Era a primeira vez que seria levada ao cinema. Apesar da insistência, sua mãe sabia que seria impossível lidar com a impaciência da menina, de apenas 2 anos, durante uma hora ou mais de filme. Adiou ao máximo para que este dia chegasse, mas não conseguiu.
Pular durante a sessão, sair gritando comentários do filme, assustar-se, derrubar toda pipoca - estas seriam apenas algumas das reações possíveis imaginadas pela mãe, que com certeza, se concretizariam caso a levasse para ver um filme antes que fosse lançado em VHS (naquela época não havia DVD). Não se concretizaram.
O filme era Alladin. As luzes se apagaram. A tela, enorme, já havia sido alvo de espanto para a menina. Os trailers começaram.
Ela se levantou, esticou seus braços ao máximo, como se quisesse abraçar o retângulo branco a sua frente, e disse:
- Nossa! Que televisãozão!
Depois sentou-se, e, calada, assistiu ao seu primeiro - de muitos - filme na telona. Comportadíssima e espantada com a magia do cinema.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
terça-feira, 7 de abril de 2009
Condenado
Estava destinado a ter um cachorro Cocker sem graça, uma mulher que mimasse o cachorro Cocker sem graça, uma filha com aparelho nos dentes viciada em video-game que também mimasse o cachorro sem graça. (E ninguém que o mimasse - apenas que pedisse para ele também mimar o cachorro Cocker sem graça)
Ia acordar às 6h, todos os dias, bater cartão como funcionário de uma repartição pública, tomar cafezinho todas as tardes na copa. Cumprimentar o porteiro, voltar para casa, levar o cachorro para passear e dar mais jogos para a filha. Visitar a sogra aos domingos, comer a mesma macarronada com frango, ler o jornal de vez em quando e assistir ao Fantástico.
Antes, jovem que era, sonhava com um mundo de possibilidades. Agora, com cabelos grisalhos a surgirem e o maldito Cocker a latir, não entendia no que errara - mas sabia que as possibilidades não eram bem possibilidades, afinal, a escolha seria única e o que se escolheu já era previsto.
Poderia ter aceitado a mudança de país logo num de seus primeiros empregos. Não quis. A mulher o convencera de que não se adaptaria e já estava na hora de ter algo sólido onde sempre vivera. Mudar de país acarretaria um novo começo de vida e se fosse para ter um novo começo de vida que fosse colocando uma menina no mundo.
Poderia ter bebido mais em encontros com os amigos - deixara de entender muitas piadas, foi sério demais. Aliás, levara a vida muito a sério com sua água tônica. Em compensação, não tivera problemas no fígado como alguns de seus companheiros. Nem problemas no casamento.
Antes não sabia o que seria dele. Poderia saber, mas preferia optar pelo desconhecido. Não acreditava em destino. Agora, tinha a certeza de qual seria seu futuro.
Continuaria tendo que aguentar o cachorro maledeto, passear no parque com a filha depois de muita insistência de sua esposa, levar a menina ao dentista, comprar aquela bota de cano alto de presente de aniversário para a mulher, passar sempre no jornaleiro - folhear todas as revistas - e sair com o mesmo jornal, carimbar os processos que se acumulavam em sua mesa, e beber água tônica.
A certeza de saber o futuro transformou as peripécias do destino em algo tão óbvio que preferia, mas não admitia, ter a incerteza que sempre tivera.
Preferia, no fundo no fundo, poder jogar de lado toda aquela previsão do que a que estaria fadado - seja lá o que isso fosse. Era tarde. Estava condenado.
Ia acordar às 6h, todos os dias, bater cartão como funcionário de uma repartição pública, tomar cafezinho todas as tardes na copa. Cumprimentar o porteiro, voltar para casa, levar o cachorro para passear e dar mais jogos para a filha. Visitar a sogra aos domingos, comer a mesma macarronada com frango, ler o jornal de vez em quando e assistir ao Fantástico.
Antes, jovem que era, sonhava com um mundo de possibilidades. Agora, com cabelos grisalhos a surgirem e o maldito Cocker a latir, não entendia no que errara - mas sabia que as possibilidades não eram bem possibilidades, afinal, a escolha seria única e o que se escolheu já era previsto.
Poderia ter aceitado a mudança de país logo num de seus primeiros empregos. Não quis. A mulher o convencera de que não se adaptaria e já estava na hora de ter algo sólido onde sempre vivera. Mudar de país acarretaria um novo começo de vida e se fosse para ter um novo começo de vida que fosse colocando uma menina no mundo.
Poderia ter bebido mais em encontros com os amigos - deixara de entender muitas piadas, foi sério demais. Aliás, levara a vida muito a sério com sua água tônica. Em compensação, não tivera problemas no fígado como alguns de seus companheiros. Nem problemas no casamento.
Antes não sabia o que seria dele. Poderia saber, mas preferia optar pelo desconhecido. Não acreditava em destino. Agora, tinha a certeza de qual seria seu futuro.
Continuaria tendo que aguentar o cachorro maledeto, passear no parque com a filha depois de muita insistência de sua esposa, levar a menina ao dentista, comprar aquela bota de cano alto de presente de aniversário para a mulher, passar sempre no jornaleiro - folhear todas as revistas - e sair com o mesmo jornal, carimbar os processos que se acumulavam em sua mesa, e beber água tônica.
A certeza de saber o futuro transformou as peripécias do destino em algo tão óbvio que preferia, mas não admitia, ter a incerteza que sempre tivera.
Preferia, no fundo no fundo, poder jogar de lado toda aquela previsão do que a que estaria fadado - seja lá o que isso fosse. Era tarde. Estava condenado.
domingo, 5 de abril de 2009
Trilha Sonora
Quando o inverno chegar, eu quero estar junto a ti. Pode o outono voltar, eu quero estar junto a ti. Todo feliz, ele ia cantarolando Tim Maia no caminho de volta à casa. Depois de um dia de trabalho seguido por aulas, cansado, tinha que andar por várias ruas até chegar ao seu destino final. Não era problema. Tinha na melodia uma bela companhia.
Logo após entrar em sua rua, percebeu que a vizinha, desde o portão, exaltada, o chamava.
-Você soube do seu tio?
O menino, que tinha uns 15 anos, sabia bem do seu tio Eustáquio, de 39, internado, por problemas no fígado. Sempre bebera. Apesar de receber milhares de conselhos para que parasse com o vício, nunca dera ouvidos. Nem mesmo quando a doença se agravou: insistia na companhia etílica, enquanto desistia da companhia de dona Iracema - que mesmo depois de anos namorando, nunca conseguira convencê-lo de se casarem. Ele era teimoso, mas adorava o sobrinho. Ela esperançosa, e sempre comprava balas para o menino.
- O que aconteceu? - disse, enquanto pensava nos versos seguintes de Primavera.
- Morreu.
Assim mesmo, seca, soltou o acontecimento do dia que pairava sobre a vizinhança. A música parou. As imagens do tio, como em flashbacks, atingiram sua mente. Aquela música nunca mais seria a mesma.
Anos depois - muitos, diga-se de passagem - a voz do Tim Maia invadiu o carro que dirigia. Com sua filha ao lado, lembrou-se do episódio.
Engraçado como que músicas acompanham momentos de nossas vidas e marcam para sempre situações.
Não tem jeito. Algumas inexoravelmente estarão atreladas às passagens fortes em que foram ouvidas. Ou nem precisam ser passagens tão fortes assim.
Em um feriado chuvoso, na praia, lá estava eu - escrevendo. Não sozinha, acompanhada por uma grande amiga, e a letra de I Will Survive nunca mais foi a mesma. Um fim-de-semana no sítio e Pedra Letícia nunca mais será a mesma.
Até Maria Chiquinha me faz lembrar um certo karaokê de quando pequena. Nunca mais é a mesma. Claro que Dancin´Days lembra outro karaokê de quando mais grande - só que ainda pequena. Aliás, karaokês marcam noites e músicas. Cantar marca noites e músicas. Mesmo que cantemos tudo errado - e Dig-Dig-Joy sempre virá com um caubói.
Tem também as músicas que marcam épocas. Não vou falar da MPB e a ditadura. Não me marcou com tanta intensidade assim. Mas se ouvir Cartomante inevitavelmente lembrarei da minha mãe, emocionada, lembrando do tempo em que corria dos cavalos em plenas passeatas de São Paulo, lembrando das amizades que perdera para nunca mais.
Para mim, as épocas são mais singelas. Menores, claro. Mas não de menos importância. Mais fácil: época são fases. E das mais variadas, incluindo, sem ter porque esconder, bandinhas de punk-rock, micareteiros ou até Boate Azul. Não, meu passado não me condena. Apenas me faz rir. Isso é bom.
Há ainda as músicas que lembram pessoas. Marvin, por exemplo, para mim é um nome de peixinho laranja - e então a música me faz lembrar seu dono. Não tem jeito. Sem contar aquelas que se ouve ao lado de alguém. Ou de alguéns. Pronto. Ficarão marcadas.
Se alguém quiser dar uma serventia às músicas, com certeza é embaralhar nossas vidas à arte. Não é a toa que em filmes sempre há trilhas sonoras. Para que agora, confusa, eu diga que elas formam nossa trilha sonora miscelânica. Única e especial.
Logo após entrar em sua rua, percebeu que a vizinha, desde o portão, exaltada, o chamava.
-Você soube do seu tio?
