terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Leite Gelado

Ele era um menino feito de gelo. Sua aparência era normal, nada de ser pálido como os vampiros que andam tanto na moda. Nada de ser molhado como as sereias que estavam antigamente na moda (na moda dos marinheiros). Tinha o rosto como o de um moleque qualquer. Aliás, nem vou descrevê-lo porque você achará que o conhece de algum lugar, afinal, ele é igual ao seu irmão, seu vizinho ou até mesmo seu amigo. Ele pode ser igual a você. É! Cabelos e olhos castanhos. Você não é assim? Bom, ele é tão normal que acaba sendo igual ao menino por quem aquela menina se apaixonou. Igual também ao rapaz da banca de jornal, que sabe de mais notícias do que qualquer jornalista. Igual ao seu namorado.

Ele gosta de assistir futebol, adora ano de copa, não pára de falar besteira. Gosta de contar piada e contar quantos dias faltam para o carnaval. Pra falar a verdade, ele gosta de contar qualquer coisa: quantas pernas de moça têm no ônibus, quantas janelas têm no prédio, quantos semáforos têm na rua e histórias para boi dormir. Só não gosta das contas que estão a pagar. E de imposto. Mas isso também ninguém gosta.

Dançar ele dança, assim, de vez em quando. E quando dança, dança tão bem que desliza pelo salão. Desliza e sua. Sua gelado e não quente. Suas mãos são frias. Já perguntaram se ele não tinha algum problema de circulação - ele dizia que não, quem mal circulava era seu jornalzinho da Associação de Moradores do Bairro. Ia de casa em casa, só, visto apenas por uma ou outra senhora entediada.

Em seu país todas as pessoas eram normais, ou seja, loucas. Porque todos aqueles normais são assim por terem um quê de loucura. Mas não vamos falar disso, afinal, tem coisa bem mais importante do que discutir a insanidade: ele era de gelo!

Quando criança, ia à escolinha. Adorava. Odiava quando fazia muito sol e tinha aula de educação física. Ele derretia. Depois, cresceu um pouco e passou a ir a barzinhos. Adorava. Odiava quando via uma menina muito gata. Ele derretia.

Você acha que é fácil ser de gelo?

Algumas pessoas diziam que ele era sem coração. Nada disso. Ele tinha sim coração. Só que era gelado, oras - o que o fazia uma pessoa difícil de lidar. Outras reclamavam de sua transparência. Não tinha culpa. Tentava, mas não conseguia esconder o que achava. Ainda tinham aqueles que diziam que ele era difícil de segurar: não parava um minuto (na verdade, nessa categoria se enquadram mais "aquelas", no feminino, porque ele não parava com uma só).

Um dia viu uma menina no supermercado. No começo parecia bem insossa, precisava ser misturada a algo mais doce ou mais forte. Toddy ou café, por exemplo. Ela era bem branca e tinha um gosto conhecido. Parecia o gosto que vem das mães, quando nascemos e nos alimentamos delas. Você já deve ter lido Freud, né?

Ela estava lá, perto da manteiga, dos queijos e da margarina. Parecia fresca, mas pelo menos estava geladinha. Ele se aproximou e percebeu:

Ela era de leite.

O que fazer?

Ele era de gelo.

E foi assim. Fácil.

Um deleite.

Um deleite que o fez degelar.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Danada

A procurei em todo lugar.
Na rua,
em casa.

Com os outros,
comigo.

Na cama, no semáforo, no chão.
Nos olhos, nas bocas, nas mãos.

Nas brigas, nos abraços.
Nas surras, nos beijos.

A procurei em qualquer cantinho besta, perdida em qualquer lugar que fosse.
Na praia, no asfalto, no mato, em bares.

Com os pássaros, com os vermes -

Nada.
Não a encontrei.
Danada inspiração.

Ah. Não devo ter procurado direito. Se tivesse, com certeza, teria encontrado. Ou talvez foi em sua procura que a perdi. Não, não perdi. Ela que se perdeu de mim. Se perdeu?

[Talvez não. Afinal, inspiração não é dessas coisas que vem do nada - ela não vem. Ela já está em nós]

sábado, 7 de novembro de 2009

Praia Cheia

foto retirada daqui


- Olha o picolé, picolé... Geladinho, baratinho!
- Tem de macadâmia?
- Oi?
- Macadâmia.
- O que é que tem?
- Tem?
- Tem o quê?
- De macadâmia.
- Tem picolé.
- Picolé de macadâmia?
- Como assim?
- Moço. Eu quero um picolé. De macadâmia.
- Senhora, não sei o que é isso não. Se parece com limão? Tem de limão!

- Menina, olha como você conseguiu ficar bronzeada! Que protetor você está usando? Bronzeador?
- É... Um baratinho, até, da embalagem marrom, aqui, oh, deixa eu pegar para você ver. Sabe que nunca pensei na diferença de protetor e bronzeador? Qual é?
- Um protege e outro bronzeia.
- Mas se bronzeia não protege?
- Deve proteger também.
- E se protege não bronzeia?
- Também, ué.
- Mas então qual a diferença?
- Ah, querida, agora eu não sei. Me empresta esse para eu passar?

- Essa areia está grudando em todo lugar, que horror. E esse sol de rachar! Como a praia tá cheia hoje, meu deus.. Até parece que ninguém nunca viu sol... Também 40° não tem nem como ficar em casa, só com ar condicionado. E quem tem, né? Como eu queria estar numa piscina agora... A gente podia ir para a casa da tia Sandra dar um mergulho, hein? Essa praia está insuportável. Não tem nada para fazer, e essas crianças aqui do lado não param de berrar.
- Estão te chamando para jogar frescobol, lá na outra ponta da praia.
- Ha-ha.

- Manhê, vou nadar.
- Nada, mas toma cuidado!
- Com o quê? A água?
- É, o mar.
...
- Mãe, por que vc falou para eu tomar o mar com cuidado? Foi horrível! Tem muito mar e é salgado!

- Filha, para que cavar um buraco tão fundo?
- Quero ver se acho petróleo.
- Mas não é assim que você vai conseguir.
- Mãe, você já achou petróleo algum dia?
- Não.
- Já tentou?
- Não.
- Então como você sabe que assim eu não vou conseguir?!

- A gente podia tomar uma água de coco, né.
- É, podia. Passa uma cerveja.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Amor eterno... Ao Corinthians

Quarta e domingo eram noites péssimas para ela. Principalmente se o Corinthians perdesse – coisa que acontecia com bastante freqüência, ultimamente. Mal podia terminar de ver a novela, que sua sala era invadida por marmanjos alvinegros, com cervejas na mão e aflitos pelo Ronaldo. Isso quando eles vinham.

Seu relacionamento era assim: vira e mexe tinha que dividir sua atenção com a redonda, aquela mesma que 22 jogadores correm atrás, no campo, e todos os outros 92,4 milhões de homens brasileiros acompanham – seja nos estádios ou pela própria televisão.

Não tinha jeito. No começo até entendia, chegou a ir uma ou duas vezes no Pacaembu com o namorado, para ver se conseguia se animar com a energia do estádio. Não dava – chegava suada em casa, depois de muito empurra-empurra e muito homem passando cantada furada em seu ouvido. Resolveu que o melhor jeito era deixá-lo ir sozinho.

Ele seguiu a risca: passou a ir a todos os jogos, mas sem ela. Quando não ia aos estádios (apesar de ter contato com uns cambistas, muitas vezes os ingressos acabavam rápido e os preços eram absurdos), assistia-os nos bares. Aliás, preferia até o bar ao estádio: pelo menos lá ele podia beber, enquanto via os jogos. E era com cheiro de cerveja que voltava para casa.

A paciência dela frente aos jogos era cada vez menor. Chegando tarde em plena quarta? Não dava. Não dava mesmo. Ou ele chegava extremamente alegre e feliz – o que era bom, mas ter que agüentar o ritmo dele à meia-noite, após um dia de trabalho esgotante para ela, era muito; ou, vinha para casa irritado por ter perdido mais uma partida – e aí ai dela se comentasse qualquer coisa a respeito.

Além do horário, da cerveja e do estado emocional do rapaz após os jogos, outra coisa que a irritava profundamente eram as possíveis companhias. Com certeza deveria ter mulher na jogada. Não estavam na moda as tais marias-chuteira? Ele negava e ainda provocava: se fosse para ela estar preocupada com as possíveis marias-chuteira, deveria estar preocupada também com marias-gasolina, marias-parafina, marias-palheta, marias-maçaneta, marias-vão-com-as-outras... Não que ele fosse jogador de futebol, tivesse um bom carro, surfasse, participasse de uma banda de rock ou ligasse para mulheres muito fáceis (afinal, para conquistá-la, levou meses) e para aquelas que não têm opinião. Falava tudo isso puramente para deixá-la nervosa.

