui a um clique não existe mais.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Instante


O peixe mordeu a isca.
A mosca pousou na sopa.
O casulo se abriu.
O farol fechou.
A água evaporou.
A fruta madura caiu.
A maçã estragou.
O sol nasceu.
O homem morreu.
A flor desabrochou.
O telefone tocou.

O chiclete grudou.
O mosquito picou.
O governo roubou.
O dinheiro acabou.
O sino badalou.
O time treinou.
A bola entrou no gol.
O louco gritou.
O aluno perguntou.
O policial multou.
O exausto trabalhou.
A biribinha estourou.
O menino espirrou.
A mãe o agasalhou.
A menina se maquiou.
O cabelo embaraçou.
O gordo arrotou.
A feia cantou.
O bebê chorou.
O leite ferveu.
A bebida destilou.
O ovo fritou.
A TV pifou.
O rádio chiou.
O computador ligou.
A bicicleta acelerou.
O carro atolou.
O avião decolou.
O pneu furou.
O trem apitou.
O radar o pegou.
O viajante chegou.
O caminhão atropelou.
A vista turvou.
O chocolate acabou.
A bala matou.
A lágrima derramou.
A freira rezou.
O padre pecou.
O amigo a abraçou.
A fila andou.
O casal se beijou.
O amor suspirou.
O clima esquentou.
O jantar esfriou.
O vidro embaçou.
A luz se apagou.
O sapato apertou.
O botão se abriu.
A calça folgou.
O copo quebrou.
O fogo acendeu.
E o tempo voou...



...enquanto você apenas lia o título.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Querido Diário (quer dizer, Querido Noturno),

Era um dia de férias. Mais um dia daqueles que você não agüenta mais ficar em casa. Ainda mais sabendo que a bendita (ou maldita) lista que definiria sua rotina (ou desrotina) do ano estaria para sair.

-Ai, Savi, eu vou pra sua casa, tá? Já estou indo, pode ser?

-Vem, vem sim...a Vick tá aqui!

Fui. Já tinha passado as férias inteiras com elas - fazia parte dos dias vazios de janeiro se completarem com as nossas conversas e risadas.

-Então eu vou colocar um filme gente... aí você sossega um pouco, Lice -qualquer um que você quiser, a Savi já vai ter visto e, mais, vai saber contar a história de cabo a rabo com todos os detalhes, por horas a fio, e comentários cinéfilos - Qual que vocês querem? Não, já sei. Vou por esse pra acalmar você.

Orgulho e Preconceito. Sim: sotaque britânico carregado, vestidos longos, declarações, paisagens calmas em contraste com o conflituoso romance de Elizabeth e Darcy. Quase no final do filme - no momento em que frases de efeito se misturam às cenas bem construídas, à trilha envolvente e aos sentimentos que nos são lançados (um aperto, um amor, uma alegria, uma tristeza) - tocou meu celular.

-Alice, filha, você passou na USP!

-Oi?!? Passei? Como assim??? JURA?!?

-Passou!

-AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHH!

O momento de euforia foi longo. Bem longo. Chegou até a ficar histérico e, deveras, cômico. As três que quase estavam chorando como a chuva do filme, passaram a pular. É, bem isso mesmo. A pular. E não estávamos sozinhas: a cachorrinha Mel, poodle desgovernada que adora latir pra mim e nunca foi com a minha cara, nos acompanhou. E latiu também, lógico.

-Só que no noturno...

-AAAAAAHHHhhhhhhh
...mas tudo bem... eu passei! eu passei! Gente, eu passei!

O que segue foi simplesmente esquecer o fim dos dois protagonistas (não digo o beijo, porque esse final seria só na versão americana, num é?) e ir para o computador ver quem mais conhecido estaria pulando como a gente. Entrar na internet sem ir logo para o Orkut, não é entrar na internet, então logicamente, assim como abriu-se uma janela com a lista dos aprovados, o azul do Orkut logo começou a enfeitar o monitor. E scraps começaram a surgir, vindos de pessoas que eu nunca vira: "parabéns!", "seja bem vinda à ECA!", "estes serão os melhores anos da sua vida, aproveite!", "fala, bixete!!".

De repente, o que antes estava esquecido em meio ao pó orkutiano, sofreu uma reviravolta. Uma avalanche. Uma revolução: comunidade nova, milhares de mensagens de parabéns, e uma coisa era certa: "Não perca a semana dos bixos, bixete! Vai ser a melhor semana das suas férias!". Minhas férias tinham sido tão boas que eu até cheguei a duvidar...

Dia da matrícula ("oh, nem vai muito arrumada!" - conselho que eu percebi valer para todos os dias do ano). Frio na barriga. E se tivesse faltando algum documento? Vontade de conhecer todo mundo. Vontade de conhecer tudo. Vontade de ser pintada, ser chamada de "bixete", sobreviver ao tão temido trote. Ué, mas é só isso? Na ECA foi assim - nada de humilhações, apenas muitas cores na cara e conversas, conversas e conversas. Recebi mais do que boas vindas: ganhei uma família (e alguns futuros colegas de classe, que eu encontrei na perdida tarde após busca contínua de Jornots). A dúvida de querer mudar para o matutino foi logo dissipada - ah, não! Jornot é mais legal!

O intervalo entre a matrícula e a semana dos bixos foi interminável. Cadê essa semana que não chega?!? Repleta de atividades - muitas das quais não precisavam nem ser tão programadas porque no fim, bixo é burro e faz tudo errado (vide "pic bandeira" de bexigas...), alguns jornots aqui, outros ali, mas o que se via mesmo eram mats pra todos os cantos.