O menino, que tinha uns 15 anos, sabia bem do seu tio Eustáquio, de 39, internado, por problemas no fígado. Sempre bebera. Apesar de receber milhares de conselhos para que parasse com o vício, nunca dera ouvidos. Nem mesmo quando a doença se agravou: insistia na companhia etílica, enquanto desistia da companhia de dona Iracema - que mesmo depois de anos namorando, nunca conseguira convencê-lo de se casarem. Ele era teimoso, mas adorava o sobrinho. Ela esperançosa, e sempre comprava balas para o menino.
- O que aconteceu? - disse, enquanto pensava nos versos seguintes de Primavera.
- Morreu.
Assim mesmo, seca, soltou o acontecimento do dia que pairava sobre a vizinhança. A música parou. As imagens do tio, como em flashbacks, atingiram sua mente. Aquela música nunca mais seria a mesma.
Anos depois - muitos, diga-se de passagem - a voz do Tim Maia invadiu o carro que dirigia. Com sua filha ao lado, lembrou-se do episódio.
Engraçado como que músicas acompanham momentos de nossas vidas e marcam para sempre situações.
Não tem jeito. Algumas inexoravelmente estarão atreladas às passagens fortes em que foram ouvidas. Ou nem precisam ser passagens tão fortes assim.
Em um feriado chuvoso, na praia, lá estava eu - escrevendo. Não sozinha, acompanhada por uma grande amiga, e a letra de I Will Survive nunca mais foi a mesma. Um fim-de-semana no sítio e Pedra Letícia nunca mais será a mesma.
Até Maria Chiquinha me faz lembrar um certo karaokê de quando pequena. Nunca mais é a mesma. Claro que Dancin´Days lembra outro karaokê de quando mais grande - só que ainda pequena. Aliás, karaokês marcam noites e músicas. Cantar marca noites e músicas. Mesmo que cantemos tudo errado - e Dig-Dig-Joy sempre virá com um caubói.
Tem também as músicas que marcam épocas. Não vou falar da MPB e a ditadura. Não me marcou com tanta intensidade assim. Mas se ouvir Cartomante inevitavelmente lembrarei da minha mãe, emocionada, lembrando do tempo em que corria dos cavalos em plenas passeatas de São Paulo, lembrando das amizades que perdera para nunca mais.
Para mim, as épocas são mais singelas. Menores, claro. Mas não de menos importância. Mais fácil: época são fases. E das mais variadas, incluindo, sem ter porque esconder, bandinhas de punk-rock, micareteiros ou até Boate Azul. Não, meu passado não me condena. Apenas me faz rir. Isso é bom.
Há ainda as músicas que lembram pessoas. Marvin, por exemplo, para mim é um nome de peixinho laranja - e então a música me faz lembrar seu dono. Não tem jeito. Sem contar aquelas que se ouve ao lado de alguém. Ou de alguéns. Pronto. Ficarão marcadas.
Se alguém quiser dar uma serventia às músicas, com certeza é embaralhar nossas vidas à arte. Não é a toa que em filmes sempre há trilhas sonoras. Para que agora, confusa, eu diga que elas formam nossa trilha sonora miscelânica. Única e especial.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Minutos Divagados
Ouvi dizer que escrever em primeira pessoa é mais difícil e que a partir do momento em que se escreve em primeira pessoa, você estará apto para escrever em qualquer outra pessoa e sob qualquer outra fachada.
Para mim existe apenas a dificuldade de aceitar o que realmente se quer dizer e o de dar as caras para quaisquer que sejam as consequencias posteriores ao derramamento das palavras. Colocar em terceira pessoa facilita as horas depois. Evita a posição de culpado.
Quem disse foi ele, quem fez foi ele, ele que acha isso ou aquilo. Mesmo que ele seja um eu disfarçado. Discorrendo ainda sobre aquilo que escrevi no texto anterior (e isso me faz lembrar a prateleira dos dias em que estas doses estão organizadas), acredito que a mudança desses últimos dias se deram justamente a isso: a terceira pessoa resolveu não ser mais personagem.
O abandono do outro me faz parecer bem mais sem graça. Para quê ler aquilo que ela pensa e diz, assim mesmo - sem cuidado nenhum, na primeira pessoa?
Para deixar bem claro a fronteira da ficção. Ficção, esta, no entanto, que muitas vezes é bem verdade.
Para mim existe apenas a dificuldade de aceitar o que realmente se quer dizer e o de dar as caras para quaisquer que sejam as consequencias posteriores ao derramamento das palavras. Colocar em terceira pessoa facilita as horas depois. Evita a posição de culpado.
Quem disse foi ele, quem fez foi ele, ele que acha isso ou aquilo. Mesmo que ele seja um eu disfarçado. Discorrendo ainda sobre aquilo que escrevi no texto anterior (e isso me faz lembrar a prateleira dos dias em que estas doses estão organizadas), acredito que a mudança desses últimos dias se deram justamente a isso: a terceira pessoa resolveu não ser mais personagem.
O abandono do outro me faz parecer bem mais sem graça. Para quê ler aquilo que ela pensa e diz, assim mesmo - sem cuidado nenhum, na primeira pessoa?
Para deixar bem claro a fronteira da ficção. Ficção, esta, no entanto, que muitas vezes é bem verdade.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
segunda-feira, 30 de março de 2009
Segundos Divagados
Faz tempo que não escrevo histórias. Faz tempo que a terceira pessoa resolve não ser mais personagem - mesmo que essa terceira pessoa seja a primeira, disfarçada.
Engraçado seria se tivesse a capacidade de falar, falar, falar, juntar as falas, linkar tudo em um texto só que faça sentido - por menos que esse sentido pareça imperceptível. Na verdade, eu tenho. Todos têm. Mas é uma capacidade que nesses tempos em que tudo tem que fazer sentido e se não fizer, algo há de errado; que apenas o óbvio do sentido acaba sendo valorizado.
E aí, pensa-se menos - porque pensar dá trabalho. Lê-se menos - porque ler coisa que é preciso reler cansa. Faz-se menos.
Está vendo? Foi nessa de pensar-ler-fazer menos que as coisas ficam paradas. E ficam paradas esperando sempre uma forma mais óbvia de surgir. Mais fácil, menos complicada.
Aliás, isso do óbvio é uma coisa que para mim parece óbvia. Mas não é (porque se fosse todos pensariam que não é óbvio, que é o que acontece na maioria das vezes).
Se está muito subjetivo e você não entendeu isso do óbvio, então vou dar o exemplo mais óbvio para que você veja como parece difícil mas na verdade é o meu óbvio, então é fácil.
Tem aqueeeeeela pessoa que todos acham ma-ra-vi-lin-da. Isso é óbvio. A beleza é óbvia. Só que a beleza óbvia é chata. Extremamente chata. Afinal, a pessoa é linda, mas é chata. Logo, você e mais trinta foram levados pela beleza óbvia e - se por sorte, ou, pensando bem, azar - a pessoa da beleza óbvia acaba escolhendo você e deixando as outras 29 simplesmente por você, você aguenta a pessoa da beleza óbvia e descobre o quão ela é chata.
E aí se frustra. A frustração é uma das piores coisas que existem, eu acho. Só que as pessoas só se frustram por criarem expectativas muito altas. Mas se você não cria expectativa, então o que será o motor para a vida e para as situações futuras? Ou o problema está aí na palavrinha que envolve o futuro?
Tempo é uma coisa legal. Ninguém sabe o que ele é, ninguém sabe o que é o passado nem o futuro. O futuro menos ainda, porque ele vira presente num piscar de olhos - mesmo tempo em que vira passado.
Uma vez me disseram que Tempo poderia ser Deus. Deus, quero dizer, é o tempo. Foi a mesma pessoa que falou que o céu é, talvez, a coisa mais linda do mundo. Na verdade não sei se o adjetivo foi esse - linda - mas que me fez reparar cada vez mais do céu, ah, isso fez.
E vale a pena. Sempre que você olhar para o céu será uma visão única. Pode passar um segundo e o céu não será mais o mesmo. E se você pensar na variedade de cores que existem nessa palheta que ronda sobre nossas cabeças? É única!
Voltando um pouco à questão do céu e do tempo, não é só o céu que muda a cada segundo. É tudo. Quando eu falo tudo é porque é tudo de verdade.
Isso é um pouco assustador. Se nada fica, então por que querer deixar algo que pareça eterno? Por que construir algo que seja para sempre? Sempre não existe, oras!
Ou melhor, sempre existe em uma fração de segundo. Em uns minutos. Agora.
Engraçado seria se tivesse a capacidade de falar, falar, falar, juntar as falas, linkar tudo em um texto só que faça sentido - por menos que esse sentido pareça imperceptível. Na verdade, eu tenho. Todos têm. Mas é uma capacidade que nesses tempos em que tudo tem que fazer sentido e se não fizer, algo há de errado; que apenas o óbvio do sentido acaba sendo valorizado.
E aí, pensa-se menos - porque pensar dá trabalho. Lê-se menos - porque ler coisa que é preciso reler cansa. Faz-se menos.
Está vendo? Foi nessa de pensar-ler-fazer menos que as coisas ficam paradas. E ficam paradas esperando sempre uma forma mais óbvia de surgir. Mais fácil, menos complicada.
Aliás, isso do óbvio é uma coisa que para mim parece óbvia. Mas não é (porque se fosse todos pensariam que não é óbvio, que é o que acontece na maioria das vezes).