Ela, que nunca havia se considerado ciumenta e impaciente, ficava cada vez mais incontrolada quando o assunto era futebol. Não podia imaginá-lo pelas ruas urrando “Timão ê, ô!”, não agüentava ter que lavar aquela camiseta branca e preta, não queria mais nem ouvir o nome do Rona... Deixa pra lá.


O jeito foi terminar. Logo que o Corinthians empatou com o Coritiba, resolveu: não continuaria mais com ele.

Agora, nada mais da torcida da gavião, do Pacaembu (corintianos acham que o Pacaembu é deles), das faltas, dos pênaltis, de futebol. Nada. Começou a namorar um tenista.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Jogos de Azar

Dona Arlete passou a vida inteira reclamando de seu marido, Seu Ferreira. Não eram só os problemas de casa, como largar roupa suja no chão ou não abaixar a tampa da privada, que a afligiam. Havia um pior: o vício no jogo.

Todas as tardes, o marido saía do trabalho e nem passava em casa. Ia direto para a praça, onde participava de disputas incríveis de dominó. Quando ganhava, deixava o lugar e rumava para o bar, afinal, precisava comemorar. Quando perdia, também - lá sempre havia alguém aguardando para ser sua dupla no truco, jogo em que era invicto e no qual, com certeza, poderia ter o gosto da vitória.

Seu Ferreira sempre fora um cara de sorte - menos pelo fato de não ter tido um menino, e sim três meninas. Ele nunca teve problemas financeiros e a única coisa que o jogo lhe provocava eram brigas com Dona Arlete.

A raiva pelos jogos perdurou na mulher até o dia em que um bingo, ao lado de sua casa, fora aberto. Não deu outra. Começou a freqüentá-lo. Talvez assim causaria algum tipo de vingança ou, pelo menos, inveja no marido. "Lá tem uns moços jovens, bonitos, que sempre me dão sorte...", vivia dizendo. Seu Ferreira, no entanto, sabia: o recinto era apenas um lugar onde as velhinhas do bairro podiam fofocar e trocar receitas de bolo.

O tempo foi passando e Dona Arlete se tornou a freguesa mais assídua do local. Parou de limpar a casa, parou de fazer comida. Enfiava-se no bingo logo quando abria, e só saía ao ver o lugar ser ocupado pelas moças da limpeza. O segurança da casa a conhecia, a moça do bar também. O menino da roleta, então, nem se fale! Ela se sentia tão bem, tão querida, que sua família passou a suspeitar que ela estivesse mais feliz no bingo do que na própria casa.

Suas filhas começaram, então, uma campanha para a mãe deixar o local. Passaram a visitá-la com mais freqüência, traziam doces, levavam a mulher para o cabeleireiro, shopping e até para barzinhos na Vila Madalena. Não adiantava. Ela logo voltava para o lugar. Pegava o ônibus, saía a pé, mas com suas filhas ela não ficava. Nem com Seu Ferreira.

Depois de anos sem deixar de ir a uma partida de dominó, o velho percebeu o ápice do problema de sua mulher quando precisou voltar para casa após o trabalho e fazer sua própria janta - justo no horário de seu jogo. Estava ele, na cozinha, se aventurando com batatas cozidas enquanto os colegas se divertiam no dominó. Não podia agüentar tal infelicidade. E sua mulher lá, jogando.

As contas começaram a deixar de ser pagas, a casa passou a ficar imunda. Seu Ferreira contraiu uma doença por causa do pó e não conseguiu mais sair da cama. Deixou o dominó. Deixou o truco. Mesmo assim, Dona Arlete não deixava de ir ao bingo (deixou de ir à missa, mas nunca ao bingo).

Os problemas de saúde de Seu Ferreira se agravaram, e no dia 5 de maio de 2007, ele faleceu. Mesmo dia em que o bingo de Dona Arlete foi interditado pela subprefeitura de seu bairro. A liminar de seu funcionamento foi cassada. Do dia para a noite, Dona Arlete se viu sem chão – perdera numa só rodada, toda a sua vida. Não queria mais saber dos filhos, não queria mais saber de comer, nem conversar mais com as amigas. Inclusive, passou os últimos anos sem dar satisfação à família: não queria saber de visitas.

Nesta última quarta-feira, dia 16 de setembro, suas filhas voltaram a se animar com a mãe: a Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados passou a aprovar a volta das casas de bingo no país. Fazia tempo que elas não se alegravam com fatos políticos... Talvez agora a mãe pudesse ficar mais feliz.

- Alô? Mãe? Está me ouvindo? Mãe, você viu que parece que vão abrir os bingos?

- Sim, mas não me interessa mais.

- Como assim, mãe, você vai poder rever seus amigos...

- ... Há muito tempo deixei o bingo. Não gosto desses tipos de jogos.

- Como assim, mãe? Mas eu ouvi dizer que a senhora ainda estava apostando nos jogos, em outros lugares, mas estava... Então não é verdade o que Dona Conceição, sua vizinha, disse?

- Não, é verdade, sim. Agora sou campeã de dominó. E de truco.

E Dona Arlete continua jogando, até hoje, na praça, no bar – mas claro, somente depois de ter arrumado a casa e preparado a comida.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Pêra

Me lembro como ontem daquele salão de festas do prédio cheirando a bexigas. Eu estava ali, parado, vendado, na frente de todos. Exposto. Ela, ao lado de suas amigas. Linda em seu vestido florido e seu cabelo preso.

-É esse?

-Não.

-Esse?

-Ahm... Não.

-Esse?

-Também não.

-Pô, e esse?

-Esse pode ser. Sim!

Tirei a venda. Era ela. Me arrependo até hoje de não ter escolhido salada-mista.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Pessoas e pessoas

Existem pessoas que se satisfazem em fazer outras felizes. Pessoas de bem, assim são chamadas. São aquelas que evitam brigas - e quando existem, até chegam a apartá-las.

Existem pessoas que não se preocupam em falar para outros o que Fulano ou Beltrano fez. Não se preocupam em espalhar fofocas. Aliás, pouco falam sobre pessoas - preferem colocar em pauta assuntos como animais, árvores, idéias, músicas e livros.

Existem pessoas que não acordam pensando nos terríveis afazeres domésticos - e acabam até se divertindo ao lembrarem do que terão que fazer durante o dia. São aquelas pessoas que não passam a vida reclamando do que têm que fazer, do que não têm que fazer, do que fizeram, do que deixaram de fazer e pior: do que os outros têm que fazer, do que os outros não têm que fazer, do que os outros fizeram, do que os outros deixaram de fazer.

Existem pessoas que sabem sofrer na medida certa. Certa a ponto de aprender. Depois que aprendeu, não tem porque sofrer. Já foi. São pessoas que não fazem do seu penar um penar alheio - não jogam seu fardo de culpa nas costas dos outros para assim, se sentirem aliviadas. Se sentem dor, aprendem com ela. Não tentam passá-la aos que estão ao seu redor. Não tentam se colocar em posição de vítima. São corajosas, essas pessoas. Ah, como são!

Existem pessoas que não veem porquê remoer erros passados ou mais, viver em tempos que não os presentes.

Enfim, são, normalmente, pessoas que se afastam de intrigas. Também são queridas. Pessoas queridas não precisam se auto-afirmarem para se sentirem amadas. Elas simplesmente sabem que o são e são porque demonstram o querer aos outros. São porque amam os outros.

Esse tipo de pessoa costuma fazer piada da vida - e não da menina gordinha ou do menino de óculos. Imagine elas subjulgando alguém, colocando um terceiro em ridículo, inventando mentiras a respeito dos outros! Não, não. Pessoas assim não fazem isso.

Pessoas assim são difíceis de encontrar.

Você, definitivamente, não é uma delas.

sábado, 5 de setembro de 2009

Sei

Eu sei que não voltei mais ao francês. Nem ao inglês. Nem ao esporte. Nem a nada disso. Eu sei que eu por você eu passo muito tempo aqui no computador, onde talvez eu nem deveria escrever tanto - para minhas palavras não se perderem nesse ambiente cibernético. Eu sei também que deveria passar mais tempo com vocês, que deveria passar mais tempo com os outros, que deveria passar mais tempo comigo mesma. Eu sei, eu sei.

Tudo bem, entendo você quando diz que eu deveria andar mais a pé, fazer mais exercício. Não, eu não vou mais voltar a fazer volley. Nem ballet. Também entendo quando você diz que tenho que me alimentar melhor. Almoçar direito. Jantar. Eu tento. Tento jantar sempre que chego - às vezes você já está dormindo, e eu esqueço de ver o prato que deixou preparado para mim no microondas. Esqueço, simples assim. Sinto meus olhos tão cansados que abafam o barulho do meu estômago. Ou sinto tanta vontade de vir para meu quarto que nem passo pela cozinha. E muitas vezes acabo nem dormindo assim, tão rapidamente.