Ah, não tem problema. Os nots eu vou conhecer de qualquer jeito dentro da sala. Conversas com alguns, primeiros bandejões com outros, mas total que na semana dos bixos, nós, jornots, passamos mais tempo por aí falando com pessoas diversas do que a procura da nossa sala. Pepês, avês, plásticos, cênicos, músicos...e jornots que é bom, nada (se bem que dizem que sempre é bom deixar o melhor para o final).

Logo percebi os ventos polares da prainha. O calor de verão, incrivelmente, virava sopros gélidos a noite. Não deu outra: fiquei doente. O fim da minha intensa semana teve direito a febre e tudo. Fazer o quê, era alegria demais pra minha pequena grande pessoa.

Primeiro dia. Digo, primeira noite. Todo mundo sentado, sério, uns conhecidos aqui, umas caras novas ali...Uma professora bem conservada e uma coca-cola. Para falar a verdade, nem lembro muito bem como foram os primeiros dias. Provavelmente cheios de “oi, eu sou fulano”, “então tá, tchau beltrana!”, “muito prazer, cicrano”. E tenho que falar que realmente, o prazer foi grande de ter conhecido todos.

Idéias malucas, cidades que eu nunca tinha ouvido falar, um povo genial. E bem doido. Logo na primeira Festeca descobrimos que o que faz realmente as festas da ECA são as pessoas – música? Bebida? Essas acabam...agora vai ver se os assuntos jornoteanos têm fim! Nunca! Depois veio a outra, mas com cara de balada – ou não. Normalmente não se trincam cóccixes (é esse o plural de "cóccix"? Nunca escrevi isso antes, assim como você nunca deve ter lido, então vamos fingir que sim) em baladas. A Abril serviu pra ver que jornots bebem. E bebem por bosta!

Depois começaram a vir os seminários. E a invenção do CAJU! Grandes reuniões jornoteanas regadas de...bom humor! Se o primeiro não teve lá grande número de participantes, foi no segundo –a festa do shiu!- que começou a aproximação de verdade desses malucos da noite ecana. E começou a lenda de que sempre haverá uma vítima nas nossas confraternizações.

Agora o tão falado JUCA. Ah, esse mereceria um post exclusivo. Aliás, mereceu (vê lá embaixo tudo que eu fui capaz de contar sobre nós em guará). Numa escola primária em Guaratinguetá, jornots08 encontraram a intimidade. Tão temida para alguns, tão querida para outros. Canecas cheias, gols vazios (ah, gente, sejamos realistas, mas os jogos que eu vi, a gente só perdia!), gritos de guerra. Desde a farofada do ônibus, esses bixos do jornot deram o que falar. E deixaram muitos com vontade de fazer parte dessa sala assaz animada - isso eu tenho certeza!

Juca pra lá, Juca pra cá...e mais uma Festeca. Engraçado é que ela foi no meio, mas acabou ficando sem meio. Importante é saber que em Guaratinguetá, as pessoas se revelaram. Personalidades incríveis surgiram (Zé Cipeno? Hélio? Duran? Chileno do Cambodja seu buRRRo?), músicas sensacionais embalaram (je vé bocu de gatos!), e até uma tentativa de OJE rolou!

Só sei que voltamos daquele País das Maravilhas para o encontro de uma semaninha básica de descanso – sim, dormir era preciso. E comer direito também. Só não sabíamos que depois do (pseudo)Congresso, viriam provas, e mais seminários. Foi aí que o pessoal começou a pensar que seria bom ler alguma ou outra coisa relacionada às matéria...ou não. Milhares de reuniões, fédivé, fédivé e mais, fédivé! Apresentações. E festa junina, quintas & brejas, cajunina...

O certo é que nesse semestre, que passou voando – e diz a lenda que a partir daí cada um é mais rápido que o outro -, ouvimos milhares de sotaques diferentes, encontramos em uma só sala pessoas incríveis, percebemos o quê de doido que existe em todos os jornots e mais, como bons futuros jornalistas, nos perguntamos (e as respostas serão, eternamente, buscadas):

“O que é história?”

“Até que ponto, de fato, nos comunicamos?”

“História: uma construção do historiador?”

“Quem será próxima vítima jornoteana?”

“Será um dom meu riscar dvdzinhos?”

e mais,

“Como pode, em apenas um semestre, a gente se identificar tanto com esse povo louco?”

Isso, nem Freud explica. (E bote Freud nesses meses!)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Estação


Atenção, atenção!

O trem já vai partir. Por favor, passageiros, dirijam-se todos para a Estação K-torze B (porque nós não gostamos de números - eles são frios e impessoais). Peguem suas malas, e deixem-nas em um lugar onde elas não irão atrapalhá-los. Crianças de colo devem aprender a andar e a cantar para deixarem de chorar.

Será servido rabanete com repolho àquelas que bem se comportarem - isso inclui risadinhas simpáticas, mesmo em momentos de agonia. Nosso serviço de bordo inclui, apenas para os adultos, suco de berinjela e tremoço ralado.

Corram, corram - que o tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bameirindus continua numa boa. Peguem seu Dramin porque essa viagem promete: balançará vagões e corações. Em tempos de cego, quem tem um olho é caolho. Peço, então, para que não se afobem - há lugar para todos (ainda que seja junto às bagagens, às palhas e às madeiras que virarão carvão...não, vocês não virarão carvão - nem e fossem o Pinóquio, tranquilos, passageiros! Pelo menos por enquanto, eu garanto).