Se está muito subjetivo e você não entendeu isso do óbvio, então vou dar o exemplo mais óbvio para que você veja como parece difícil mas na verdade é o meu óbvio, então é fácil.
Tem aqueeeeeela pessoa que todos acham ma-ra-vi-lin-da. Isso é óbvio. A beleza é óbvia. Só que a beleza óbvia é chata. Extremamente chata. Afinal, a pessoa é linda, mas é chata. Logo, você e mais trinta foram levados pela beleza óbvia e - se por sorte, ou, pensando bem, azar - a pessoa da beleza óbvia acaba escolhendo você e deixando as outras 29 simplesmente por você, você aguenta a pessoa da beleza óbvia e descobre o quão ela é chata.
E aí se frustra. A frustração é uma das piores coisas que existem, eu acho. Só que as pessoas só se frustram por criarem expectativas muito altas. Mas se você não cria expectativa, então o que será o motor para a vida e para as situações futuras? Ou o problema está aí na palavrinha que envolve o futuro?
Tempo é uma coisa legal. Ninguém sabe o que ele é, ninguém sabe o que é o passado nem o futuro. O futuro menos ainda, porque ele vira presente num piscar de olhos - mesmo tempo em que vira passado.
Uma vez me disseram que Tempo poderia ser Deus. Deus, quero dizer, é o tempo. Foi a mesma pessoa que falou que o céu é, talvez, a coisa mais linda do mundo. Na verdade não sei se o adjetivo foi esse - linda - mas que me fez reparar cada vez mais do céu, ah, isso fez.
E vale a pena. Sempre que você olhar para o céu será uma visão única. Pode passar um segundo e o céu não será mais o mesmo. E se você pensar na variedade de cores que existem nessa palheta que ronda sobre nossas cabeças? É única!
Voltando um pouco à questão do céu e do tempo, não é só o céu que muda a cada segundo. É tudo. Quando eu falo tudo é porque é tudo de verdade.
Isso é um pouco assustador. Se nada fica, então por que querer deixar algo que pareça eterno? Por que construir algo que seja para sempre? Sempre não existe, oras!
Ou melhor, sempre existe em uma fração de segundo. Em uns minutos. Agora.
Cão sem dono
Ele não tinha dono. Nem ela.
Ela disse que a vida é feita para sonhar.
Ele, para viver.
Ele era tradutor. De russo.
Ela era modelo. Linda.
Eles se amavam.
Ela ficou doente. Câncer.
Ele entrou em crise. Existencial.
Há tempo pedia para entrar.
Falta dinheiro, falta trabalho, falta vontade.
Faltava ela.
Crise.
Angústia.
Desespero.
Dor dos dois.
Pelo menos, tinham os quadros do porteiro.
E uma possível ida a Barcelona.
[Sinceramente? Depois do filme fiquei meio assim, sei lá - 01.12.08]
[Sinceramente? Estas palavras estavam há tempos perdidas aqui e não sei porque apareceram apenas agora]
domingo, 22 de março de 2009
Cíclico
Começa desse jeito. Com aquela vontade. Você vai, enrola um pouco, diz que não. Vai fazer outra coisa. Passa.
Quando menos espera, volta. Volta mais forte do que nunca. Torna-se incontrolável, uma necessidade. "Preciso". Quero muito. Tem que dar certo dessa vez. Agora vai. Você tenta. Não consegue. Frustrante. Esquece. Dá raiva. Raiva.
Depois de um tempo, vem de novo. Outra vez. Não é possível. Torna-se um desejo incessante. Um vício. Não sai da sua cabeça.
Enquanto você não fizer, não vai sossegar. Vai continuar atrapalhando seu sono, pinicando sua mente. Quer saber? Agora vai mesmo.
Dane-se o que os outros pensarem. Se der errado, não tem problema. Aliás, não tem como dar errado, vem de dentro. De dentro e para dentro.
Não, não tem que ficar pensando. O jeito é encarar o nada, esse branco vazio e fazer isso logo. Você vai ver. Quando menos esperar, aquilo surge. Urge. Aparece.
E alivia.
Dá certo.
Pronto, fiz.
[só que uma coisa é certa: voltará com a mesma força do começo]
Quando menos espera, volta. Volta mais forte do que nunca. Torna-se incontrolável, uma necessidade. "Preciso". Quero muito. Tem que dar certo dessa vez. Agora vai. Você tenta. Não consegue. Frustrante. Esquece. Dá raiva. Raiva.
Depois de um tempo, vem de novo. Outra vez. Não é possível. Torna-se um desejo incessante. Um vício. Não sai da sua cabeça.
Enquanto você não fizer, não vai sossegar. Vai continuar atrapalhando seu sono, pinicando sua mente. Quer saber? Agora vai mesmo.
Dane-se o que os outros pensarem. Se der errado, não tem problema. Aliás, não tem como dar errado, vem de dentro. De dentro e para dentro.
Não, não tem que ficar pensando. O jeito é encarar o nada, esse branco vazio e fazer isso logo. Você vai ver. Quando menos esperar, aquilo surge. Urge. Aparece.
E alivia.
Dá certo.
Pronto, fiz.
[só que uma coisa é certa: voltará com a mesma força do começo]
sexta-feira, 20 de março de 2009
Doses de Sambuteco
Busco inspiração. Atualmente a vida tem se mostrado muito monótona aos meus olhos. Doses de turbulência viriam como a chuva no nordeste, como o sol no litoral.
Não, na verdade, cansei da inspiração. Cansei da idéia de ser inspirada. De ter sempre que superar alguém nessa inspiração. Superar algum objetivo. Superar. Suspirar. Superar. A vida tem se mostrado muito agitada. Tão agitada que o tempo para mim não chega, foge. Doses de turbulências já vieram e - pode acreditar - foram elas que levaram a tal da danada da inspiração, que se encolheu num reduto perdido de minha cabeça e custa sair de lá (em um medo estranho de se compreender).
Tenho pressa. Minha cabeça entra num labirinto e quero que ela saia logo, mais dinâmica.
Não, não tenho pressa. Paira em mim a mais irritante calma do mundo, que implora pra que tudo ao redor pare de achar que tenho pressa, que temos pressa, que se tem pressa. A mesma calma que, por vezes, põe-se em um canto cansada de tentar aparecer. Mascarada de pressa.
Enquanto não ouço, não vejo e não falo; ESCREVO. A fim de desafogar o desassossego. A fim de juntar letras que façam sentido, na rotina da contra-mão!
Não, na verdade, cansei da inspiração. Cansei da idéia de ser inspirada. De ter sempre que superar alguém nessa inspiração. Superar algum objetivo. Superar. Suspirar. Superar. A vida tem se mostrado muito agitada. Tão agitada que o tempo para mim não chega, foge. Doses de turbulências já vieram e - pode acreditar - foram elas que levaram a tal da danada da inspiração, que se encolheu num reduto perdido de minha cabeça e custa sair de lá (em um medo estranho de se compreender).
Tenho pressa. Minha cabeça entra num labirinto e quero que ela saia logo, mais dinâmica.
Não, não tenho pressa. Paira em mim a mais irritante calma do mundo, que implora pra que tudo ao redor pare de achar que tenho pressa, que temos pressa, que se tem pressa. A mesma calma que, por vezes, põe-se em um canto cansada de tentar aparecer. Mascarada de pressa.
Enquanto não ouço, não vejo e não falo; ESCREVO. A fim de desafogar o desassossego. A fim de juntar letras que façam sentido, na rotina da contra-mão!
[texto a quatro mãos, já que não consegui deixar de me intrometer nas palavras dele]
quinta-feira, 5 de março de 2009
Vício do Olhar
Repare bem: as ruas, as pessoas, as árvores, as cores, os movimentos - tudo está aí agora e só agora será visto do jeito que se vê.
Todos estão acostumados àquela rotina que se passa pelos mesmos lugares e se olha às mesmas coisas. A mesma árvore a fazer sombra, o mesmo paralelepípedo torto, a mesma rachadura na parede. Os cabelos, a roupa, as pernas daquelas mesmas pessoas.
Recusam olhar para o novo, o intocável, o desconhecido - e, justamente, quando é o novo quem os encara, desviam os olhos para encarar algo bem menos significante como o vazio do chão.
Uma mente, no mínimo, curiosa permite-se o luxo de se fazer turista na própria cidade. E faz desse o remédio para o tédio.
Bom é poder perceber aquela imperfeição no edifício em que se trabalha, o taco solto nunca antes pisado na sala, um tom de azul escuro no céu. Perceber bem o outro lado da rua. Deixar-se levar pelo olhar ingênuo e quase doce. Permitir-se encarar o desconhecido. Desfazer-se desse vício do olhar.
Arriscar-se e descobrir com a visão novas ruas, pessoas, árvores, cores e movimentos... Mesmo que estes ainda sejam os velhos conhecidos.
Todos estão acostumados àquela rotina que se passa pelos mesmos lugares e se olha às mesmas coisas. A mesma árvore a fazer sombra, o mesmo paralelepípedo torto, a mesma rachadura na parede. Os cabelos, a roupa, as pernas daquelas mesmas pessoas.
Recusam olhar para o novo, o intocável, o desconhecido - e, justamente, quando é o novo quem os encara, desviam os olhos para encarar algo bem menos significante como o vazio do chão.