Aliás, você tem razão. Eu não posso ficar acordada até tarde, dormir pouco. Não quero cultivar olheiras. Mas... O dia é tão curto para mim que preciso da noite. Não tem jeito. É como sair à noite. Sim, a essas horas?, abro a porta, dou-lhe um beijo, pego o elevador, entro no carro que me espera lá embaixo. É que eu preciso da madrugada, também. Preciso de muitas coisas. Eu sei que você sabe disso, e eu sei que justamente por isso me acha meio mimada. Não sou. E se fosse, seria culpa sua. Olha aí, já estou culpando você, que tanto me quer bem. Que tanto se preocupa e me sufoca.

Sim, muitas vezes sinto sufocada pelas suas perguntas. É só preocupação, não é? Entendo. E as cobranças? Tenho que estudar, manter as amizades, visitar os parentes, comer direito, me arrumar, ler todos os livros, dirigir e... Fazer exercícios! Não dá, não consigo e sei que não consigo. Sabe, eu já tento fazer todas aquelas coisas que eu quero. Se tiver que fazer todas as que você queria ter feito quando tinha minha idade serei consumida mais do que já sou pelo monstro dos dias que passam correndo.

Quanto mais coisas fazemos, mais rápido o tempo passa. Eu sei que quero fazer muitas coisas (por mais diferentes que sejam do seu querer). Eu sei que muitas daquelas que você quer que eu faça é para meu próprio bem. Eu sei que tenho que passar protetor solar, tenho que comer frutas, tenho que ir no médico, no dentista, tenho que ligar para o Fulano que me ligou , tenho que visitar a Cicrana, tenho que arrumar o quarto, tenho que voltar às aulas de línguas, tenho que começar a fazer algum exercício, tenho que deixar de fazer besteira, tenho que deixar de falar besteira! Eu sei, eu sei.

Eu sei que você acha que eu acho que sei de tudo.
Mas isso... Não, não sei.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Nós

E foi assim como tudo começou. Uma ponta aqui, outra ali. Éramos, apesar de tudo, um fio só - pena que não sabíamos. Nem desconfiávamos. Aliás, a única diferença entre nós era o lado para onde íamos. Ou melhor, o lugar para onde olhávamos. Esquerda ou direita; frente ou trás. Sempre assim: opostos.

Numa tarde abafada de pleno agosto, nos pegaram. Nunca havíamos nos olhado. Cada mão, agarrou-se a um de nós. Apertou-nos - e fez apertarmos nossas vistas para confirmarmos aquilo que víamos: outros eus. Iguaizinhos.

Nos víamos, porém ainda não éramos nós. Éramos dois eus, que suspeitavam se tornar um nó, mas só suspeitavam. (Era aquela suspeita bandida que surge quando os olhos apertam os corações - os quatro olhos, apertando os dois corações diferentes. Diferentes-mas-nem-tanto, afinal, estavam prestes a virar um só. Um nó.)

Nos enrolaram. Nos envolveram. Nos apertaram. Tão firme que ficamos sem ar. Nos deram um nó. Dois. Três. Nos firmamos, nos firmamos. Ou nos amarramos? Nos amarraram.

Nós viramos nós. Assim continuamos por um longo tempo... Presos, feito aqueles de marinheiro. Feito aqueles na madeira - colados ao jatobá.

Foi nessa época quando nos tornamos nós cegos de tanto amor. Além de cegos, insuportáveis. Ninguém nos aguentava mais: "estão muito fortes! Não consigo nem soltar! Olha que apertados... Sufocante!"

Tentaram nos separar, mas éramos tão apertados que garfo nenhum conseguia tal feito. "Vou buscar uma tesoura!", ao ouvirmos a frase, demos um nó na garganta. Imediato. Tesoura?!

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As lâminas afiadas se aproximaram de nós. Dos nós. As mesmas que já haviam rasgado cartas de amor, sem darem tempo de serem entregues, sem permitirem um sorriso doce ao saírem do destinatário.

Elas estavam ali, nos encarando. Juntinhas, cínicas, nos observavam. De repente, abriram, brilharam e nos deram um abraço gélido. Simples e rápido. Toda a força que tínhamos esmaeceu-se. Toda a dificuldade para nos soltarem se foi. As linhas se estiraram. Fomos nos desfazendo, nos soltando, nos quebrando.


Conseguiram. Elas, as lâminas, desfizeram os nós (desfizeram-nos). Quero dizer, ela. Cruel, fria e que nem marca tinha - nessas horas você percebe a importância das marcas para cortarem as relações: nenhuma. Elas aparecem depois.

Ela veio como quem não quer nada. Estava muito bem amolada. Melhor seria se estivesse cega, ou se a mão que antes nos unira, agora não se encaixara nela para nos romper.

Subitamente, dilacerou-nos. E foi de tal modo que nunca mais nos vimos. Cortou qualquer ligação que houvesse entre as pontas. Nosso fio já não era o mesmo. Diminuímos.

Terrível foi o dia em que éramos nós e voltamos a ser apenas eus. Terrível. Passei a ser somente um pedaço. Assim, incompleto.

Maldita tesoura.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Pepê e seu jeito estranho de fazer as coisas

Parte 2

Na escola, por exemplo. O normal é querer sentar no fundão (claro que existem aqueles que gostam de sentar na frente, mas no fundo, no fundo, todos acham o fundão mais legal) e não querer de jeito-maneira-alguma ser chamado para resolver equações ou aplicar fórmulas matemáticas na lousa.

Pepê adora. Senta em qualquer lugar - não se importa - e sempre que é chamado para a lousa faz questão de não só tentar responder as coisas (digo tentar porque na maioria das vezes ele não sabe, mesmo), como também imitar os professores dando aula. Os colegas gostam, acham engraçado. Já os professores... Dona Ivete, por exemplo, fecha a cara.Uma vez até mandou-o sentar e o ameaçou a tirá-lo da sala. Mas Pepê percebeu o sorrisinho que ela escondia de gosto por tê-lo ali. Ficou na dele, e simplesmente, continuou escrevendo com o giz, os números.

Aliás, ele é um dos poucos que percebem sorrisinhos alheios. Quando os outros notam, ele já viu faz tempo. Antes mesmo dos sorrisos se mostrarem. Isso era bem estranho - ainda mais quando comentava para alguém: "Olha só, o Seu Geraldo, vai dar um sorrisão daqui a pouco...". Não acreditavam, óbvio. Idéia maluca, a dele! Até que, de repente... Peraí! Não é que Seu Geraldo está sorrindo?!

[Leia a parte 1 antes, com muito gosto, aqui]

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Fósforo

De tanto esquentar a cabeça, saiu fogo. Depois de apagar, parou de funcionar.

[saidera]

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Desnorteado

Não tinha rumo, o que não era um problema pois sabia como seguir - sem rumo.

[7/7]

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Habilitação

Foi reprovado no teste de motorista. Era lógico, mal sabia dirigir sua vida.

[6/7]

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Vaca

Ela o traía, ele a amava. Gostava de animais.

[5/7]

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Obediência

-Filha, toma banho!
-Não, estou saindo. Vou para o Bruno.

Foi. E obedeceu a mãe.

[4/7]

domingo, 9 de agosto de 2009

Mania de Perseguição

Fez um twitter, mas excluiu todos aqueles que o seguiam. Ficou mais tranquilo.

[3/7]

sábado, 8 de agosto de 2009

Dieta II

Café com adoçante. A bolachinha do lado? Comeu-a. O café estava com adoçante!

[2/7]

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Dieta I

A pipoca era light. Encheu-a de manteiga e continuou no regime. A pipoca era light, oras.

[1/7]

terça-feira, 7 de julho de 2009

Surpresas

(I)

Eu sabia que não deveria ter ficado em casa. O tom dela quando se despediu, logicamente, demonstrou sua preocupação. Não comigo. Mas com o que eu poderia fazer. Com o que eu poderia encontrar.


Provavelmente, deve ter se arrependido das reclamações quanto a minha desordem, quanto a minha desorganização. "Não aguento mais essa bagunça! Este chiqueiro! Já devia ter suspeitado que sua casa seria um reflexo de seu quarto... Claro, claro. Ele não conseguia manter um quarto arrumado, como não pude prever que manter um apartamento seria impossível?!", reclamava.

Agora estou aqui, perdido em minha bagunça, encontrando a bagunça dela. Não deveria ter resolvido fazer uma surpresa. "Olha, só, amor, arrumei as gavetas!"... Quando melhor se quer ser, pior acaba sendo. As gavetas... Essas cartas... Essa foto! Como ela está bonita... Tão linda que tenho vontade de matá-la. Feliz, idiota. Com um canalha ao lado. Sorrindo, abrançando-a. Não sou eu.

Quanto mais mexo nestas papeladas, maiores são as punhaladas. Arrumar... Muito mais deveria ter sido arrumado. A começar pela nossas vidas.

Não era só da bagunça que ela reclamava. Era também do cheiro de cigarro que empestava a sala. "Quando você deixará de se intoxicar? Você se mata pouco a pouco!". Me mato. Ela que, agora, cada vez mais, me mata. Corno.