Vamos embora - olha a hora! Quem chegar por último é a mulher do sapo ou o homem da sapa (e vocês sabem que eles não costumam ser muito fiéis). Ou, também, pode ser a mulher do padre (leia-se: mula-sem-cabeça). Notem o machismo mundano que ameaça duplamente as mulheres atrasadas!! Não reclamem, meninas: sejam homens e engulam o choro. Eu disse pra engolirem o choro!

É tempo de rosas azuis e céus vermelhos. Ou melhor, não é tempo. Vamos logo, cresçam logo, peguem o trem - não vou dizer que é da vida, para não soltar um clichê, não tenho tempo para clichês!- que já está partindo!

sábado, 28 de junho de 2008

Aleatórios


(I)
dançou
girou
caiu
riu
!!
!

(II)
O chocolate com um nome impressionantemente condizente é o bis.
Impossível comer um só.
Espera. É chocolate ou salgadinho?


(III)

Tal mãe, tal filha

-Filha, você é muito teimosa.
-Eu não sou teimosa, não.
-É sim.
-Não sou!
-É.
-Não sou coisíssima nenhuma!

-Quantas vezes eu vou ter que dizer que você é sim?
-Mas eu não sou! Você que é muito repetitiva!
-Eu? Não! Você que é teimosa!
-Que droga, eu não sou teimosa! Você fica falando mil vezes a mesma coisa. E ainda fala coisa que eu não sou.
-Você é SIM, teimosa.
-Não sou. Repetitiva.
-Teimosa.
-Teimosa, não! Já disse!
-Teimosa e repetiviva.
-Você!
-Não, você.
-Você.
-Nós?
-Não, não e não. Eu não sou teimosa.
-Quantas vezes eu vou ter que repetir?
-Viu! Você que é repetitiva!
-Mas que teimosia!
-Que repetição...

domingo, 22 de junho de 2008

Tinta de Limão


Querido amigo secreto (e não digo aqueles que mudam a cada fim de ano e surgem nomeados em um papelzinho) que você sabe muito bem quem é,

Tenho uma coisa muito importante pra falar pra você. Acho que você sabe como funciona a nossa tática secreta de palavras invisíveis. Acho não. Tenho certeza. Você é tão inteligente quanto o Napoleão, papagaio da nossa vizinha que sabe cantar o hino da frança de trás pra frente e de frente pra trás. Sabia que outro dia eu o vi ensaiando o hino nacional? Mas ele se enroscou naquela parte...ai, agora eu não sei se era a parte de que de amor e esperança à terra desce ou se foi na do lábaro espelhado, ou estrelado, e do verde-louro da flâmula. O que é flâmula? Parece o nome de uma flor de pássaro. Ah, aquela parte com palavras difíceis que todo mundo finge que canta, mas ninguém consegue. Sabe? Eu até ia ajudar o coitadinho, mas como você viu, eu também não sei, então achei melhor ficar quieta.

Mas então, silêncio, hein. Ninguém deve saber do que eu vou te contar. É um segredo nosso. Entre mim e você. (olha como eu sou sabedora de falar direito o português! Você prestou atenção que a tia Andréia ensinou que as coisas só podem acontecer entre mim e não entre eu, né?).

Continuando. É mais um segredo - e esse não envolve as nossas descobertas no jardim do Alfredo e muito menos nossas conversas de fim de tarde. Também não envolve aquele vaso da sua vovó que eu quebrei sem querer. Quer dizer, eu te contei do vaso da sua vó Florência? Acho que não. Ah, tudo bem, agora você já está sabendo. E eu peço mil desculpas, porque naquele dia meu coração também ficou em caquinhos e nem deu pra colar com superbonder. Em compensação, eu colei meu dedinho. Lembra? Por isso que eu tava mexendo na cola. Você não percebeu?

Tá. Vão achar que é só uma folha em branco. Uma folha em branco, mas com palavras ácidas escritas especialmente para você. Você, que entende e gosta desse gosto cítrico (cítrico era o que tava dizendo a tv sobre aquele coiso de limão, acho que era o chiclete... e como minha tinta é de limão é também cítrico). Você, que ao contrário de mim, prefere as balas do mentos que são amarelas (e me adoça com todas as rosas).

Antes que eu tenha que cortar outros limãos (ou é limões?), deixe-me dizer logo o que eu vim contar para você. E acabar com essa enrolação. Se bem que eu acho que essa enrolação serve mais para me preparar. Porque eu tenho que tomar fôlego e suco de tangerina com bastante açúcar para isso. É o seguinte. Eu vou falar.

Lembra daquele dia que você estava brincando com o Zé, o filho da dona Lúcia, e o Luísinho? E eu estava com a Bi, a Má, a Lá, a Ká, a Patinha, a Rafa, a Déia e a Ju? E todas nós estávamos pulando amarelinha e corda e cuidando das nossas filhas? Aquele dia que a Má chorou porque a boneca dela tinha caído na lama e sujado o vestidinho, lembra? Aí a Rafa foi lá e brigou com ela porque disse que ela não podia chorar pra não assustar a filha dela? E eu nem sabia o que falar, nem o que fazer porque era um vestido novo o da filha da Má? Aí eu voltei e fui embora e fui pra casa e saí de lá?