Uma mente, no mínimo, curiosa permite-se o luxo de se fazer turista na própria cidade. E faz desse o remédio para o tédio.
Bom é poder perceber aquela imperfeição no edifício em que se trabalha, o taco solto nunca antes pisado na sala, um tom de azul escuro no céu. Perceber bem o outro lado da rua. Deixar-se levar pelo olhar ingênuo e quase doce. Permitir-se encarar o desconhecido. Desfazer-se desse vício do olhar.
Arriscar-se e descobrir com a visão novas ruas, pessoas, árvores, cores e movimentos... Mesmo que estes ainda sejam os velhos conhecidos.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Sincronicidade
Chegou em casa e a televisão estava ligada. Sua mãe, cansada, a cumprimentou com um boa noite - deixando a TV cantarolando sozinha - e dirigiu-se para o quarto.
Passou na cozinha, improvisou uma janta com os restos do almoço e se juntou àquela solitária falante. Se dizem que os opostos se atraem, nesse momento, ela discordou: também era uma solitária.
O canal sobre viagens mostrava um programa em que diziam sobre "capim dourado". Lindo. Uma cidade que sobrevive do artesanato feito com esse material que não é plantado: surge da terra brilhando, como um presente, e assim é aproveitado.
O olhar triste da senhora entrevistada, com rugas suadas do trabalho e de sol, paradoxalmente trazia a alegria de uma jovem que acabara de descobrir a beleza da vida. Acolheu-a de tal modo que logo deduziu: só podia ser brasileira.
Depois percebeu que o tal do capim dourado, na verdade, é o produto típico de uma região de Tocantins chamada Jalapão. Era o que mostrava a solitária falante.
O programa, A Gente Vive para Contar Histórias, veiculado pelo Discovery Travel & Living, era, na verdade um documentário dividido em dois episódios.
Naquele momento, ela via o primeiro deles - Jalapão. Não foi só a beleza do lugar que a prendera pelos 22 minutos de duração. Uma voz familiar chamara sua atenção.
Era do quadrinista Gabriel Bá, que há alguns dias havia participado de uma palestra com Laerte em que ela estava presente.
Com a companhia do músico Daniel Daibem e do fotógrafo Alexandre Schneider, eles percorreram as maravilhas ecológicas e toda a riqueza cultural do leste de Tocantins.
O programa terminara com Bá comentando o porquê de Bá: seu irmão não sabia a pronúncia do G, quando pequeno, então apenas o chamava de Binho, Biel, Bá... O tal irmão, Fábio Moon, também estava na palestra. Mas não na mesa. Ele fizera FAAP. E lá apenas estavam ex-ecanos ilustres.
Logo em seguida, começou outro episódio da série. Dessa vez, era a jornalista Daniela Hirsch, o fotógrafo Tuca Reinés e o cinegrafista Sérgio Logullo fazendo o mesmo só que na Chapada das Mesas, no Maranhão.
Um dos locais visitados, a Cachoeira Santa Bárbara, chamara sua atenção. O sol refletia nas águas que refletiam nas rochas, e, juntos, com uma coreografia improvisada, dançavam, fazendo da rigidez em que todo esse reflexo se encostava algo leve, confortável.
Durante a aula que tivera durante aquele dia, comentara sobre a vontade que tinha de voltar a uma cachoeira. Apenas com aquela imagem conseguiu refrescar-se durante aquela noite quente.
Antes de se deitar, resolveu folhear uma revista. Reparou que a foto de capa era de autoria de um Tuca. Coincidência. Resolveu dormir certa de que sonharia com cachoeiras, trilhas, verde e um tênis sujo de lama. Mas não.
Quando acordou a única lembrança que tinha do sonho era de uma festa, dada em uma casa de praia, em que os quadrinistas estavam. No final da festa, ela lhes contou sobre toda essa história, començando pelo "Chegou em casa e a televisão estava ligada" e depois da história, eles haviam desenhado, para ela, em sua agenda (e no dia de seu aniversário), uma menina de costas com ovos de páscoa.
Acordou no dia seguinte e abriu a agenda. A página estava em branco, mas não estavam seus pensamentos que juntara todos esses episódios em uma rede de sincronicidades que só a fez surpreender-se uma vez mais com a chamada vida.
Passou na cozinha, improvisou uma janta com os restos do almoço e se juntou àquela solitária falante. Se dizem que os opostos se atraem, nesse momento, ela discordou: também era uma solitária.
O canal sobre viagens mostrava um programa em que diziam sobre "capim dourado". Lindo. Uma cidade que sobrevive do artesanato feito com esse material que não é plantado: surge da terra brilhando, como um presente, e assim é aproveitado.
O olhar triste da senhora entrevistada, com rugas suadas do trabalho e de sol, paradoxalmente trazia a alegria de uma jovem que acabara de descobrir a beleza da vida. Acolheu-a de tal modo que logo deduziu: só podia ser brasileira.
Depois percebeu que o tal do capim dourado, na verdade, é o produto típico de uma região de Tocantins chamada Jalapão. Era o que mostrava a solitária falante.
O programa, A Gente Vive para Contar Histórias, veiculado pelo Discovery Travel & Living, era, na verdade um documentário dividido em dois episódios.
Naquele momento, ela via o primeiro deles - Jalapão. Não foi só a beleza do lugar que a prendera pelos 22 minutos de duração. Uma voz familiar chamara sua atenção.
Era do quadrinista Gabriel Bá, que há alguns dias havia participado de uma palestra com Laerte em que ela estava presente.
Com a companhia do músico Daniel Daibem e do fotógrafo Alexandre Schneider, eles percorreram as maravilhas ecológicas e toda a riqueza cultural do leste de Tocantins.
O programa terminara com Bá comentando o porquê de Bá: seu irmão não sabia a pronúncia do G, quando pequeno, então apenas o chamava de Binho, Biel, Bá... O tal irmão, Fábio Moon, também estava na palestra. Mas não na mesa. Ele fizera FAAP. E lá apenas estavam ex-ecanos ilustres.
Logo em seguida, começou outro episódio da série. Dessa vez, era a jornalista Daniela Hirsch, o fotógrafo Tuca Reinés e o cinegrafista Sérgio Logullo fazendo o mesmo só que na Chapada das Mesas, no Maranhão.
Um dos locais visitados, a Cachoeira Santa Bárbara, chamara sua atenção. O sol refletia nas águas que refletiam nas rochas, e, juntos, com uma coreografia improvisada, dançavam, fazendo da rigidez em que todo esse reflexo se encostava algo leve, confortável.
Durante a aula que tivera durante aquele dia, comentara sobre a vontade que tinha de voltar a uma cachoeira. Apenas com aquela imagem conseguiu refrescar-se durante aquela noite quente.
Antes de se deitar, resolveu folhear uma revista. Reparou que a foto de capa era de autoria de um Tuca. Coincidência. Resolveu dormir certa de que sonharia com cachoeiras, trilhas, verde e um tênis sujo de lama. Mas não.
Quando acordou a única lembrança que tinha do sonho era de uma festa, dada em uma casa de praia, em que os quadrinistas estavam. No final da festa, ela lhes contou sobre toda essa história, començando pelo "Chegou em casa e a televisão estava ligada" e depois da história, eles haviam desenhado, para ela, em sua agenda (e no dia de seu aniversário), uma menina de costas com ovos de páscoa.
Acordou no dia seguinte e abriu a agenda. A página estava em branco, mas não estavam seus pensamentos que juntara todos esses episódios em uma rede de sincronicidades que só a fez surpreender-se uma vez mais com a chamada vida.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Segredo de Mundo
A história é simples. Uma menina de cabelo azul muda-se para um casarão de mais de 100 anos, cheio de portas, janelas e com algumas coisas azuis - totalmente sem graça.
Somado a isso, há o fato dela ter pais que muito se importam com o trabalho e pouco se importam com ela. Junte alguns vizinhos estranhos, uma portinha secreta escondida atrás do papel de parede, a curiosidade da menina e, voilá!, bem-vindo ao mundo secreto de Coraline.
O tédio da garota leva à descoberta de uma outra realidade, em que o paralelo com "Alice através do espelho" é, praticamente, inevitável.
Se, em sua nova-velha casa, Coraline (e não Caroline, já que nomes comuns pressupõem pessoas sem graça) não tem o que fazer - e tampouco o que comer - em seu avesso, ela será recebida por pais atenciosos (e com olhos de botões), cheiro de comida, ratos dançantes, jardim com formato de seu rosto e musical de velhas-novas vizinhas.
Tudo é mágico, tudo é diferente. Mas também trágico, quando se descobre a verdadeira história em que ela se meteu, envolvendo bonecas espiãs, crianças fantasmas e uma terrível Outra Mãe.
O conto vai crescendo e, seja pelo efeito 3D ou pelo cheiro de doce que eu sentia vindo das guloseimas do menino sentado ao meu lado, acaba envolvendo a todos.
Visualmente incrível, a produção feita em stop-motion e baseada nos quadrinhos de Neil Gaiman, é capaz de levar adultos de volta aos sonhos de crianças, e as crianças às verdades dos adultos.
Com algumas passagens surreais, que, novamente, lembram o país maravilhoso de Alice, e cenas com um quê de assustador, o filme pode assustar os mais pequenos.