Preciso encontrar mais sujeira, um bilhete de cinema, teatro, notas fiscais. Esfregue isso na minha cara. Quero ver. Tudo com outro cheiro. Como não pude perceber. O ar estava empestado não pelo meu cigarro, mas pelo perfume barato daquele filho-da-puta.

Aliás, cada vez mais, sinto vontade de fumar. Para que tudo - a cama, o sofá, as almofadas - fique com o cheiro do meu cigarro. Para que não possa mais sentir o chero doce dela pelo apartamento. Doce o caralho. Azedo. Azedo ao se imaginar que se misturou com o de outro.


Obsessivo? Não. Eu que tive aguentar toda sua obsessão. Sim, sim. Ela era assim: obsessiva. Não podia ver uma conta sem pagar - apesar de muitas delas assim ficarem - que entrava em desespero. Não comia "carboidratos". Nem glúten. Se colocasse uma torrada na boca dizia que morreria. Nunca vi alguém que não comesse glúten. As embalagens deveriam alertar somente a ela sobre tal ingrediente.

Também tinha mania de simpatia. Assim mesmo. Tinha que ser boazinha com todos. Todos a adoravam. Sorriam e ela sorria.

Com os vizinhos, inclusive. Sabe aquela história de entregar um bolo, assim que se muda, para os outros apartamentos? Aquela, que só se vê em filme tosco americano? Ela fez questão de protagonizá-la. Ridículo.

Entregou para os vizinhos do andar. Todos. Sorte que isso tudo não passou pelo elevador. Azar nosso prédio ter 6 apartamentos encrustrados nesse maldito 4º andar.

Aliás, devia ter suspeitado antes. Ah, vagabunda. Aquelas tardes sem ir ao trabalho! Agora eu entendo bem o que ela fazia... Enquanto o infeliz aqui passava horas em frente ao computador, ouvindo o idiota do chefe, ela, com certeza deveria estar se entregando para os vizinhos do andar. Do prédio. Do bairro. Não, não, só deve dar para aquele moleque do 45. Puta.


(II)

Puta, tenho que correr antes que ele perceba. Já combinei com o Fábio de passar lá naquela loja de vinhos... Aquela, qual é o nome? Que tem um monte de vinhos bons, caros, e tal... Nunca fui lá. Ele me falou que era uma boa.

Enfim, dane-se o nome. Afinal, o que é um nome?! What's in a name? That which we call a rose. By any other name would smell as sweet. Não, não. Não tenho tempo para Shakespeare. Quem diria! Eu, recusando-o de meus pensamentos! Oh, Ana Lúcia Vasquez, você não era assim. Nunca foi.

Até aí, eu também não sabia que tinha essa doença maldita celíaca. Quando dizia que tinha problemas com o intestino ninguém levava a sério: "Toma Activia...". As pessoas acham que o único problema de intestino que uma mulher pode ter é prisão de ventre.

A humanidade se renova no seu ventre, escreveu Cora Coralina. Não era assim? Não é assim, afinal? Do ventre saímos, oras. Cora Coralina é um nome que soa bem. Ah, meu deus, cadê o Fábio? Ficamos de nos encontrar aqui, garçom, nessa mesa de bar...

Preciso além do vinho, de alguma coisa para decorar a sala. Umas velas, talvez. Não sei porque o Rogério inventou de ficar em casa. Justo hoje! Ou será que ele sairá mais tarde? Daqui a pouco eu ligo, porque se ele estiver lá, vai dar tudo errado. Tudo.

Acho que as coisas já vem dando errado, para falar a verdade. Não sei, ele parece distante, diferente. Me olha com outros olhos. Sempre com aquele maço nas mãos, maldito. Ele, que me tem em suas mãos, prefere agarrar aquele pacotinho cheio de veneno. Como odeio cigarros!

Já o Fábio... Ah, querido. Sempre alto-astral, vai para a academia, cozinha... É uma belezura! Me divirto tanto com sua companhia... Às vezes, penso até que seria melhor viver com ele e não com Rogério.

Ai, Ana Lúcia! Que baboseira! Imagine só, o que os vizinhos diriam?! "Essa daí, saiu do 41 e pulou para o 45", que horror!

Bom, depois do vinho, a gente passa em algum lugar, compra umas velas. Acho melhor já comprar comida, também. Peixe? Carne? Não sei. O que estiver com a cara melhor. Não vou ficar cozinhando. Iria estragar meu visual. Tenho que ficar linda.

Sorte que o Fábio me acompanha. Ele me acompanha para tudo. Sempre disposto.


(III)

Disposto a expulsá-la de casa, Rogério já não podia suportar tanto sofrimento. Passara a tarde vasculhando as gavetas, os armários da casa, em busca de pistas que o fizessem cada vez mais acreditar em uma possível traição.

Não fora trabalhar. Passara o dia remoendo-se. Ódio. Era isso que sentia. Não diziam que seria o ódio o oposto ao amor? Pois antes o amor sentido, agora se transformara em ódio.

Queria esganar o rapaz do 45. Esportivo, dentes alinhados, bom moço. Sabia cozinhar... Quantas vezes, com um avental amarrado na cintura, não tocara a campanhia para pedir uma xícara de farinha? "Não temos farinha! Ela tem problemas com glúten!", repetia.

- Amoor... Cheguei!

Carregando sacolas de vinhos, queijos, velas - era isso mesmo? Velas?! - e coisas não identificáveis mas que cheiravam a comida, Ana Lúcia tentava se equilibrar para trancar a porta.

Passara o dia inteiro na rua para preparar algo especial para a noite. Sabia que Rogério merecia. Esteve tão irritado durante todas aquelas semanas, coisas do trabalho, sei lá, que um jantar especial, com certeza, faria esquecê-lo de seus problemas.

- Amor? É isso mesmo? Você também chama aquele moleque assim - de "amor"?

Não entendeu. Colocou suas compras de lado, em um canto, e andou em direção ao marido.

- Não, querido, não estou entendendo... - disse enquanto seus braços, carinhosamente, o envolviam - Você não foi trabalhar? - perguntou antes de beijá-lo.

Virou a cara. Não suportava aquela falsidade. Onde já se vira? Ela passou o dia inteiro me traindo e agora vem cheia de mimos para cá? Dirigiu-se para o canto, onde estavam as sacolas. Tirou um vinho e passou a observá-lo.

- O que são essas coisas? Cabernet. 2005. - olhou-a através do vidro. Tudo estava vermelho, transfigurado. Apertou a garrafa pelo gargalo. Fez que a atiraria contra a parede.

- Não! Rogério, querido, o que está acontecendo? Comprei para que nós...

- ... Nós?! Não existe mais "nós", Ana Lúcia.

- Como não?! Você está se sentindo mal? O que está acontecendo, meu Deus? Você está agressivo!

Meus olhos começaram a arder. Arder tanto que parecia que eu estava cortando cebolas. Não, parecia que estavam sendo cortados. Lacrimejavam. Apertei Rogério pelos braços. Ele me empurrou. Caí sentada. No sofá.

- Rogério! Você está louco! O que acontece? O QUE ACONTECE?!


Desatei a chorar. É isso que acontece.
Quando melhor se quer ser, pior acaba sendo.

- Você não vê, Ana Lúcia! Passei o dia inteiro em casa, mas preferia não ter passado. As coisas que vi... Preferia não ter visto. "O que os olhos não vêem, coração não sente", certo? Bilhetinhos do 45? Cartas com declarações de amor? Notas fiscais de lugares onde nunca estive! Ana Lúcia. - parou subitamente. Olhou nos olhos molhados da mulher - Você me traiu.

Ela não para de chorar, caralho. Eu que sou traído e ela que se faz de coitada. Mulher não presta, mesmo. E esses pacotes todos?! Jantar... Com certeza agora deve estar arrependida. Mulher não presta.

- Rogério - ele me faz chorar, para que minha cara fique inchada e minha maquiagem borrada. Não estou acreditando. Tenho que parar de soluçar - com quem eu teria te traído?

- Aquele moleque, do 45.

- Fábio? Atleta, bonitão?

Ainda tem coragem de chamá-lo assim, e com essa calma. Para de soluçar, porra!

- Aquele atleta, que ficaria lindo depois de uns socos, sem dente, roxo.

- Rogério! Por favor, pare. Pare! Não fale assim...

-... DO CANALHA? Agora devo também elogiá-lo? Ah, sim, e por que não dividir você com ele... Chame-o aqui. Adoraria um ménage! - minha vontade é de ESPANCÁ-LO.

Não acredito. Não acredito que ele pensa que o traí. Não acredito. Sinto vontade de rir. De gargalhar. HAHAHA. Agora, além de soluçar, estou gargalhando. Para! Para de soluçar, ou de gargalhar... Olha a cara do Rogério! Meu deus, ele não está entendendo nada... Coitado! Eu, com Fábio? hahaha, eu e Fábio! Tenho que parar de soluçar! E de gargalhar! Ele está ficando nerv... Eu com o Fábio! Quem diria...