Eu até te contei essa história. Lembra? Então.


Ai. Eu falo ou não? Vou falar porque tá acabando o suco e se minha mãe perceber que eu acabei com a limonada ela vai reclamar um montão e eu disse que eu ia falar uma coisa muito importante pra você e que era um segredo. E eu confio em você até que bastante.

Pois é. Naquele dia, eu acho que eu percebi, que eu prefiro muito mais de verdade brincar com você do que com elas. Pronto. Falei. Era isso.

Ass.: Euzinha

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Podre Perfumado


O mundo ao avesso expõe suas vísceras banhadas de sangue. Crianças desaparecem - roubadas, mortas, subnutridas. A infância evapora na tentativa prematura de fazer com que existam pequenos adultos, trabalhando, cobrindo rostos pueris com maquiagens ou pés número 28 com grandes sapatos que lembram a figura de um palhaço.

O circo pega fogo e não há bombeiros decentes capazes de apagá-lo: estão todos deitados, dormindo, embriagados com copos na mão frouxa. Copos que caem, e em cacos cortam os pés do menino malabarista do farol.

A política diz ser feita – mãos gordurosas sedentas pelo poder a comandam. Mãos corruptas capazes de, em uma dança hipócrita e repugnante, aclamar ao povo como são boas. Acariciam almas perdidas na sujeira debaixo dos viadutos.

A bala abruptamente rompe o silêncio. Rasga vidas e famílias. Famílias, aliás, inexistentes, pseudofamílias – fachadas sem comunicação. Pessoas não mais conversam, são isoladas individualmente em gaiolas de medos, obsessões, transtornos, pílulas, crenças individualistas, aparelhos de academias, bisturis e pinças.

O riso nervoso se confunde com a música gritante do caos das buzinas. O cheiro fedido do rio é como suco de cadáver da notícia dada no jornal popular (fédivé!). Vincos são formados em rostos aflitos. Rostos nervosos. Rabugentos, jovens tornam-se velhos. Esquecidos, velhos voltam a ser crianças. Crianças, estas, adultas. E os adultos, perdidos, orquestram a desordem.

Amigos não mais se encontram. Corações são dilacerados. Sonhos, rasgados e almas, comprimidas em vidrinhos etiquetados e, não podemos nos esquecer!, com códigos de barra. Ilusões viram loucuras. Relógios tictateiam. Mentes são ocupadas com preocupações. Pontos de interrogação terminam todas as frases.

Em meio a tudo isso, somos capazes de, com gosto, dizer como a vida é bela. Como ainda há esperança. Afirmar que nem tudo está acabado. Levantamos para mais um dia. Sorrimos ao sentir o cheiro do café prontinho. Abraçamos os conhecidos. Pedimos pizzas de frango com catupiry e programamos o carnaval. Reclamamos da pasta de dente que não foi fechada. Trocamos lâmpadas e fazemos disto uma aventura. Vivemos, vivemos, e vivemos. Como?


O que aconteceria...


se o anel de vidro que tu me destes não tivesse se quebrado?
se o gato em que você atirou o pau tivesse morrido?
se o boi tivesse pegado aquela menina que tem medo de careta?
se o pequeno bote dos indiozinhos tivesse virado?
se samba-lelê não tivesse a cadeira quebrada?
se o senhor capitão não tivesse um ginete na mão?
se papai não tivesse ido à roça; nem mamãe, trabalhar?
se a batatinha quando nascesse não tivesse se esparramado pelo chão?
se a borboletinha não soubesse fazer chocolate?
se o balão tivesse, sim, caído na minha mão?
se o coelhinho da páscoa fosse daltônico?

se o Doug não tivesse um diário, o Harry Potter um raio na testa, o Nino mais de 300 anos, o Arnold uma cabeça de bigorda e o Bob um triciclo?
se o cachorro de Tintin fosse um poodle?
se o Pernalonga não falasse "O que há, velhinho?"?
se as Tartarugas Ninjas enjoassem de pizza (ou se o Scooby Doo enjoasse daqueles biscoitinhos)?
se o Beackman (ou o Dexter) fosse um cozinheiro?
se o Pica-Pau não risse de forma engraçada?
se a Magali engordasse ou se o Cascão tomasse banho?
se a amiga da Ginger não fosse fanha?
se os produtos ACME não falhassem?

se a Branca de Neve não gostasse de maçã?
se o Pinóquio fosse feito de plástico?
se o Dumbo comesse tanto que não conseguisse se suportar?
se o sapato da Cinderela estivesse tão apertado e não caísse nunca?
se a Alice tivesse seguido um cachorro marrom e não o coelho branco?
se o Peter Pan não tivesse perdido sua sombra?
se a Ariel quisesse ser um peixe?
se o Alladin não tivesse esfregado a lâmpada?
se o Mufasa pudesse voar?
se o Kuzco virasse um esquilo, e não uma lhama?
se o pai do Nemo não o encontrasse?

[resposta: minha infância teria sido, no mínimo, diferente. E a sua?]

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Drive-Thru

(I)
-Um quarteirão, por favor.

-Para beber?

-Suco de maracujá.

-Algo para acompanhamento?