Sentada atrás de mim uma menininha, com óculos maiores que o próprio rosto, ansiava pelo primeiro filme no cinema. Os pais discorriam se colocá-la num 3D logo de cara não seria um trauma. Na saída, ela já não estava mais lá. Espero e acredito, que não. Impossível se traumatizar com Coraline.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Vida no Jardim
Rosa sempre se achou linda. Sempre se achou a única capaz de enfeitar vasos para namorados. Sempre. Desde que o Cravo brigara com ela, não tomou jeito. Sabia que a briga era por amor. E continuou despedaçando flores por aí.
Ela, ter se despedaçado? História. Tão boa estava que esperou que ele ficasse doente para visitá-lo. Pura maldade.
Ele, sempre tão culto e arrumado - com seu paletó engomado -, suas pétalas bem passadas, sempre tão bem penteado, era um coitado. Achava que o Girassol, realmente, aproveitava-se das circunstâncias e da alto-estima da Rosa, em uma tentativa de se envolver com a moça.
Claro, o Girassol era a sensação do jardim (que incrivelmente misturava os mais diversos tipos de flores: da mais egoísta a mais alegre). Ele, robusto, bonitão, fazia a cabeça das meninas, que sempre se colocavam a discutir com qual, finalmente, ele se casaria.
Margarida era enfática: bonachona, e sabedora da cultura florística do local, tinha uma opinião formada e a certeza - Girassol ficará com Jasmim, linda, cheirosa, delicada.
Em uma dessas tardes de verão, em que a chuva ameaçava molhar e regar os habitantes daquele quintal, Margarida discutia fervorosamente com o Hibisco a situação romântica dos vizinhos.
Eles, literalmente plantados, nunca teriam a vantagem de poderem mudar de casa. O máximo que poderia acontecer é um ir para um vaso azul, outro para as mãos de alguma apaixonada, ou ainda, algum ser envolvido por papel de seda amarelo. Então discutiam a vida alheia, próxima.
Com isso, viviam na tentativa de se contentar com os raios solares e os dias aos quais lhes haviam sido destinados.
Hibisco era um rapaz que sempre gostara das grandes pétalas. Sempre vistoso, queria chamar atenção. Orgulhava-se do dia em que dois desavisados, pensavam que ele era uma flor. Uma flor brega. "Me acharam que assim fosse eu: delicada! Mulher! Ah, como eu queria...", pensava. Adorava Dona Margarida, por mais fofoqueira que ela fosse.
Talvez, inclusive, fosse a fofoca que o fazia sentir como uma dama. Uma dona. Uma dona da casa da qual ele nunca poderia se mudar. A dona do jardim.
Dona era Margarida, que sabia de tudo. Acordava alegre, pronta para animar a quieta da Violeta, que, com suas humildes palavras, se contentava em consolar as viúvas nas noites posteriores às tardes de brincadeiras das crianças pelo jardim - sempre uma ou outra pisoteava as flores, sem querer, atrás da bola. E era uma tristeza entre os moradores da terra fofa.
Foi naquele dia que Hibisco e Margarida, com a confirmação quieta de Violeta, decidiram: fariam da vida de todas as flores algo mais feliz. Brilhariam mais. Até daquela Couve-flor, largada, isolada, que em nada se parecia com as outras.
- Sabe, o que ela precisava era de um Girassol...
- Mas quem precisa do Girassol é a Jasmim!
- Tem razão, para que ele pare de girar pelo sol e passe a girar por ela. Ele precisa sosssegar!
- Assim como a Rosa! Ela deve parar de tratar tão mal o Cravo, só porque um dia de mau-humor ele brigou com ela...
- Sabe, acho que os dois se resolvem, não acha, Violeta?
Violeta concordou. Ela sempre concordara.
- Margarida, e a Couve-flor.. você nunca fala dela!
- Também, olha lá, coitada, em um canto... Eita flor mais feia!
Não sabiam as flores, que dentre todas as flores, era ela capaz de mudar de casa. E ir do jardim para a panela, da panela para o prato, do prato para a boca, da boca para o estômago... E fazer alguma pessoa mais feliz, fazia da sua morte uma alegria para alguém.
- Vamos chamá-la para conversar com a gente!
- Não, ela me parece imersa em seus próprios pensamentos. Temos é que fazer algo que ajude a todos.
- Começaremos falando para o Girassol que a Jasmim está caidinha por ele. Até deixou umas pétalas na grama para ele. Depois, para a Rosa parar de se achar, diremos a ela que o Cravo está bem feliz sem ela.
- Depois podemos dar uma festa em comemoração aos casais, uma festança, podemos até chamar as flores do outro jardim. Ah! Adoro festas! Posso até trocar essas minhas pétalas, e então...
- Ahm... É... Er... Posso sugerir alguma coisa?
- Diga, Violeta! Finalmente você abriu esse seu miolo para falar alguma coisa!
- Porque vocês... não... param de falar dos outros? Para mim, parece ser a melhor coisa que vocês podem fazer por todos. É bem melhor. E menos irritante.
Hibisco e Margarida ficaram boquiabertos. Nunca imaginavam ouvir uma coisa dessas. Refletiram. E se calaram. Para sempre.
Violeta, não, às vezes põe-se a cantar. Pode reparar.
[personagens apareceram com a colaboração de um cara que vive pensando torto. 15.12]
Ela, ter se despedaçado? História. Tão boa estava que esperou que ele ficasse doente para visitá-lo. Pura maldade.
Ele, sempre tão culto e arrumado - com seu paletó engomado -, suas pétalas bem passadas, sempre tão bem penteado, era um coitado. Achava que o Girassol, realmente, aproveitava-se das circunstâncias e da alto-estima da Rosa, em uma tentativa de se envolver com a moça.
Claro, o Girassol era a sensação do jardim (que incrivelmente misturava os mais diversos tipos de flores: da mais egoísta a mais alegre). Ele, robusto, bonitão, fazia a cabeça das meninas, que sempre se colocavam a discutir com qual, finalmente, ele se casaria.
Margarida era enfática: bonachona, e sabedora da cultura florística do local, tinha uma opinião formada e a certeza - Girassol ficará com Jasmim, linda, cheirosa, delicada.
Em uma dessas tardes de verão, em que a chuva ameaçava molhar e regar os habitantes daquele quintal, Margarida discutia fervorosamente com o Hibisco a situação romântica dos vizinhos.
Eles, literalmente plantados, nunca teriam a vantagem de poderem mudar de casa. O máximo que poderia acontecer é um ir para um vaso azul, outro para as mãos de alguma apaixonada, ou ainda, algum ser envolvido por papel de seda amarelo. Então discutiam a vida alheia, próxima.
Com isso, viviam na tentativa de se contentar com os raios solares e os dias aos quais lhes haviam sido destinados.
Hibisco era um rapaz que sempre gostara das grandes pétalas. Sempre vistoso, queria chamar atenção. Orgulhava-se do dia em que dois desavisados, pensavam que ele era uma flor. Uma flor brega. "Me acharam que assim fosse eu: delicada! Mulher! Ah, como eu queria...", pensava. Adorava Dona Margarida, por mais fofoqueira que ela fosse.
Talvez, inclusive, fosse a fofoca que o fazia sentir como uma dama. Uma dona. Uma dona da casa da qual ele nunca poderia se mudar. A dona do jardim.
Dona era Margarida, que sabia de tudo. Acordava alegre, pronta para animar a quieta da Violeta, que, com suas humildes palavras, se contentava em consolar as viúvas nas noites posteriores às tardes de brincadeiras das crianças pelo jardim - sempre uma ou outra pisoteava as flores, sem querer, atrás da bola. E era uma tristeza entre os moradores da terra fofa.
Foi naquele dia que Hibisco e Margarida, com a confirmação quieta de Violeta, decidiram: fariam da vida de todas as flores algo mais feliz. Brilhariam mais. Até daquela Couve-flor, largada, isolada, que em nada se parecia com as outras.
- Sabe, o que ela precisava era de um Girassol...
- Mas quem precisa do Girassol é a Jasmim!
- Tem razão, para que ele pare de girar pelo sol e passe a girar por ela. Ele precisa sosssegar!
- Assim como a Rosa! Ela deve parar de tratar tão mal o Cravo, só porque um dia de mau-humor ele brigou com ela...
- Sabe, acho que os dois se resolvem, não acha, Violeta?
Violeta concordou. Ela sempre concordara.
- Margarida, e a Couve-flor.. você nunca fala dela!
- Também, olha lá, coitada, em um canto... Eita flor mais feia!
Não sabiam as flores, que dentre todas as flores, era ela capaz de mudar de casa. E ir do jardim para a panela, da panela para o prato, do prato para a boca, da boca para o estômago... E fazer alguma pessoa mais feliz, fazia da sua morte uma alegria para alguém.
- Vamos chamá-la para conversar com a gente!
- Não, ela me parece imersa em seus próprios pensamentos. Temos é que fazer algo que ajude a todos.
- Começaremos falando para o Girassol que a Jasmim está caidinha por ele. Até deixou umas pétalas na grama para ele. Depois, para a Rosa parar de se achar, diremos a ela que o Cravo está bem feliz sem ela.
- Depois podemos dar uma festa em comemoração aos casais, uma festança, podemos até chamar as flores do outro jardim. Ah! Adoro festas! Posso até trocar essas minhas pétalas, e então...
- Ahm... É... Er... Posso sugerir alguma coisa?
- Diga, Violeta! Finalmente você abriu esse seu miolo para falar alguma coisa!