Vadia, ainda tem a coragem de rir na minha cara! Gargalhando, descaradamente. Mulher não presta. Ana Lúcia, Laura, Rosângela, Márcia, Marcela... TODAS! Qualquer uma! Puta-que-o-pariu!

- PARE DE GARGALHAR! - berrou enquanto os soluços de Ana Lúcia misturavam-se, desesperadamente, às risadas.

- Rogério, Rogério... Fábio não gosta de mulheres.

- Viado! Fui traído por um viado? Só me faltava essa!

Não acredito. Sinto vontade de rir. De gargalhar. HAHAHA. Homossexual, Fábio! Quem diria! Eu bem que suspeitava... Aquele avental, aquele jeito delicado, sabia bem escolher as palavras, mal usava palavrões.

- Não foi traído, Rogério! Eu nunca faria uma coisa dessas!

Não, mas não é possível. GAY? Ainda não estou acreditando. FÁBIO? GAY. Mas, por que ela esconderia isso de mim? E esses passeios...

- O que significam essas fotos, então? - disse, revirando a gaveta em que as encontrara.


- A gente tem saído, ele tem me ajudado muito, hoje mesmo, fomos comprar as coisas para você. Ele gosta muito de você.

- E o que são aquelas notas, bilhetes?

- Para você.

Quero rir. Muito. E abraçá-lo. Como é bobo! Meu deus! Como foi capaz de pensar uma coisa dessas... Quero rir. Muito. E abraçá-la. Como sou bobo. Mas não é possível... Gay?! O Fábio? Mas ele e Ana... Como fui capaz de pensar uma coisa dessas... Ele pensou que estávamos juntos. Ciúmes de alguém que nem de mulher gosta. Gosta como amiga, como todos os homens deveriam gostar. Ciúmes de alguém que nem de mulher gosta... Amiga, vá. Que graça tem sendo só amigo?

Começou a chorar. Ou melhor, ambos tinham os olhos molhados. Se abraçaram. Se beijaram. Tomaram o Cabernet. Comeram. Sorriram, riram. Se abraçaram. Se amaram mais do que nunca. Acima de tudo, perceberam: as surpresas muitas vezes traziam surpresas, para ambos os lados. Surpresas, realmente, inesperadas.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Açúcar-Cera



Aquece-se o açúcar. Seus grãos se fundem, tornando-se uma pasta. A consistência passa a ser grudenta. O branco, antes, quase transparente; agora, é bege escuro, marrom claro. Se mantido por muito tempo no fogo, endurece, enegrece. O doce, mantido outrora, passa a amargar a boca de quem o prova. Perde seu valor.

Assim como o açúcar na panela para virar caramelo, a vida de algumas mulheres, em plena Beirute, também passa a ser mexida, revirada, movida por acontecimentos externos mas inerentes a suas emoções, a seus mais íntimos sentimentos.

A descoberta de ser a amante, quando se pensava ser exclusivamente amada; o casamento que está por vir, mas a virgindade que já se fora; o amor passível na maturidade, em oposição aos cuidados com a irmã mais velha; a menopausa se aproximando, onde apenas se é rondada por jovens; a homossexualidade, quando o principal assunto são os homens e a vaidade feminina.

Por esses, e outros conflitos, passam as cinco personagens centrais do filme Caramelo, da diretora e também atriz Nadine Labaki.

Em um cenário tipicamente feminino, um salão de beleza - e em meio a tinturas de cabelo, cremes faciais ou maquiagens-, as histórias passam a envolver ora pela doçura, ora pelo sofrimento. Derretem feito açúcar sob nossos olhos, transformam-se, seduzem. Enquanto ao mesmo tempo, trazem a tona a solidão muitas vezes sentida.

Se por um lado, causam o prazer típico do açúcar; por outro, são como a cera usada para depilação: arrancando a dor que há por dentro de cada pessoa.

O caramelo no filme, inclusive, é o ingrediente principal para a depilação. Sendo assim, o doce açúcar é usado para arrancar, dolorosamente, aquilo que não corresponde ao padrão de beleza.

Entre risos, choros, sussurro e gritos, a vida delas, porém, continua. Como a de todos. Doce, mas na medida certa. Sem nunca perder o seu valor. Ou passar do ponto.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Olhares

Batera o sinal. Agarrou sua mochila, abriu a porta da sala de aula e saiu corredor à fora, rindo.

- Ei, você não precisa correr! Volta aqui...

Os passos trôpegos a fizeram cair nos braços do menino que a chamava, colega de classe, típico estudante de colégio de classe média - com cabelos lisos caindo sobre os olhos ("Você tem que cortar, garoto! Tá ficando muito... Feio!", dizia), algumas espinhas no rosto e gosto musical duvidoso - que a acompanhava sempre até sua casa, ouvindo-a falar sem parar.

Viraram à esquerda, entraram em outro corredor repleto de salas e armários escolares. O chão verde brilhante, agora, era o caminho para a saída. Nunca vira colégio tão labiríntico quanto aquele ("É para que a gente fique preso para sempre aqui dentro", diziam). Porém, ela nunca se perdera.

Dona de si. Até que era bem independente para sua idade. Sabia o que queria, ou ao menos, pensava que sabia. Difícil influenciá-la. Alguns a achavam teimosa. Ela preferia apenas ser, digamos, difícil de ser convencida.


Seu olhar, por outro lado, perdera-se em meio a tantos outros. Convenceu-se em parar abruptamente. Deixou-se levar. Congelou no de outro rapaz. Simples. Rápido. Em apenas um instante. Os olhos claros se fixaram como flechas nos dela - imãs. Prenderam-se, assim como prendera o tempo, também congelado.

Já havia conversado com ele. Bem mais velho, a ponto de, inclusive, ter o "ar de velho sábio". Não, não. Ar de quem entendia de tudo. Das coisas. Da vida. Das mulheres...
Aliás, várias delas se encontravam ao seu redor. Ele, encostado na parede, com a perna em cima de uma cadeira que segurava a porta e várias daquelas meninas-mulheres que mesmo vestidas com o mesmo uniforme branco e azul-marinho que ela, pareciam mais bonitas, lindas, reluzentes. Os cabelos bem arrumados, as peles maquiadas, as unhas pintadas.

Claro, eram bem mais velhas também. Mulheres. É, eram mulheres. Tinham aprendido a se portar como tais, pelo menos. Ela, em compensação, era uma menina que mal sabia ser moça (apesar das tentativas vãs). Se elas se formavam dali a pouco, no ensino médio; ela, no ensino fundamental. Ridícula. Pequena. Nada. Mal podia haver comparação.

Enquanto ela deixava a infância - elas, a adolescência. O que não sabiam, porém, era justamente nesse ponto convergirem: na dificuldade de soltar as respectivas amarras.

Era o último ano em que as veria. Era o último ano em que o veria. Assim. Tão perto. Tão longe. Sabia que o abismo da idade era, apenas, aparente. Dentro de alguns anos já não seria tão assustador. Só ver o exemplo de seus próprios pais: deviam ter uns... 4, 5 anos... Sempre pensava que enquanto seu pai tinha 15, sua mãe, apenas 10. Era uma meninota! E ele, um rapazinho. Nem sonhavam em se encontrar. Imagine só.

Já entre eles... Ora, seriam o quê? Quatro anos? Menos, até. O que são três anos de diferença entre duas pessoas?! Dos 19 para os 22. Dos 31 para os 34. Dos 59 para os 61. E dos 86 para os 89?! Nada... Aquilo não era nada!

Estava ali, rindo nos braços de um com o olhar fixo/parado/imóvel no outro. E ele estava lá. Ouvindo as risadas das outras com o olhar fixo/parado/imóvel em uma.

Sorriram.

E o instante infinito daqueles olhares e daquele sorriso perdurou para sempre na memória dela.

domingo, 28 de junho de 2009

Nuvens

De repente, tirara os olhos do livro e virara-se para o céu. Percebeu como, de uma hora para a outra, milhares de nuvens encobriam o azul e, como algodões, dançavam no infinito.

Cobriam de uma mesma cor, mas corriam em direções diferentes - via uma a se engrandecer enquanto outra passava como seus olhos faziam nas páginas amareladas.

Eram tantas que mal podia diferenciar suas formas. Aliás, essa era uma brincadeira rotineira de sua infância. Quantas não foram as horas em que ela se perdera olhando para o céu, imaginando coelhos, gatos, prédios, pessoas, barcos, frutas... Isso quando não, apenas, deitava-se nos bancos do andar térreo do prédio de sua avó e, de baixo, admirava-se com o tamanhão do prédio que parecia se movimentar em contraste com o céu.

O vento também a distraíra: uma porta batendo ao fundo, o farfalhar das folhas, o sopro em seu ouvido.

Como crianças, as nuvens brincavam empurradas pelo vento em seus balanços invisíveis. O sol tudo observava, às vezes escondido atrás delas, deixando-a gelada na sombra; outras vezes, a queimar sua pele, beijar-lhe o rosto.