-Um amor de verdade que não ronque a noite; saiba cantar (pode ser no chuveiro); dance sem preconceitos; seja engraçado (mas não bobo); possua inteligência e saiba usá-la; não reclame de coisas à toa; cozinhe tão bem quanto a minha avó; fique bem humorado mesmo ao acordar cedo; abrace-me com freqüência (mas sem que eu tenha que pedir); goste de discos e livros; sonhe em dar a volta ao mundo; queira conhecer Bangladesh; tenha diploma universitário, carteira de motorista, dentes brancos de não-fumante, um filhote de labrador como bicho de estimação e uma família cheia de primos; goste de andar na praia com os pés na beira do mar; entenda minha TPM; brinque com as crianças do vizinho, mas não me troque por um video-game; passe sua própria roupa e que abaixe a tampa da privada.

-Desculpe moça, mas aqui é só o McDonald´s.

Saiu desiludida e besta com o que acabara de falar. Claro que aquilo era só o McDonald´s. O máximo que eles poderiam oferecer era um palhaço ridículo de cabelo vermelho e roupas amarelas. Pegou seu pacote, pagou, e resolveu ir para casa naquela noite vazia.


(II)
-Me vê um big mac.

-O número 1?

-Não, só com uma coca grande.

-Mas e para acompanhar?

-Alguém que não tenha dores de cabeça freqüente; faça caminhadas e trilhas; possua uma família não muito grande (incluindo tias não muito chatas e mãe agradabilíssima); goste de viajar; acampe sem medo de mosquitos; assuma suas responsabilidades; sinta ciúmes ao me ver com a secretária; entenda meu futebol às 4as e aos sábados; aprecie um churrasco; beba cerveja bem gelada; não peça só salada nos restaurantes; leia livros que não sejam de auto-ajuda; escute uma boa música junto com um vinho; faça macarrão que nem a minha mãe; trabalhe -mas nem tanto; tenha senso de direção, decote, simacol, mãos delicadas, meiguice, sorrisos pela manhã, bunda, sensatez; e não tenha muita vergonha, monólogos agudos, falas óbvias e fúteis ou grande compulsão por comprar; goste de nadar no mar sem pensar em tubarões; assine um jornal; beba café; não seja escandalosa a toa e que não pendure a calcinha no chuveiro.

-Senhor, aqui é só o McDonald´s...

Ele sabia. Sabia que era só o McDonald´s e se irritava com a obviedade que a atendente acabara de falar. Po, era só um desabafo. Até quando as pessoas não entenderiam as ironias? Até quando as perguntas mal feitas deveriam ter respostas diretas? Ela perguntou o que ele queria para acompanhar e ele disse. Ponto. Decidiu que melhor seria voltar para casa. E passar a pilha de roupa que o aguardava.

(III)

Entraram no hall e perceberam que os dois carregavam o mesmo pacote do McDonald´s. Olharam um para o outro. Deram um sorriso tímido. Era uma sexta feira sem graça, daquelas em que os amigos esquecem de combinar algo para se fazer depois do incessante dia de trabalho. Talvez por causa da correria da semana, dos inúmeros projetos, textos, deveres a serem entregues. Talvez por que os astros entraram em acordo para que fosse o dia-de-ficar-em-casa-vendo-tv-e-comendo-mcdonalds.

Ela começou a procurar sua chave na imensidão de sua bolsa sem fundo. Ele parou para observar. Nunca tinham se falado – caso haviam, os diálogos, provavelmente, não passavam do educado “bom dia, boa noite” ou da conversa-tema de elevador: “é, parece que vai esfriar”, “calor, né”, “ih, vai chover...”.

-Quer ajuda?

-Não, não...já estou quase conseguindo achar a chave...ah, está aqui.

-Você gosta de acampar? –perguntou ao notar que o chaveiro da moça era um pequeno canivete suíço.

-Gosto, quer dizer, gostava, sempre ia quando era mais jovem, adoro viajar. Por mim conheceria o mundo só com uma mochila nas costas.

-Iria até para Bangladesh?

-Lógico! Sempre quis ir pra Bangladesh. Nossa, por que você falou em Bangladesh?

-Que engraçado, eu não sei porquê, mas também gostaria de ir para lá. Estranho. Achei que fosse o único.

-Ahm...Sabe de uma coisa, você está com vontade mesmo de comer esse seu sanduíche-de-gordura-trans? Assim, porque pensando bem, eu agora perdi a vontade do meu quarteirão...queria fazer um macarrão. Tenho uma receita muito boa, aliás, eu cozinho bem...se você quisesse, a gente..

-Eu..eu tenho uma garrafa de vinho lá em casa, nós poderíamos também beber...

-Se você preferir, pode ser na sua casa. Quer dizer, eu pego os ingredientes aqui e levo.

-Eu tenho algumas coisas também, eu gosto de cozinhar. Provavelmente você não precisa de nenhum ingrediente muito raro, alguma especiaria da índia da época de Cabral, ou algo do gênero, precisa?

-Não, não. Se bem que, é melhor ser em casa mesmo. Depois suas panelas vão ficar sujas, e...ah, essa não é minha intenção.

- Você é que sabe. Na sua casa ou na minha?

Eles pararam por um instante. Olharam-se novamente. Riram. E decidiram.

Engraçado como os caminhos se cruzam, como coincidências acontecem e como situações inesperadas podem alegrar uma semana que caíra na rotina. Engraçado como um momento qualquer pode definir os dias seguintes. Ela descobriu alguém que abaixava a tampa da privada. Ele, alguém que não pendurava as calcinhas no chuveiro. E os dois, algo que nunca haviam descoberto.

Classificados

  • Vendo sonho de valsa; sonho de bolero; sonho de MPB; sonho de tango; sonho de bossa nova; sonho de forró universitário; sonho de rock alternativo e sonho de reggae.

