quinta-feira, 16 de abril de 2009

Televisãozão

Era a primeira vez que seria levada ao cinema. Apesar da insistência, sua mãe sabia que seria impossível lidar com a impaciência da menina, de apenas 2 anos, durante uma hora ou mais de filme. Adiou ao máximo para que este dia chegasse, mas não conseguiu.

Pular durante a sessão, sair gritando comentários do filme, assustar-se, derrubar toda pipoca - estas seriam apenas algumas das reações possíveis imaginadas pela mãe, que com certeza, se concretizariam caso a levasse para ver um filme antes que fosse lançado em VHS (naquela época não havia DVD). Não se concretizaram.

O filme era Alladin. As luzes se apagaram. A tela, enorme, já havia sido alvo de espanto para a menina. Os trailers começaram.

Ela se levantou, esticou seus braços ao máximo, como se quisesse abraçar o retângulo branco a sua frente, e disse:

- Nossa! Que televisãozão!

Depois sentou-se, e, calada, assistiu ao seu primeiro - de muitos - filme na telona. Comportadíssima e espantada com a magia do cinema.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Condenado

Estava destinado a ter um cachorro Cocker sem graça, uma mulher que mimasse o cachorro Cocker sem graça, uma filha com aparelho nos dentes viciada em video-game que também mimasse o cachorro sem graça. (E ninguém que o mimasse - apenas que pedisse para ele também mimar o cachorro Cocker sem graça)

Ia acordar às 6h, todos os dias, bater cartão como funcionário de uma repartição pública, tomar cafezinho todas as tardes na copa. Cumprimentar o porteiro, voltar para casa, levar o cachorro para passear e dar mais jogos para a filha. Visitar a sogra aos domingos, comer a mesma macarronada com frango, ler o jornal de vez em quando e assistir ao Fantástico.

Antes, jovem que era, sonhava com um mundo de possibilidades. Agora, com cabelos grisalhos a surgirem e o maldito Cocker a latir, não entendia no que errara - mas sabia que as possibilidades não eram bem possibilidades, afinal, a escolha seria única e o que se escolheu já era previsto.

Poderia ter aceitado a mudança de país logo num de seus primeiros empregos. Não quis. A mulher o convencera de que não se adaptaria e já estava na hora de ter algo sólido onde sempre vivera. Mudar de país acarretaria um novo começo de vida e se fosse para ter um novo começo de vida que fosse colocando uma menina no mundo.

Poderia ter bebido mais em encontros com os amigos - deixara de entender muitas piadas, foi sério demais. Aliás, levara a vida muito a sério com sua água tônica. Em compensação, não tivera problemas no fígado como alguns de seus companheiros. Nem problemas no casamento.

Antes não sabia o que seria dele. Poderia saber, mas preferia optar pelo desconhecido. Não acreditava em destino. Agora, tinha a certeza de qual seria seu futuro.

Continuaria tendo que aguentar o cachorro maledeto, passear no parque com a filha depois de muita insistência de sua esposa, levar a menina ao dentista, comprar aquela bota de cano alto de presente de aniversário para a mulher, passar sempre no jornaleiro - folhear todas as revistas - e sair com o mesmo jornal, carimbar os processos que se acumulavam em sua mesa, e beber água tônica.

A certeza de saber o futuro transformou as peripécias do destino em algo tão óbvio que preferia, mas não admitia, ter a incerteza que sempre tivera.

Preferia, no fundo no fundo, poder jogar de lado toda aquela previsão do que a que estaria fadado - seja lá o que isso fosse. Era tarde. Estava condenado.

domingo, 5 de abril de 2009

Trilha Sonora

Quando o inverno chegar, eu quero estar junto a ti. Pode o outono voltar, eu quero estar junto a ti. Todo feliz, ele ia cantarolando Tim Maia no caminho de volta à casa. Depois de um dia de trabalho seguido por aulas, cansado, tinha que andar por várias ruas até chegar ao seu destino final. Não era problema. Tinha na melodia uma bela companhia.

Logo após entrar em sua rua, percebeu que a vizinha, desde o portão, exaltada, o chamava.

-Você soube do seu tio?