Na sua frente, uma fileira de pequenas árvores dançavam completando a cena dirigida pela natureza. Eram pinhos-bravo. Mas pareciam tão delicados...

Além do som do vento, a soprar em seu ouvdo, podia ouvir o cacarejar, abafado pela distância, de uma galinha. Onde estaria o animal? Seria só a distância que abafaria seu som ou também o tempo? Ouvira uma vez que galinhas poderiam muito bem ser parentes de dinossauros... E se, perdidos em meio aos morros, longínquos, também não haveria alguns deles, vivendo num tempo inalcansável, dada a distância inatingível...

Eram esses os morros que a encaravam: cobertos por um manto verde, repleto de bolinhas - na verdade eram árvores, ela sabia, mas preferia enxergá-las assim como as via: eram bolinhas, apenas feitas para formar uma textura sobre a terra em curvas que recortavam o horizonte. Morros infinitos, assim como o céu, descansando acima deles.

Quase sólida, uma enorme nuvem fez de sua vista mais escura. Passava, sem pedir licença, sobre sua cabeça. Quem seria ela embaixo daquela imensidão?! Sentiu um pequeno pingo pousar em sua pele. Quanto não teria viajado, daquela nuvem até ela, apenas para descansar em sua pele?

Esfriou. O vento gelado já não sussurrava canções incompreensíveis - pedia para que ela se retirasse. Já estava há muito tempo os observando.

Colocou seus chinelos, puxou a cadeira e seu livro e entrou. Deitou-se no sofá decidida que voltaria a ler... Até perceber uma lagartixa verde-musgo rondando uma mosca parada. O teto, apesar de não tão infinito quanto o céu, também continha aquela que, naquela manhã, não a deixava ler. Desistiu. Permaneceu parada, observando.

Campos do Jordão, 28 de junho de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Marrom-Vermelho

O céu estava vermelho como sempre. Foi-se o tempo em que os céus eram azuis ou cinzas. Aliás, aquela geração de crianças que agora comandava o pedaço de país a que estavam destinadas nunca haviam conhecido a cor azul.

Tomavam uma bebida gasosa, marrom, e se deliciavam após os arrotos. Os adultos apenas existiam para serem máquinas e os velhinhos eram todos jogados em casas com plantas murchas onde eram esquecidos.

Era um tempo difícil, muito difícil. A comida não era escassa, mas nada nutritiva. Sendo assim, crianças morriam desnutridas - as mesmas que sugavam pelas manhãs o líquido marrom-gasoso.

Em certos lugares de latas enferrujadas, um certo tipo de adulto tentava rabiscar algo em pedaços verdes das paredes. O lixo, também enferrujado e ao lado dos retângulos esverdeados, servia de alvo para as plaquinhas de metais atiradas pelas crianças.

Não tinha papel, e aliás, as palavras só chegavam aos interessados por meio de uma tela quadrada - que ficava preta ao apertar um botão - e que estava conectada a vários botões de letrinhas.

Cada vez que se apertavam os botões de letrinhas as mesmas iam aparecendo nas telas. Quem fazia isso eram outros tipos de adultos, que passavam o dia sentados nas cadeiras escutando um aparelho que falava as coisas que estavam acontecendo pelo mundo.

O mundo, com céu vermelho, também não tinha árvore. Animais tinha sim... Umas baratinhas que eram adestradas para divertirem as crianças em seus dias de stress. Inclusive, os adestradores de baratas eram pessoas perigosas, que se quisessem, poderiam formar um exército delas para atacar aqueles que passassem o dia em frente às telas.

Além dos adestradores de baratas, existiam outro tipos de pessoas perigosas. Eram os adestradores de balas. Não as docinhas não, as de chumbo, mesmo. Eles usavam um cano com um gatilho que ao ser apertado deixava o corpo das pessoas vermelho. Que nem o céu. O céu era vermelho.

Também tinha um outro tipo de adulto que passava todas as horas correndo. Corria do tempo, da polícia, dos quilos a mais. Corria tanto que seu rosto era deformado pelo vento contrário a sua direção. De tanta deformação, o adulto-corredor tinha que se submeter às plásticas - e então, encontrava-se com a adulta-plástica e tinham filhinhos.

Os meninos não bebiam leite materno. Bebiam líquido marrom-gasoso, desde sempre. Recebiam, quando iam para o latão enferrujado, latinhas de líquido marrom-gasoso. Alguns de tanto líquido-gasoso se tornavam bolhas de gás e saíam voando.

Voavam pelo céu vermelho.

terça-feira, 2 de junho de 2009

B-u-n-d-a.

Esse país é uma bunda. Bonita, redonda, carnavalesca. Diz que aceita as diferenças. Diz que merece respeito. Diz que tem o melhor futebol, o melhor carnaval, o melhor biocombustível do mundo e a melhor população. O povo mais hospitaleiro, mais generoso. As brasileiras são as mais lindas. Nossos bosques têm mais vida, nossa vida no teu seio mais amores.

Temos uma democracia, o melhor sistema eleitoral. Temos urnas que funcionam, modernas, bonitas, que funcionam! Temos políticos que não se lixam para a opinião pública. Temos políticos que se lixam, mas quem se importa?! Quem se importa para a opinião pública?! Quem tem uma opinião pública? Quem concorda com a opinião do público? O público tem uma opinião?

O público tem alegria! Tem alegria e leite em pó para a criança, que se derrete na escola de latão - que se aventura por rios caudalosos para chegar ao barraco chamado "escola". Escola é aqui, é ali, o país é uma escola! Somos todos alunos, atentos mas que celebram quando o professor falta: aula livre. Liberdade!

Liberdade de se expressar - mas cuidado com o que vai falar. Liberdade de achar e desachar - mas cuidado com o que encontrar. Aliás, melhor não procurar. Espere que alguém procure por você. Com certeza algum otário perderá seu tempo procurando, aí você só joga um charme e já era - achou sem nem procurar. Malandrão.

É o pato? Nada. Pato é quem paga. O pato. Nós pagamos, mas nem vem cobrar juros que aí o que você terá é calote. Assim mesmo. Ah, não vai acontecer nada mesmo... Mesmice.

Mudam-se os tempos, mudam-se as pessoas. Mudam nada. Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. Não, não diga isso! Temos que contradizê-los, rebelarmos, fazer valer a força da juventude, essa garra, energia que transbordamos. Vamos mudar, mudaremos. Assim como tá não dá. Dá? Deu. Deu-deu, não, vai dando. Sempre com jeitinho.

Mas faz o seguinte: a gente finge que não tá satisfeito e reclama, tá? Aí a gente reclama de tudo. Do vaso, da vida, da vizinha, do vidro. Da sopa, da sola, do soco na boca. Do amigo, inimigo, arquinimigo. Afinal, quem é amigo mesmo? É mesmo? Então prova. Prova que nesse mundo só acredito vendo.

Já vi coisas de menos, quero ver coisas demais então comece provando sua tese para que eu depois reprove, questione, não entenda e continue achando que não foi provado. Não vou ouvir o que você disse, porque sei que estou certo.

Certo dia tudo pareceu certo. Foi horrível. As coisas não têm que estar certas. As coisas tem que estar errada. A criança tá morrendo de fome na África! E do lado de casa?! Também! Você viu? Não!

Não quero lhe falar das coisas que aprendi nos discos. De nada valem. O que vale é que estamos aqui, firmes e fortes na parada. Para o que der e vier. Reclamando para não perder o costume. Fazendo alguma coisa? Reclamando, oras. Reclamar não basta?

Esse país é uma bunda mesmo.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

X e Ypisilon

Ele, definitivamente, não combinava com ela. Ele gostava de conta; ela, de palavras. Quando nervosa, ela se punha a escrever. Ele, a fazer exercícios. Físicos. Ela amava barrinhas de cereais. Ele as detestava - preferia sanduíches gordurosos e refrigerante. Ela não suportava o gás da bebida (e isso incluía da cerveja, coisa que ele vivia tomando com seus amigos).

Ela amava música brasileira. Ele odiava a fonética do português daqui. A letra dele era feia. Dela, bonita, caprichada e redondinha. Ele sempre, mas sempre mesmo, conferia o troco - ela, perdera várias moedas por não conferi-lo.

Se um lápis parasse na mão dela, rabiscaria em qualquer lugar. Ele o faria girar entre os dedos. Nunca ia ao cinema sozinha. Sempre. Sempre usava tênis. Nunca. Vinha de uma família grande, cheia de primos e era a irmã mais nova. Ele era o mais velho e nunca conhecera os avós. Quando pequena, adorava desenhar. Ele odiava aula de artes.

Exatamente humana. Humanamente exato.

Eles não tinham nenhuma afinidade em comum.
Nem amigos iguais.
Nunca, também, frequentaram os mesmos lugares.

Eles nunca se conheceram.
E viveram felizes para sempre.

[Você achou que eu terminaria com um "os opostos se atraem"?]