  • Troco figurinhas do álbum da Copa do Mundo de 98 por brownies com nozes da Carol.

  • Rifo cafunés -baratinho!

  • Alugo um dia de companhia num gramado ensolarado. Preço/forma de pagamento a combinar.

  • Relíquia! Chifre de unicórnio encontrado em praia brasileira em 1996. Preço incrível!

  • Troco um dia de chuva sem graça por um dia de sol com graça.

  • Adoto pessoas carentes e revoltadas.

  • Procuro noite de sono sem roncos escandalosos. Recompensa-se!

  • Compro baboseiras, quinquilharias, máquinas de coca-cola quente e sem gás, churrasqueiras sem fumaça, amores perdidos, cachorros de agosto, etc.
[e você?]

domingo, 8 de junho de 2008

Futuro



Sem carros:
o mundo seria menos poluído;
o trânsito seria menor;
o petróleo viraria mais plástico;
as ruas seriam menos pratas e pretas.

Sem roupas:
as estilistas seriam extintas;
as praias seriam todas de nudismo;
as vitrines seriam só vidro;
o frio seria mais forte;

a pergunta mais solidária -ou a cantada mais manjada- seria:
"quer vir na minha garupa?"
já a dúvida mais cruel:
"caso ou compro uma bicicleta?"
(porque bicicletas estariam tão em alta que seriam o único sonho de consumo do mundo.)

bicicletas verdes, rosas, amarelas, azuis, pretas, brancas, prateadas.
com marcha, sem marcha.
até chegar ao modelo com escapamento, movido a gasolina e que viesse com roupa especial para o ciclismo.
e tudo voltaria como está.

[passeata em Madrid, ocorrida hoje, sábado -porque eu ainda não dormi então não é domingo-, contra o seqüestro das ruas pelos carros e a favor da recuperação do espaço urbano pelas pessoas.]

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Utilidades

Jornal:

-para fazer o chapéu em dia de pirata.
-para embrulhar copos em dia de mudança.
-para deixar as mãos sujas em dia de banho.
-para forrar o chão em dia de pintar as paredes.
-para acompanhar um solitário em dia de café-da-manhã com tempo.
-para ler os grandes acontecimentos em dia que nada mais aconteceu.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Juca

Deu vontade de gritar bem alto com a voz rouca e perceber como só saía a alegria.

De Repente

Vamos sair por aí.
Apostar uma corrida.
Dançar ridiculamente.
Rir do desnecessário.

Rolar numa grama verdinha.
Pular de um muro bem alto.
Andar na guia sem cair.
Levitar sem sair do chão.

Cantar sem saber a letra.
Sorrir para um estranho.
Abraçar uma velhinha.
Brincar com uma criança.

Tomar um sorvete de pistache.
Beber licor de contos de fadas.
Lembrar da vida engraçada.
Inventar um mundo novo.

Fingir estar de férias.
Imitar os vários sotaques.
Surfar no ônibus vazio.
Entender um quadro surrealista.

Ver nas nuvens desenhos.
Pintar a cara com guache.
Desenhar no vapor do banho.
Colorir com lápis bem apontados.

Balançar as pernas na gangorra.
Dar cambalhota três vezes.
Apertar bem forte as mãos.
Tentar dar uma estrela.

Começar por “Era uma vez”
Apostar que a eternidade existe.
Sentir o sol bater no rosto.
Ouvir o vento recitar poesias.

Tudo isso sem se cansar.

Vamos?

terça-feira, 20 de maio de 2008

Erros Certos (ou Certos Erros)


- Por que você não toma vergonha na cara?

- Como assim?

- É isso mesmo. Vergonha na cara.

- O que foi que eu fiz dessa vez?

- Dessa vez? Dessa vez e sempre. Viu só como você sabe que sempre faz coisa desse tipo? Até falou o "dessa vez". Ou seja, além de tudo você reconhece seu erro e continua repetindo-o.

- Erro? Que erro?

- Esse que é o maior problema. Errar é humano, não é isso que dizem? Agora, errar eternamente, aí não, pelamordedeus, aí é por que tem algum problema. E não é só um erro. Antes fosse. São vários. Todo dia. Sempre. Não dá tempo nem para desculpar que já vêm outros. Não, eu não aguento. Sabe o que é chegar em casa cansada depois de um dia estressante de trabalho, com aquele chefe infernal reclamando na sua orelha, o café frio em cima da mesa, por que você sabe, né?

- O quê?

- O café! Que o café esfria e eu não tenho nem tempo para buscar outro. Quer dizer, eu não tenho nem tempo de tomar o café, senão ele não ficaria frio. Mas é claro que você sabia. Eu já tinha comentado sobre isso. Tá vendo como você não me escuta?! Eu falei!

- Mas você não tinha coment...

-...E ainda tem a coragem de dizer que EU não tinha comentado?! Você não tem jeito mesmo. Eu bem que devia ter escutado a sua mãe. Aliás, você ligou pra ela? Provavelmente não, coitada. Graças a deus que eu não tenho um filho igual a você. Se bem que nem filho eu tenho. Sabia que a Glorinha teve uma menina?

- Não..