- Porque vocês... não... param de falar dos outros? Para mim, parece ser a melhor coisa que vocês podem fazer por todos. É bem melhor. E menos irritante.
Hibisco e Margarida ficaram boquiabertos. Nunca imaginavam ouvir uma coisa dessas. Refletiram. E se calaram. Para sempre.
Violeta, não, às vezes põe-se a cantar. Pode reparar.
[personagens apareceram com a colaboração de um cara que vive pensando torto. 15.12]
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Aguados
Te pega desprevinida,
te molha inteira,
sem pudores.
deixa um riso no rosto
uma corrida no pé.
Envolve ele, você, ela, a outra, aquele,
de uma só vez.
Não distingüe: cai em todos.
Sem preconceitos.
Iguala o rico e o pobre,
o feio e o bonitão.
Estraga a chapinha da menina,
deixa tudo ao natural.
Expõe a pele embaixo de roupa branca.
Faz abrir
os guarda-chuvas.
Alaga.
Inunda.
E nunca
é mala.
Afoga.
Chove.
te molha inteira,
sem pudores.
deixa um riso no rosto
uma corrida no pé.
Envolve ele, você, ela, a outra, aquele,
de uma só vez.
Não distingüe: cai em todos.
Sem preconceitos.
Iguala o rico e o pobre,
o feio e o bonitão.
Estraga a chapinha da menina,
deixa tudo ao natural.
Expõe a pele embaixo de roupa branca.
Faz abrir
os guarda-chuvas.
Alaga.
Inunda.
E nunca
é mala.
Afoga.
Chove.
sábado, 31 de janeiro de 2009
Quadrilha
João amava Teresa. Amava mesmo, de amor tão amado que chegava a matar. Ela era uma magricela que só não engordava de ruindade, e ele um gorducho que sempre sujava o bigode quando bebia cerveja.
Um dia Teresa estava no bar do João, que ficava ali, na esquina, quando encontrou Raimundo - que era bem arrumado e que gostava é de (o) poder. O coração bateu mais forte, as pernas balancearam, os olhos se fixaram nele e o estômago ficou gelado quando passou por perto do rapaz.
Mais gelado ficou o coração de Teresa quando viu que, atrás dele, vinha uma moça de vestido vermelho e flores brancas - era Maria, triste que só vendo.
Triste, mas foi quando olhou para atrás do balcão que a moça que acompanhava Raimundo abriu um sorriso. Um sorriso de encher os olhos de esperança e felicidade.
Era Joaquim, o garçom. Moço simpático, mas que já se cansava de tanto tentar convencer Lili para sair pro forró.
Lili era amarga e só pensava no trabalho - em limpar as mesas, fazendo, com isso, a noite passar. Carregava sempre um pano de prato em cima do ombro e nos pés um sapato gasto de tanto correr pelo salão - era copo que caía, álcool que se espalhava pelo chão, migalha pelas mesas, lágrimas no balcão...
Um dia, João, o dono do bar, recebeu uma proposta de um gringo sério e de paletó. Era pegar ou largar. E se pegasse, largava o bar. Se largasse, pegava o triste destino de sempre ver Teresa se derretendo por Raimundo.
Pegou. Foi para os Estados Unidos. Não sabia falar inglês, mas o serviço era bom e ele ganhava em dólares.
Teresa não tinha mais para quem fazer ciúmes. Sem o bar do João, mal via Raimundo. Ficou tão, mas tão desolada que pedia a Deus todos os dias João de volta - para voltar com o ponto de encontro do acaso que a fazia ver Raimundo.
Rezou, rezou e se apaixonou por aquele que todos dizem ser mais que poderoso, capaz dos milagres e de fazer graças alcançadas. Foi dormir para sempre na casa dele. Um convento, com outras irmãs.
Já que a sede de cerveja do Raimundo não podia mais ser matada, resolveu acabar com aquela sede de poder. Começou a ganhar dinheiro numa coisa que a mãe dele não soube explicar, até o dia que perdeu tudo. Até a vida.
A Maria viu que não tinha jeito. Melhor era cuidar dos sobrinhos. E eles eram umas crianças tão lindinhas que resolveu ficar assim mesmo, para sempre para titia (às vezes ela saía por aí, com a vontade de voltar a ter no rosto o sorriso de esperança).
Um dia de desespero desesperador e de dívidas no pescoço, Joaquim se suicidou. Não tinha mais emprego nem mais a felicidade que o bar trazia - já não tinha a alegria de tentar conseguir o coração de Lili - ele, pelo menos, tinha a certeza de que o coração não iria para mais ninguém.
Certeza essa que o destino tratou de mudar, quando Lili se casou com um tal de J. Pinto Fernandes que nem entrado na história tinha.
Aliás, quem é esse J. Pinto Fernandes?
Um dia Teresa estava no bar do João, que ficava ali, na esquina, quando encontrou Raimundo - que era bem arrumado e que gostava é de (o) poder. O coração bateu mais forte, as pernas balancearam, os olhos se fixaram nele e o estômago ficou gelado quando passou por perto do rapaz.
Mais gelado ficou o coração de Teresa quando viu que, atrás dele, vinha uma moça de vestido vermelho e flores brancas - era Maria, triste que só vendo.
Triste, mas foi quando olhou para atrás do balcão que a moça que acompanhava Raimundo abriu um sorriso. Um sorriso de encher os olhos de esperança e felicidade.
Era Joaquim, o garçom. Moço simpático, mas que já se cansava de tanto tentar convencer Lili para sair pro forró.
Lili era amarga e só pensava no trabalho - em limpar as mesas, fazendo, com isso, a noite passar. Carregava sempre um pano de prato em cima do ombro e nos pés um sapato gasto de tanto correr pelo salão - era copo que caía, álcool que se espalhava pelo chão, migalha pelas mesas, lágrimas no balcão...
Um dia, João, o dono do bar, recebeu uma proposta de um gringo sério e de paletó. Era pegar ou largar. E se pegasse, largava o bar. Se largasse, pegava o triste destino de sempre ver Teresa se derretendo por Raimundo.
Pegou. Foi para os Estados Unidos. Não sabia falar inglês, mas o serviço era bom e ele ganhava em dólares.
Teresa não tinha mais para quem fazer ciúmes. Sem o bar do João, mal via Raimundo. Ficou tão, mas tão desolada que pedia a Deus todos os dias João de volta - para voltar com o ponto de encontro do acaso que a fazia ver Raimundo.
Rezou, rezou e se apaixonou por aquele que todos dizem ser mais que poderoso, capaz dos milagres e de fazer graças alcançadas. Foi dormir para sempre na casa dele. Um convento, com outras irmãs.
Já que a sede de cerveja do Raimundo não podia mais ser matada, resolveu acabar com aquela sede de poder. Começou a ganhar dinheiro numa coisa que a mãe dele não soube explicar, até o dia que perdeu tudo. Até a vida.
A Maria viu que não tinha jeito. Melhor era cuidar dos sobrinhos. E eles eram umas crianças tão lindinhas que resolveu ficar assim mesmo, para sempre para titia (às vezes ela saía por aí, com a vontade de voltar a ter no rosto o sorriso de esperança).
Um dia de desespero desesperador e de dívidas no pescoço, Joaquim se suicidou. Não tinha mais emprego nem mais a felicidade que o bar trazia - já não tinha a alegria de tentar conseguir o coração de Lili - ele, pelo menos, tinha a certeza de que o coração não iria para mais ninguém.
Certeza essa que o destino tratou de mudar, quando Lili se casou com um tal de J. Pinto Fernandes que nem entrado na história tinha.
Aliás, quem é esse J. Pinto Fernandes?
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Ida-Vindas
Filmes colocam qualquer um que seja em qualquer outra realidade - ou em uma realidade qualquer. Inevitavelmente.
Alguns, transportam seus personagens para dentro de quem assiste. Incrivelmente.
Fui para Barcelona.
Veio Cristina.
Veio Vicky.
Alguns, transportam seus personagens para dentro de quem assiste. Incrivelmente.
Fui para Barcelona.
Veio Cristina.
Veio Vicky.
domingo, 4 de janeiro de 2009
Pílulas Concepcionais
Delas poderiam surgir muitas outras vidas a pularem. Mas aí, colocou-se um "anti" na frente e a chance se escafedeu.
Francês
mon amour é para ser dito logo depois de um bonjour
Pinguins (sem trema, ai!)
na minha geladeira não tem. E na sua? (nem os com trema)
Endless Love
um cheiro uma fragrância o toque macio tudo azul... é só um creminho, minha gente, nada mais de poesia
Tarefas Domésticas
é preferível arrumar a mesa a arrumar a cama. Essa segunda é melhor desarrumar
Cortinas
ganhou privacidade, um esconderijo, um quarto maior (não precisou se trocar atrás da porta do armário). Perdeu vizinhos voyeuristas
Sonho Limpo
dormi dentro da máquina de lavar, tamanho era o cheiro de Omo
Tempo Perdido
nunca perdia as horas. Sempre perdia o relógio
Visão
o problema com os óculos, eternamente sujos, era o seguinte: ou via tudo nítido mas com cores mais apagadas, ou via tudo colorido mas com contornos mal delineados. Optava pelas cores
Francês
mon amour é para ser dito logo depois de um bonjour
Pinguins (sem trema, ai!)
na minha geladeira não tem. E na sua? (nem os com trema)
Endless Love
um cheiro uma fragrância o toque macio tudo azul... é só um creminho, minha gente, nada mais de poesia
Tarefas Domésticas
é preferível arrumar a mesa a arrumar a cama. Essa segunda é melhor desarrumar
Cortinas
ganhou privacidade, um esconderijo, um quarto maior (não precisou se trocar atrás da porta do armário). Perdeu vizinhos voyeuristas
Sonho Limpo
dormi dentro da máquina de lavar, tamanho era o cheiro de Omo
Tempo Perdido
nunca perdia as horas. Sempre perdia o relógio
Visão
o problema com os óculos, eternamente sujos, era o seguinte: ou via tudo nítido mas com cores mais apagadas, ou via tudo colorido mas com contornos mal delineados. Optava pelas cores
sábado, 3 de janeiro de 2009
Livros e Vendedores
O livro era aquele: Stardust. Quando o viu pela estante, na hora, pensou que seria o presente ideal para ele.