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Morte

Em vida, a morte é algo difícil de se digerir. Principalmente, por ser ela que, lentamente, digere a vida. Vai aos poucos minando o que resta do ser. Leva, de uma hora para outra, quem menos se espera ser levado. Leve. Ou o contrário. Carrega, ainda que em vida, aquele que sabe ser por ela carregado. Pesado.

Começa junto ao nascimento: não tem jeito. Tudo que nasce está fadado a morrer. Fatalmente isso acontecerá (e aí "fatalmente" entra como melhor advérbio possível para se exprimir isso). Inexorável, óbvio. A morte aguarda finalmente o dia em que resolve aparecer. E esse dia é certeiro.


Quando aparece, não transforma o ser em pó; mas em lembranças, em memórias de outras pessoas. Parte daquilo que um dia foi, continua sendo - mas em outros. Canções, momentos, frases, risos. Guardados em diferentes corações, aquilo que um dia já foi de um só.

Não adianta remoer a dor da perda. Nem adianta manter o espasmo da notícia. Aliás, nada adianta depois que tudo se foi. O difícil é acreditar.

Não dá para crer em algo desconhecido. Não dá para pensar que, de fato, aconteceu. Impossível aceitar a possibilidade de nunca mais ouvir aquela voz, de nunca mais olhar àquela expressão. De nunca mais tocar, ou ser tocado.

Uma gravação, uma foto, um vídeo. Ok, são resquícios do que se foi. Mas nunca, nunca, serão capazes de trazer de volta a matéria. Trazem de volta, e à tona, as lembranças. Quantas músicas não ouvimos daqueles cujas vozes não criam outras palavras? Quantas fotos de seres que agora se esvaem e não mais podem ser vistos? Quantos escritos deixados? Provocam imensa dor. Provocam imensa nostalgia. Provocam a presença da ausência e pior: a certeza da ausência. Provocam saudades.

De certa forma, nos deixamos, nos marcamos em outros - sejam objetos ou pessoas - como forma de se perpetuar. De não sermos esquecidos, de não cairmos no breu infinito daqueles que já não fazem parte da memória de ninguém.

Muitas vezes já pensei que o medo da morte seria mais um medo do esquecimento do que da própria perda de vida. Ninguém quer adentrar ao desconhecido, por mais corajoso que se diga ser. Somos, todos, carentes e covardes. Ninguém quer, também, que uma existência tão sem sentido, como parece ser, muitas vezes, a da vida, culmine em uma insensatez perversa.

Valer a pena é o que se divulga por aí. Valer a pena. Cultivar a felicidade. Ser constante, presente, pulsante a todo momento. Exalar energia, absorver pelos poros todas as mais singelas manifestações do mundo. Todas. Tudo no infinitivo. Ou imperativo. Nunca, mas nunca, no gerúndio - não temos tempo para manter ações constantes.

Viver tanto e tudo como forma prática de não se lembrar da morte. Escrever sobre ela, então, pior ainda! Onde já se viu?! Falar de algo tão pessimista, tão sombrio, tão gelado e que agora mesmo foi capaz de trazer um arrepio às espinhas? Um sopro frio às costelas...

Aliás, como pode você, menina, com tanta saúde e vida pela frente parar e dedicar seu tempo para escrever sobre aquela coisa a que estamos fadados e, que, na melhor das hipóteses, não deve ser dita. Ou melhor, pior ainda você, com tantas idéias pela cabeça, tantas obras-primas a serem lidas, tantos filmes de diretores conceituados a serem vistos e mais: tantos trabalhos a serem feitos (o fim do semestre se aproxima, você vai ficar aqui lendo e deixando tudo para última hora?!), gastar um tempo do seu dia lendo alguém falar da morte.

Gastar seu tempo. O tempo vai, foi, e, já falei: perdeu-se agora mesmo, neste instante. Tempo da sua vida acaba de passar e você lendo sobre a morte. E eu aqui escrevendo. Imagine, que atentado faz essa garota, dizendo que morreremos! Acusando-nos à morte, assim, tão explicitamente.

É... Há quem a espere. Há quem prefira esquecê-la. Há quem festeje seu dia ou quem em prantos se afogue. Há quem a aceite. Há quem a negue. Não importa. Ela virá para todos. E para tudo. Falemos ou não, ela tá aí. Ela chega numa conversa inesperada ao telefone.

De repente, não mais que de repente, somos abalados por um "lembra de fulano? Pois é...". E somos abalados justamente pela exigência do viver, que apita a cada instante: será que teremos tempo suficiente para fazermos tudo que nossas cabeças malucas se propõem a fazer? Será que ele teve tempo suficiente para me mostrar tudo que eu seria capaz de perceber?

Será que teremos tempo para a poesia da vida enquanto escrevo aqui, em prosa, a morte?

Breve - assim parece ser a vida.
E, também, o instante da morte.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Leia-tudo-continue-lendo-leia-leia-aí-embaixo

"Garagem";
"Rua Maria Alfreda";
"Aluga-se apartamento";

"Velocidade KM/h";
"Delicie-se com o novo suco HuuumAh";
"Contratamos faixineira".

"Feira de filhotes!";
"Doe sangue!";
"Prefeitura de São Paulo: trabalhando por você";
"6245 - Pça. da Bandeira".

"Novo empreendimento imobiliário: consulte os preços acessíveis!";
"PARE";
"Não pare o carro no cruzamento";
"Estacionamento 24h";

"Suco
Picolé
Água de Coco
Tapioca
Caldo de Cana
Pastel
Carne
Queijo
Pizza
Frango
Escarola";

"Entrada à direita";
"Identifique-se - tenha o RG em mãos";
"Sorria: você está sendo filmado";
"Térreo";
"Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar".

"Consultório dra. Maria Antônia";
"Mônica";
"Gelada Fria";
"Ah-ma-ga-li não sei co-mo vo-cê con-se-gue co-mer tan-to e não en-gor-dar";
"É mesmo?";
"Aliás... tem tanta coisa que a gente não consegue entender...";
"Ué, cadê meu pedaço de pizza?".

- Ai, mãe, vai demorar? Eu não consigo parar de ler tudo que aparece na minha frente!

Disse a menina que acabara de aprender a ler, com seus pés balançando e sentadinha no sofá a espera de ser atendida.

[E que continuou lendo tudo que aparece na sua frente, mesmo depois de anos]

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Televisãozão

Era a primeira vez que seria levada ao cinema. Apesar da insistência, sua mãe sabia que seria impossível lidar com a impaciência da menina, de apenas 2 anos, durante uma hora ou mais de filme. Adiou ao máximo para que este dia chegasse, mas não conseguiu.

Pular durante a sessão, sair gritando comentários do filme, assustar-se, derrubar toda pipoca - estas seriam apenas algumas das reações possíveis imaginadas pela mãe, que com certeza, se concretizariam caso a levasse para ver um filme antes que fosse lançado em VHS (naquela época não havia DVD). Não se concretizaram.

O filme era Alladin. As luzes se apagaram. A tela, enorme, já havia sido alvo de espanto para a menina. Os trailers começaram.

Ela se levantou, esticou seus braços ao máximo, como se quisesse abraçar o retângulo branco a sua frente, e disse:

- Nossa! Que televisãozão!

Depois sentou-se, e, calada, assistiu ao seu primeiro - de muitos - filme na telona. Comportadíssima e espantada com a magia do cinema.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Condenado

Estava destinado a ter um cachorro Cocker sem graça, uma mulher que mimasse o cachorro Cocker sem graça, uma filha com aparelho nos dentes viciada em video-game que também mimasse o cachorro sem graça. (E ninguém que o mimasse - apenas que pedisse para ele também mimar o cachorro Cocker sem graça)

Ia acordar às 6h, todos os dias, bater cartão como funcionário de uma repartição pública, tomar cafezinho todas as tardes na copa. Cumprimentar o porteiro, voltar para casa, levar o cachorro para passear e dar mais jogos para a filha. Visitar a sogra aos domingos, comer a mesma macarronada com frango, ler o jornal de vez em quando e assistir ao Fantástico.

Antes, jovem que era, sonhava com um mundo de possibilidades. Agora, com cabelos grisalhos a surgirem e o maldito Cocker a latir, não entendia no que errara - mas sabia que as possibilidades não eram bem possibilidades, afinal, a escolha seria única e o que se escolheu já era previsto.

Poderia ter aceitado a mudança de país logo num de seus primeiros empregos. Não quis. A mulher o convencera de que não se adaptaria e já estava na hora de ter algo sólido onde sempre vivera. Mudar de país acarretaria um novo começo de vida e se fosse para ter um novo começo de vida que fosse colocando uma menina no mundo.

Poderia ter bebido mais em encontros com os amigos - deixara de entender muitas piadas, foi sério demais. Aliás, levara a vida muito a sério com sua água tônica. Em compensação, não tivera problemas no fígado como alguns de seus companheiros. Nem problemas no casamento.