- Não? Sabia sim! Pode falar, é claro que sabia. E deve ter sido o primeiro a ficar sabendo. Ou você não joga mais futebol com o Rogério? Não acredito. Não posso nem imaginar em uma hipótese dessa. Por acaso você está me enganando? Dizendo que vai jogar uma pelada...Ah! Agora eu entendi sobre a pelada de quarta. Não, não pode ser. Diz que não é verdade. Descaradamente! E eu, com minha boa vontade, apoiando sua vida menos sedentária! Não, não é possível. Quem é a desgraçada?! O que eu fiz pra merecer isso? Por quê? Qual é meu problema?

- Nenhum...

- Então por que você me deixa aqui sozinha vendo aquela droga de novela nas quartas pra sair com outra?!

- Mas que outra?!

- Aquela. Como que outra?! Você mesmo admitiu que não vai jogar futebol com seus amigos durante às quartas, então pra onde você vai? Visitar alguma creche, asilo? Fazer trabalho voluntário?

- Não, a gente joga sim. Você não tinha comentado que eu até estava com mais fôlego, com menos barriga...

- Isso não se consegue só com umas partidinhas de futebol! E fôlego..não pode ser! Então é verdade!

- É sim.

- É SIM? Você está saindo com uma lambisgóia e me trocando?!

- Não! É verdade que depois do trabalho, eu vou jogar bola.

- Que bola?

- Futebol! Que coisa! Deixa de ser paranóica, eu não estou saindo com ninguém!

- Como não? E você joga sozinho, então?

- Não se faça de desentendida.

- Você que está agindo como se não soubesse de nada.

- O que eu deveria saber?

- Tudo.

- Tudo? Impossível saber tudo. Ninguém sabe de tudo.

- Pelo menos as coisas que eu falo! Você deveria me escutar mais, e não fingir que está escutando.

- Eu escuto!

- Não! Você não ouve e parece que eu estou falando com as paredes. Aliás, até as paredes me entendem mais do que você. Falando nisso, você não disse que ia pintar nossa casa?

- Nossa?

- Ai, essa casa. Pronto, melhor assim? Sem responsabilidades que o "nossa" carrega? Viu como você é infantil? Então, como eu tinha dito, a filha da Glorinha, a Gabriela...mas que mania de colocar filho com a mesma letra da mãe. Quero ver quando ela tiver outros. Vai chegar num ponto que nem nome vai existir mais com a letra G. Se bem que ela não vai ter mais filhos. Nem sei como conseguiu ter essa menina...você não acha?

- Acho o quê?

- Da Glorinha! Que ela não ia ter filhos. Mas você não presta atenção em nada mesmo, viu. Pois eu pensei que nem fosse ter. A gente tem que ir um dia lá no hospital.

- Hospital? Por quê? Alguém está doente?

- Pra visitar a Glorinha! Ou você acha que ela vai ficar lá pra sempre? Se bem que poderia. É errado falar mal das pessoas, mas aquela mulher, ah, ela merece. Onde já se viu? Tratar o marido daquele jeito, eu, hein. Quer dizer, eles se casaram?

- O Rogério e a Glorinha? Acho que sim.

- Quando? E nem nos chamaram? Como que eles tiveram a coragem de não nos chamar? Deve ter tido uma festa e tanto, a família dela parece que é rica, não é? Mas quando foi esse casamento? A gente estava aqui em São Paulo? Ou foi em algum feriado em que a gente teve que visitar sua família naquela roça desgraçada? Deve ter sido em maio. Maio tem o quê? Dia do Trabalho, Corpus Christi...não, ela não ia se casar em nenhum feriado. Por que a gente não foi?

- Acho que não teve festa..

- Como não? Acha que não ia ter?! Ia sim! Só pra ela ter que jogar o buquê na cara das solteironas. E a Vanessa! Eu não te contei!

- O que aconteceu?

- Encalhada. De novo. O problema é que aí ela afunda no chocolate e fica feito uma baleia. Uma baleia encalhada.

- Não fala assim da sua amiga...

- Não, mas é verdade. Ai, o que tá acontecendo comigo? Tem razão, ela não merece esse tratamento. Mas eu falo pra ela que não é assim que ela vai conseguir ser feliz...Por que eu ando desse jeito?! O que foi que eu fiz? Ela sempre foi tão boazinha comigo. Sempre me ajudou. Que nem aquele dia em que, pera, não foi ela que nos apresentou? Num era aniversário do irmão dela? Como é o nome dele mesmo? Não importa. Viu só, ela sempre foi uma amiga excepcional.

- Já que você pôde me conhecer?

- Não! Você só pensa em você! É "eu, eu, eu" o tempo todo. Onde foi que eu errei?

- Você errou? Não tinha sido eu o erro personificado?

- Tinha. Quer dizer, é! Ah! Ou somos dois? Dois erros perambulando por essa vida.

- Meu erro é você.

- Não. Você é meu erro.

E não tomaram vergonha na cara, na alma, no choro ou no riso. Continuaram se amando.

[assim como eu não tomei e continuarei nessa falta de overdose palavreira]

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Pequenices

(I)

Olhou bem para a mãe, que se perdia em meio a tantos pensamentos enquanto cozinhava o arroz. A cadeira, gigante, a esperava. Empurrou o mostrengo para perto do interfone e começo a escalá-lo.

-Num vai cair...

Não deu ouvidos. Como todas as crianças, ela não precisava se preocupar com o fato de se machucar, não tinha motivos para previnir-se -ainda era tão pequena que se curaria em instantes de qualquer coisa. Colocou o joelho na cadeira, puxou seu corpo com os braços para que a outra perna alcançasse a mesma posição deste e subiu. Finalmente. Do alto, avistou sua mãe. Quase podia enxergar como ela enxergava. Quase não, porque ainda faltavam uns bons decímetros, mas os 50cm de cadeira já eram um avanço.