O menino, que tinha uns 15 anos, sabia bem do seu tio Eustáquio, de 39, internado, por problemas no fígado. Sempre bebera. Apesar de receber milhares de conselhos para que parasse com o vício, nunca dera ouvidos. Nem mesmo quando a doença se agravou: insistia na companhia etílica, enquanto desistia da companhia de dona Iracema - que mesmo depois de anos namorando, nunca conseguira convencê-lo de se casarem. Ele era teimoso, mas adorava o sobrinho. Ela esperançosa, e sempre comprava balas para o menino.

- O que aconteceu? - disse, enquanto pensava nos versos seguintes de Primavera.

- Morreu.

Assim mesmo, seca, soltou o acontecimento do dia que pairava sobre a vizinhança. A música parou. As imagens do tio, como em flashbacks, atingiram sua mente. Aquela música nunca mais seria a mesma.

Anos depois - muitos, diga-se de passagem - a voz do Tim Maia invadiu o carro que dirigia. Com sua filha ao lado, lembrou-se do episódio.

Engraçado como que músicas acompanham momentos de nossas vidas e marcam para sempre situações.

Não tem jeito. Algumas inexoravelmente estarão atreladas às passagens fortes em que foram ouvidas. Ou nem precisam ser passagens tão fortes assim.

Em um feriado chuvoso, na praia, lá estava eu - escrevendo. Não sozinha, acompanhada por uma grande amiga, e a letra de I Will Survive nunca mais foi a mesma. Um fim-de-semana no sítio e Pedra Letícia nunca mais será a mesma.

Até Maria Chiquinha me faz lembrar um certo karaokê de quando pequena. Nunca mais é a mesma. Claro que Dancin´Days lembra outro karaokê de quando mais grande - só que ainda pequena. Aliás, karaokês marcam noites e músicas. Cantar marca noites e músicas. Mesmo que cantemos tudo errado - e Dig-Dig-Joy sempre virá com um caubói.

Tem também as músicas que marcam épocas. Não vou falar da MPB e a ditadura. Não me marcou com tanta intensidade assim. Mas se ouvir Cartomante inevitavelmente lembrarei da minha mãe, emocionada, lembrando do tempo em que corria dos cavalos em plenas passeatas de São Paulo, lembrando das amizades que perdera para nunca mais.

Para mim, as épocas são mais singelas. Menores, claro. Mas não de menos importância. Mais fácil: época são fases. E das mais variadas, incluindo, sem ter porque esconder, bandinhas de punk-rock, micareteiros ou até Boate Azul. Não, meu passado não me condena. Apenas me faz rir. Isso é bom.

Há ainda as músicas que lembram pessoas. Marvin, por exemplo, para mim é um nome de peixinho laranja - e então a música me faz lembrar seu dono. Não tem jeito. Sem contar aquelas que se ouve ao lado de alguém. Ou de alguéns. Pronto. Ficarão marcadas.

Se alguém quiser dar uma serventia às músicas, com certeza é embaralhar nossas vidas à arte. Não é a toa que em filmes sempre há trilhas sonoras. Para que agora, confusa, eu diga que elas formam nossa trilha sonora miscelânica. Única e especial.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Minutos Divagados

Ouvi dizer que escrever em primeira pessoa é mais difícil e que a partir do momento em que se escreve em primeira pessoa, você estará apto para escrever em qualquer outra pessoa e sob qualquer outra fachada.

Para mim existe apenas a dificuldade de aceitar o que realmente se quer dizer e o de dar as caras para quaisquer que sejam as consequencias posteriores ao derramamento das palavras. Colocar em terceira pessoa facilita as horas depois. Evita a posição de culpado.

Quem disse foi ele, quem fez foi ele, ele que acha isso ou aquilo. Mesmo que ele seja um eu disfarçado. Discorrendo ainda sobre aquilo que escrevi no texto anterior (e isso me faz lembrar a prateleira dos dias em que estas doses estão organizadas), acredito que a mudança desses últimos dias se deram justamente a isso: a terceira pessoa resolveu não ser mais personagem.

O abandono do outro me faz parecer bem mais sem graça. Para quê ler aquilo que ela pensa e diz, assim mesmo - sem cuidado nenhum, na primeira pessoa?

Para deixar bem claro a fronteira da ficção. Ficção, esta, no entanto, que muitas vezes é bem verdade.

quarta-feira, 1 de abril de 2009