Há tempos que tinham conversado sobre Sandman e os quadrinhos de Neil Gaiman. E ele perguntado a ela sobre a outra história do autor, aquela em que as pessoas passam através de uma fenda e chegam em outro mundo.
- Stardust?
- Esse mesmo. Então eu só vi o filme, você já leu?
- Li, sim.
Entrou na livraria, procurou uma vendedora e pediu.
- Então, sabe, é que eu vou comprar pro meu namorado... É presente de Natal. Você viu a chuva que está lá fora? Vim a pé e me molhei inteira. Olha o que eu não faço por ele...
- Sério? E desde quando vocês namoram? - perguntou a vendedora enquanto indicava a estante de auto-ajuda para uma cliente de cabelos desgrenhados e ia em direção ao caixa. - Olha, pode pagar aqui, que eu já embrulharei para presente.
- Na verdade... Ah, obrigada.
Reparou que a moça nem havia esperado a reposta do tempo de namoro. Não fazia questão. A loja estava movimentadíssima, o que impedia uma vendedora curiosa de saber sobre os relacionamentos amorosos de suas clientes e demonstrava que as pessoas aumentavam as compras de livros - mesmo em momentos de crise (talvez para isso sirvam as crises, para deixá-las em casa munidas de bons livros enquanto não passa). Pagou, e foi direto retirar a embalagem.
- Aqui está. Então, você não me respondeu, há quanto tempo estão juntos?
- Faz pouco tempo. Pouquíssimo, aliás. Quero dizer, juntos estamos há muito tempo... Uns dois anos, até. Mas namoro-namoro, só agora.
- Nossa, bacana. Qualquer dia vem para cá com ele, para que ele conte se gostou do presente. E espero que não esteja chovendo!
Pouco tempo... Saiu da loja pensando em como ela era precipitada. Eles demoraram tanto para se definir que foi só decidirem namorar para ela sair comprando presente? Ah, não tem importância. Ele vai gostar.
Se encontraram na mesma noite, e o presente ficou na bolsa. Depois, no fim de semana, saíram. O presente, na bolsa. Vários dias se passaram, o Natal passou e o presente... na bolsa. O presente se foi, chegou-se ao futuro, virou passado e o presente? Na bolsa.
- Você comprou e nem vai dar? - diziam as amigas. - Deixa de ser besta, entrega logo o livro pra ele!
Não entregou. Passou o réveillon, viu que o Natal já estava longe, e a chance mais longe ainda - perdera-se no tempo. Ele não dera nada para ela. Ela também não ia dar. Imagine o que ele ia pensar? Que era uma doida, louca, apaixonada...
Decidiu trocar: há dias via uns livros que queria. Aliás, encontrar livros que queria não era difícil para ela.
- Ai, espero que não encontre a vendedora. Pensa, ela me pergunta do namorado e eu venho dizendo que vim trocar o livro?
- É só você dizer que ele não gostou... - disse a amiga que a acompanhava.
- Eu sei, mas sabe, sei lá.
Com os livros escolhidos, foi em direção ao caixa.
- Então, você antes tem que passar por um vendedor...
Se dirigiu a uma funcionária da loja que disse a mesma coisa e completou com "aqui é o caixa". Encontrou um vendedor. O livro, perdido na imensidão de sua bolsa, quase não saía. Estava acostumado com a escuridão. Nervosa, entregou o pacote, ainda embrulhado.
- Ai, olha só, está até no embrulho...
- Você tem cadastro na loja?
- Não, pode usar pelo da minha mãe. Ela que me deu, aliás.
Pronto. Inventara a desculpa que a mãe comprara e agora a filha devolvera. Esperava não encontrar a vendedora. Não podia encontrar a vendedora. Foi ao caixa, guiada pelo rapaz.
Lá não pôde realizar a troca. Algo dera errado. O moço do caixa chamou o seu superior, que perguntou se ela sabia qual vendedor a havia atendido. Não sabia, mas poderia identificá-lo facilmente.
O superior a acompanhou pela loja até que encontraram o vendedor. Sorte que não encontraram a vendedora. Ele tentou resolver o problema, mas nada. Chamou a gerente. Era gerente aquela mulher? Não sabia. Mas tinha um ar de irritada e resolvedora de problemas. Nada. Chamaram o CDB. Sejá lá o que isso seja. Nada também.
- Colocou o código certo? Imprimiu a nota? Não imprimiu? É problema da impressora? Você fez o procedimento adequado? Quem comprou esse livro? E vai trocar também? Por quê?
5 pessoas já haviam irtervido. Era a hora da vendedora aparecer. Mas se aparecesse, a história de que a mãe dera os quadrinhos para a filha ia por água abaixo. "Ah, sabe, eu que comprei mesmo, para dar para meu namorado, mas fiquei com vergonha de dizer para vocês que eu tive vergonha de entregar o livro para ele". Iam pensar que ela era uma envergonhada! Não podia acontecer.
Minutos se passaram dentro da loja. A amiga, pacientemente, observava tudo que acontecia. Uma senhora, perdida entre as estantes, brigava no celular. Um bebê chorava loucamente. Os funcionários, em polvorosa, tentavam resolver o problema da troca introcável. E uma música clássica ao fundo. Plena sintonia.
- Renata Cury. Cadê ela?
"Não pode ser a vendedora, ai meu Deus, que não seja a vendedora", pensava a menina.
- Quem é essa mulher? Você jogou os créditos para a Renata Cury! Por isso é que ela não consegue trocar! Pronto, agora está feito. Você tem cadastro na loja, né? Porque senão, dará problema no caixa. Não tem? Então faça. E desculpe todo esse transtorno. Tchau, queridas.
Problema resolvido, cadastro feito e uma certeza: da próxima vez seria menos precipitada. Ou então, deixaria a vergonha de lado. E passaria a contar menos da vida para vendedoras.
Há tempos que tinham conversado sobre Sandman e os quadrinhos de Neil Gaiman. E ele perguntado a ela sobre a outra história do autor, aquela em que as pessoas passam através de uma fenda e chegam em outro mundo.
- Stardust?
- Esse mesmo. Então eu só vi o filme, você já leu?
- Li, sim.
Entrou na livraria, procurou uma vendedora e pediu.
- Então, sabe, é que eu vou comprar pro meu namorado... É presente de Natal. Você viu a chuva que está lá fora? Vim a pé e me molhei inteira. Olha o que eu não faço por ele...
- Sério? E desde quando vocês namoram? - perguntou a vendedora enquanto indicava a estante de auto-ajuda para uma cliente de cabelos desgrenhados e ia em direção ao caixa. - Olha, pode pagar aqui, que eu já embrulharei para presente.
- Na verdade... Ah, obrigada.
Reparou que a moça nem havia esperado a reposta do tempo de namoro. Não fazia questão. A loja estava movimentadíssima, o que impedia uma vendedora curiosa de saber sobre os relacionamentos amorosos de suas clientes e demonstrava que as pessoas aumentavam as compras de livros - mesmo em momentos de crise (talvez para isso sirvam as crises, para deixá-las em casa munidas de bons livros enquanto não passa). Pagou, e foi direto retirar a embalagem.
- Aqui está. Então, você não me respondeu, há quanto tempo estão juntos?
- Faz pouco tempo. Pouquíssimo, aliás. Quero dizer, juntos estamos há muito tempo... Uns dois anos, até. Mas namoro-namoro, só agora.
- Nossa, bacana. Qualquer dia vem para cá com ele, para que ele conte se gostou do presente. E espero que não esteja chovendo!
Pouco tempo... Saiu da loja pensando em como ela era precipitada. Eles demoraram tanto para se definir que foi só decidirem namorar para ela sair comprando presente? Ah, não tem importância. Ele vai gostar.
Se encontraram na mesma noite, e o presente ficou na bolsa. Depois, no fim de semana, saíram. O presente, na bolsa. Vários dias se passaram, o Natal passou e o presente... na bolsa. O presente se foi, chegou-se ao futuro, virou passado e o presente? Na bolsa.
- Você comprou e nem vai dar? - diziam as amigas. - Deixa de ser besta, entrega logo o livro pra ele!
Não entregou. Passou o réveillon, viu que o Natal já estava longe, e a chance mais longe ainda - perdera-se no tempo. Ele não dera nada para ela. Ela também não ia dar. Imagine o que ele ia pensar? Que era uma doida, louca, apaixonada...