-Cuidado, filha...

Não desceu. Ainda não havia atingido sua meta: o interfone. Estendeu os braços. Ficou na ponta dos pés. A cadeira andou, fazendo um ruído horrososo, agudos, daqueles que fazem quando são arrastadas nos chãos das cozinhas. Segurou-se no aparelho. Cambaleou.

-Desce daí! Não quero ter que levar filha minha pro hospital! Querida, vem pra cá, vem, fica aqui pertinho.

A mãe largou a panela, observar só não adiantava, tinha que agir. Viu que ela tirara o interfone do gancho. Parou.

-Por favor, você poderia ligar para o 192?

Seus olhos se encheram de lágrimas. Sua filha, pela primeira vez, ligando para a amiga. Interfonando para a vizinha. Por livre e espontânea vontade. Sozinha. Sem a ajuda de ninguém. E tinha apenas 2 anos. 2 anos!? Esqueceu-se dos machucados, da filha chorando no chão caso caísse, dos excessivos cuidados de mãe coruja. Era sua bonequinha, agindo como uma mocinha, atingindo seus objetivos, e deixando-a orgulhosa. Toda a preocupação tranformara-se em satisfação. Em apenas alguns segundos.

-Mãe, ela vai vir pra cá. Me ajuda a descer? -disse, estendendo os braços.

Recebeu mais: um abraço.

(II)

-Não tiro.

-Tira sim, vai. Você já está grandinha. Já está mais do que na hora de largar essa chupeta. Pelo menos para dormir. Me dá.

-Ah mãe, eu durmo sim com a minha chupeta. Você só pede pra que eu tire porque não sabe o que é dormir sozinha. Você tem o papai para te acompanhar. Eu tenho a minha chupeta.

E continuou acompanhada por um bom tempo.

(III)

-Em boca fechada não entra mosca.

-E também não entra chocolate!

[melhor do que ouvir histórias é saber que você era a personagem.]

quinta-feira, 20 de março de 2008

Geléia

Era um dia comum, de uma semana comum, de um mês mais comum ainda. Trabalhos, projetos, inúmeras responsabilidades a atordoava enquanto andava em direção à faculdade. Por sorte, a rotina colocara em seu caminho uma loja de animais, de onde algo a chamava. Eram batidas atormentadas no vidro da vitrine, escandalosas. Latidos que mais pareciam súplicas, pedidos de socorro. Ou melhor, eram eufóricos como se houvesse encontrado algo que perdera há tempo.

Sem hesitar, ela parou em frente à loja. O animal acalmou-se, e agora parecia chamá-la: "Entre! Esperei tanto por esse dia!". Foi o que fez. Minutos depois viu-se com a cadelinha nos braços, depois de muitos pulos de alegrias vindos desta.

-Ela é sempre assim?

-Não! Só com a senhora!

-Ela dormiu?

-Parece que sim...

Dormia. A cachorrinha, de olhos fechados, descansava serenamente em seu ombro. Como um bebê, uma criança no colo da mãe.

-Eu vou para a aula, tem como buscá-la depois?

-Claro.

[não sei se o "não! só com a senhora!" foi pura conversa de vendedora -e de boa vendedora-, ou era algo do além, aquelas coisas que dizem ser 'de outra vida']

-Filho! Uma cachorrinha!

Ele não acreditava. Esperava a mãe voltar da aula para pedir a ela que o levasse à casa de um amiguinho, para jogar video game. Agora não precisaria mais.

-Nossa, mãe! Ela faz o quê? Late?

-Late, late, sim! Foi ela que me encontrou, que me chamou!

-Sério? Mas mãe, ela tá tão quieta...

Embaixo dos armários da área de serviço, entre a parede e a geladeira, em cima do criado-mudo, não importava. A cadelinha se acomodava em qualquer lugar e lá ficara durante horas, horas..Não brincava, e muito menos se alegrava para passear. Ela permanecia eternamente "tão quieta".

-Problema no coração. -afirmou o veterinário.

Dias se passaram, e as férias chegaram. Nelas, a obrigação de "forçar o cachorro a passear" foi eliminada. Sem isso a cachorrinha ficava em casa, nos cantos, e só levantava para comer.

Comia, comia..foi engordando.

-Será que ela não tá prenha?

E engordava. Quando deitava, parecia uma geléia. Mal andava. O menino esquecera dela logo, preferia os amigos e os video games.

-O coração?

Continuava batendo, e lembrando do primeiro dia em que viu sua futura dona. Batendo, batendo. Fazendo com que toda sua energia fosse para seu pulsar. Batendo, batendo.

[me contaram hoje essa história, da Teka que tá-gorda-feito-uma-geléia.]

segunda-feira, 17 de março de 2008

Reviravolta


Eu que pensei que nunca mais teria um blog, enganei-me. Nunca mais seria muito tempo de afastamento. Escrever foi um vício. E ainda é. Palavras sempre correram por meu sangue e aqui, finalmente, encontrarão um meio para serem engarrafadas em pequenos vidros, dispostos organizadamente na prateleira dos dias.

Tome com cuidado, mas sem medo. Caso exagere, não me culpe! Foi por livre e espontânea vontade.


Aproveite, deguste e delicie-se com a doçura -ou acidez- dessas doses de palavras.