Antes não sabia o que seria dele. Poderia saber, mas preferia optar pelo desconhecido. Não acreditava em destino. Agora, tinha a certeza de qual seria seu futuro.

Continuaria tendo que aguentar o cachorro maledeto, passear no parque com a filha depois de muita insistência de sua esposa, levar a menina ao dentista, comprar aquela bota de cano alto de presente de aniversário para a mulher, passar sempre no jornaleiro - folhear todas as revistas - e sair com o mesmo jornal, carimbar os processos que se acumulavam em sua mesa, e beber água tônica.

A certeza de saber o futuro transformou as peripécias do destino em algo tão óbvio que preferia, mas não admitia, ter a incerteza que sempre tivera.

Preferia, no fundo no fundo, poder jogar de lado toda aquela previsão do que a que estaria fadado - seja lá o que isso fosse. Era tarde. Estava condenado.

domingo, 5 de abril de 2009

Trilha Sonora

Quando o inverno chegar, eu quero estar junto a ti. Pode o outono voltar, eu quero estar junto a ti. Todo feliz, ele ia cantarolando Tim Maia no caminho de volta à casa. Depois de um dia de trabalho seguido por aulas, cansado, tinha que andar por várias ruas até chegar ao seu destino final. Não era problema. Tinha na melodia uma bela companhia.

Logo após entrar em sua rua, percebeu que a vizinha, desde o portão, exaltada, o chamava.

-Você soube do seu tio?

O menino, que tinha uns 15 anos, sabia bem do seu tio Eustáquio, de 39, internado, por problemas no fígado. Sempre bebera. Apesar de receber milhares de conselhos para que parasse com o vício, nunca dera ouvidos. Nem mesmo quando a doença se agravou: insistia na companhia etílica, enquanto desistia da companhia de dona Iracema - que mesmo depois de anos namorando, nunca conseguira convencê-lo de se casarem. Ele era teimoso, mas adorava o sobrinho. Ela esperançosa, e sempre comprava balas para o menino.

- O que aconteceu? - disse, enquanto pensava nos versos seguintes de Primavera.

- Morreu.

Assim mesmo, seca, soltou o acontecimento do dia que pairava sobre a vizinhança. A música parou. As imagens do tio, como em flashbacks, atingiram sua mente. Aquela música nunca mais seria a mesma.

Anos depois - muitos, diga-se de passagem - a voz do Tim Maia invadiu o carro que dirigia. Com sua filha ao lado, lembrou-se do episódio.

Engraçado como que músicas acompanham momentos de nossas vidas e marcam para sempre situações.

Não tem jeito. Algumas inexoravelmente estarão atreladas às passagens fortes em que foram ouvidas. Ou nem precisam ser passagens tão fortes assim.

Em um feriado chuvoso, na praia, lá estava eu - escrevendo. Não sozinha, acompanhada por uma grande amiga, e a letra de I Will Survive nunca mais foi a mesma. Um fim-de-semana no sítio e Pedra Letícia nunca mais será a mesma.

Até Maria Chiquinha me faz lembrar um certo karaokê de quando pequena. Nunca mais é a mesma. Claro que Dancin´Days lembra outro karaokê de quando mais grande - só que ainda pequena. Aliás, karaokês marcam noites e músicas. Cantar marca noites e músicas. Mesmo que cantemos tudo errado - e Dig-Dig-Joy sempre virá com um caubói.

Tem também as músicas que marcam épocas. Não vou falar da MPB e a ditadura. Não me marcou com tanta intensidade assim. Mas se ouvir Cartomante inevitavelmente lembrarei da minha mãe, emocionada, lembrando do tempo em que corria dos cavalos em plenas passeatas de São Paulo, lembrando das amizades que perdera para nunca mais.

Para mim, as épocas são mais singelas. Menores, claro. Mas não de menos importância. Mais fácil: época são fases. E das mais variadas, incluindo, sem ter porque esconder, bandinhas de punk-rock, micareteiros ou até Boate Azul. Não, meu passado não me condena. Apenas me faz rir. Isso é bom.

Há ainda as músicas que lembram pessoas. Marvin, por exemplo, para mim é um nome de peixinho laranja - e então a música me faz lembrar seu dono. Não tem jeito. Sem contar aquelas que se ouve ao lado de alguém. Ou de alguéns. Pronto. Ficarão marcadas.

Se alguém quiser dar uma serventia às músicas, com certeza é embaralhar nossas vidas à arte. Não é a toa que em filmes sempre há trilhas sonoras. Para que agora, confusa, eu diga que elas formam nossa trilha sonora miscelânica. Única e especial.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Minutos Divagados

Ouvi dizer que escrever em primeira pessoa é mais difícil e que a partir do momento em que se escreve em primeira pessoa, você estará apto para escrever em qualquer outra pessoa e sob qualquer outra fachada.

Para mim existe apenas a dificuldade de aceitar o que realmente se quer dizer e o de dar as caras para quaisquer que sejam as consequencias posteriores ao derramamento das palavras. Colocar em terceira pessoa facilita as horas depois. Evita a posição de culpado.

Quem disse foi ele, quem fez foi ele, ele que acha isso ou aquilo. Mesmo que ele seja um eu disfarçado. Discorrendo ainda sobre aquilo que escrevi no texto anterior (e isso me faz lembrar a prateleira dos dias em que estas doses estão organizadas), acredito que a mudança desses últimos dias se deram justamente a isso: a terceira pessoa resolveu não ser mais personagem.

O abandono do outro me faz parecer bem mais sem graça. Para quê ler aquilo que ela pensa e diz, assim mesmo - sem cuidado nenhum, na primeira pessoa?

Para deixar bem claro a fronteira da ficção. Ficção, esta, no entanto, que muitas vezes é bem verdade.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

segunda-feira, 30 de março de 2009

Segundos Divagados

Faz tempo que não escrevo histórias. Faz tempo que a terceira pessoa resolve não ser mais personagem - mesmo que essa terceira pessoa seja a primeira, disfarçada.

Engraçado seria se tivesse a capacidade de falar, falar, falar, juntar as falas, linkar tudo em um texto só que faça sentido - por menos que esse sentido pareça imperceptível. Na verdade, eu tenho. Todos têm. Mas é uma capacidade que nesses tempos em que tudo tem que fazer sentido e se não fizer, algo há de errado; que apenas o óbvio do sentido acaba sendo valorizado.

E aí, pensa-se menos - porque pensar dá trabalho. Lê-se menos - porque ler coisa que é preciso reler cansa. Faz-se menos.

Está vendo? Foi nessa de pensar-ler-fazer menos que as coisas ficam paradas. E ficam paradas esperando sempre uma forma mais óbvia de surgir. Mais fácil, menos complicada.

Aliás, isso do óbvio é uma coisa que para mim parece óbvia. Mas não é (porque se fosse todos pensariam que não é óbvio, que é o que acontece na maioria das vezes).

Se está muito subjetivo e você não entendeu isso do óbvio, então vou dar o exemplo mais óbvio para que você veja como parece difícil mas na verdade é o meu óbvio, então é fácil.

Tem aqueeeeeela pessoa que todos acham ma-ra-vi-lin-da. Isso é óbvio. A beleza é óbvia. Só que a beleza óbvia é chata. Extremamente chata. Afinal, a pessoa é linda, mas é chata. Logo, você e mais trinta foram levados pela beleza óbvia e - se por sorte, ou, pensando bem, azar - a pessoa da beleza óbvia acaba escolhendo você e deixando as outras 29 simplesmente por você, você aguenta a pessoa da beleza óbvia e descobre o quão ela é chata.

E aí se frustra. A frustração é uma das piores coisas que existem, eu acho. Só que as pessoas só se frustram por criarem expectativas muito altas. Mas se você não cria expectativa, então o que será o motor para a vida e para as situações futuras? Ou o problema está aí na palavrinha que envolve o futuro?

Tempo é uma coisa legal. Ninguém sabe o que ele é, ninguém sabe o que é o passado nem o futuro. O futuro menos ainda, porque ele vira presente num piscar de olhos - mesmo tempo em que vira passado.

Uma vez me disseram que Tempo poderia ser Deus. Deus, quero dizer, é o tempo. Foi a mesma pessoa que falou que o céu é, talvez, a coisa mais linda do mundo. Na verdade não sei se o adjetivo foi esse - linda - mas que me fez reparar cada vez mais do céu, ah, isso fez.

E vale a pena. Sempre que você olhar para o céu será uma visão única. Pode passar um segundo e o céu não será mais o mesmo. E se você pensar na variedade de cores que existem nessa palheta que ronda sobre nossas cabeças? É única!

Voltando um pouco à questão do céu e do tempo, não é só o céu que muda a cada segundo. É tudo. Quando eu falo tudo é porque é tudo de verdade.

Isso é um pouco assustador. Se nada fica, então por que querer deixar algo que pareça eterno? Por que construir algo que seja para sempre? Sempre não existe, oras!

Ou melhor, sempre existe em uma fração de segundo. Em uns minutos. Agora.