Decidiu trocar: há dias via uns livros que queria. Aliás, encontrar livros que queria não era difícil para ela.
- Ai, espero que não encontre a vendedora. Pensa, ela me pergunta do namorado e eu venho dizendo que vim trocar o livro?
- É só você dizer que ele não gostou... - disse a amiga que a acompanhava.
- Eu sei, mas sabe, sei lá.
Com os livros escolhidos, foi em direção ao caixa.
- Então, você antes tem que passar por um vendedor...
Se dirigiu a uma funcionária da loja que disse a mesma coisa e completou com "aqui é o caixa". Encontrou um vendedor. O livro, perdido na imensidão de sua bolsa, quase não saía. Estava acostumado com a escuridão. Nervosa, entregou o pacote, ainda embrulhado.
- Ai, olha só, está até no embrulho...
- Você tem cadastro na loja?
- Não, pode usar pelo da minha mãe. Ela que me deu, aliás.
Pronto. Inventara a desculpa que a mãe comprara e agora a filha devolvera. Esperava não encontrar a vendedora. Não podia encontrar a vendedora. Foi ao caixa, guiada pelo rapaz.
Lá não pôde realizar a troca. Algo dera errado. O moço do caixa chamou o seu superior, que perguntou se ela sabia qual vendedor a havia atendido. Não sabia, mas poderia identificá-lo facilmente.
O superior a acompanhou pela loja até que encontraram o vendedor. Sorte que não encontraram a vendedora. Ele tentou resolver o problema, mas nada. Chamou a gerente. Era gerente aquela mulher? Não sabia. Mas tinha um ar de irritada e resolvedora de problemas. Nada. Chamaram o CDB. Sejá lá o que isso seja. Nada também.
- Colocou o código certo? Imprimiu a nota? Não imprimiu? É problema da impressora? Você fez o procedimento adequado? Quem comprou esse livro? E vai trocar também? Por quê?
5 pessoas já haviam irtervido. Era a hora da vendedora aparecer. Mas se aparecesse, a história de que a mãe dera os quadrinhos para a filha ia por água abaixo. "Ah, sabe, eu que comprei mesmo, para dar para meu namorado, mas fiquei com vergonha de dizer para vocês que eu tive vergonha de entregar o livro para ele". Iam pensar que ela era uma envergonhada! Não podia acontecer.
Minutos se passaram dentro da loja. A amiga, pacientemente, observava tudo que acontecia. Uma senhora, perdida entre as estantes, brigava no celular. Um bebê chorava loucamente. Os funcionários, em polvorosa, tentavam resolver o problema da troca introcável. E uma música clássica ao fundo. Plena sintonia.
- Renata Cury. Cadê ela?
"Não pode ser a vendedora, ai meu Deus, que não seja a vendedora", pensava a menina.
- Quem é essa mulher? Você jogou os créditos para a Renata Cury! Por isso é que ela não consegue trocar! Pronto, agora está feito. Você tem cadastro na loja, né? Porque senão, dará problema no caixa. Não tem? Então faça. E desculpe todo esse transtorno. Tchau, queridas.
Problema resolvido, cadastro feito e uma certeza: da próxima vez seria menos precipitada. Ou então, deixaria a vergonha de lado. E passaria a contar menos da vida para vendedoras.
sábado, 20 de dezembro de 2008
Mar e o Mar
Omar era um rapaz magricelo e branquelo,
que não gostava de praia.
não gostava de sandália, preferia saia.
(saia dela, a Mar)
Mar era o apelido de Marcela.
tudo que fosse de bom, era dela,
menos panela
(ela não gostava de cozinhar)
Omar viu a Mar e começou a divagar:
se mar fosse feminino seria a mar:
só tirar um espacinho para que virasse amar.
Amar a Mar, é bem diferente do que amar o mar,
não gosto de praia.
Em resposta, ela começou a falar:
mas Omar, eu amo o mar!
ele faz dois, o luar;
ele faz música, o cantar.
Mar é masculino para ser mesmo Omar.
Omar deixou pra lá o gostar somente de Mar,
e os dois terminaram bem dentro do mar.
E da Mar.
que não gostava de praia.
não gostava de sandália, preferia saia.
(saia dela, a Mar)
Mar era o apelido de Marcela.
tudo que fosse de bom, era dela,
menos panela
(ela não gostava de cozinhar)
Omar viu a Mar e começou a divagar:
se mar fosse feminino seria a mar:
só tirar um espacinho para que virasse amar.
Amar a Mar, é bem diferente do que amar o mar,
não gosto de praia.
Em resposta, ela começou a falar:
mas Omar, eu amo o mar!
ele faz dois, o luar;
ele faz música, o cantar.
Mar é masculino para ser mesmo Omar.
Omar deixou pra lá o gostar somente de Mar,
e os dois terminaram bem dentro do mar.
E da Mar.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Queime Depois de Ver
Ah, não gostei. Não gostei e não vou dizer que gostei ou elogiar o modo como os irmãos Coen fizeram para criticar organismos americanos como a CIA, cidadãos americanos como os personagens do núcleo da acabemia, ou a sociedade inteira.
Não vou dizer que eles foram geniais ao metaforizarem toda a confusão dos Estados Unidos em uma única confusão - a do enredo.
Discordo se disserem que é um humor fino, em seu negro véu. Não achei. Não gostei. E assim mesmo, tão infantil como age Brad Pitt no filme, continuo não gostando.
De que adiantam dois bonitões se um é mais besta que o outro? De que adiantam milhares de palavrões se o roteiro, para mim, não se sustenta? Fucker, fucker, fucker. Essa é a palavra mais dita. E adianta.
Por que são todos são estúpidos, ilógicos, imbecis? Aliás, para que serve um agente que há 20 anos não dispara uma arma - e ao disparar, mata, com um tiro na testa, um ignorante? Para que servem tantas trocas, tantas camas, tantos casais diferentes?
Serve só para me tirar da sala com uma cara amarrada, bem do tipo que eles queriam que as pessoas saíssem. Serve para me fazer rir da ironia ali contida. Serve para me achar também uma besta por ter entrado naquela sala de cinema e ali passado 93 minutos da minha tarde.
É, eles conseguiram.
Serviu.
Mas eu não gostei.
[E talvez não tenha gostado por pura hipocrisia, mas maior hipocrisia seria dizer que gostei]
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Passado Presente
Algumas vezes o passado nos persegue. Em uma carta inesperada, em um encontro ocasional, em uma despedida. Ele está ali, escondido no presente, em cada lembrança, cada foto revista.
Assim sentia-se o tradutor Rímini: sendo perseguido pelo seu passado, em um eterno conflito entre seu presente e suas memórias - muitas delas, literalmente perdidas.
Após um casamento de 12 anos com sua primeira namorada, Sofía, ele se vê na tentativa de retomar sua vida. Por oras, vida que se confunde com a da ex-mulher - por mais que o objetivo seja perdê-la em outras mulheres.
Sofía, por sua vez, busca reencontrá-lo - incansável, insasiável, aflita. É como um fantasma do que já foi, rondando a tentativa de nova vida do rapaz.
Doentia, muitas vezes a mulher dilacerada surge na trama angustiando cada vez mais o personagem, que também se torna cada vez mais envolto em uma certa ilucidez irremediável.
É como se ele fosse puxado para um passado que não tem fim, e apesar de agarrar-se às bordas do presente, tentando assim escapar, tem uma força maior que o empurra. Uma só mulher.
As outras que aparecem no filme, ainda assim, são tão fortes quando Sofía: Vera, com seu imbatível e paranóico ciúmes. Carmen, madura e serena. Enquanto a primeira traz em sua juventude a insegurança; a segunda parece ser um poço de tranqüilidade, dado, talvez, pela idade um pouco maior que a dos protagonistas.
Vera é intensa, ciumenta. Não agüenta imaginar uma segunda. Mesmo sendo ela, a segunda. Vermelho seria a sua cor. Passional. Assim como sua última cena - ou sua primeira.
Carmen, por sua vez, surge em um encontro de trabalho. Responsável, maternal. Não é a toa que, com Rímini, tem seu primeiro filho: Lúcio. Talvez, uma luz.
No entanto, é Sofía, em um de seus desesperadores momentos de insanidade, que surge. E o que sucede é o seqüestro do menino. Como conseqüencia, Rímini é impedido de ver sua ex-mulher e o garoto.
É o passado, outra vez, puxando-o fortemente. A loucura, o amor, o presente e o passado. Todos complexamente misturados, entre bilhetes de Sofía e pedidos para que ele separe as antigas fotos por ela guardadas até na brusca tentativa dele tentar reaver sua memória da língua francesa e inglesa: já não conseguia traduzir.
Por meio de reviravoltas, Hector Babenco expôs em linguagem cinematográfica o livro de Alan Pauls, O Passado. Em uma co-produção Brasil/Argentina e com roteiro em espanhol, o filme coloca Gael García Bernal e Analía Couceyro no papel do intrigante casal, e confirma o slogan - "A separação também pode ser parte de uma história de amor". Ah! ainda traz, como participação especial, Paulo Autran (falando em françês!). Voilà!
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
É, amigo...
...Começou de novo o fim.
Fim de semestre, fim de ano. Aquele fim nostálgico que bota palavras e mais palavras em blogs, frases e mais frases de despedidas, apertos em corações que há tempos não se apertavam - ou melhor, que há tempos não se separavam.
Um aperto besta, doído, inexplicável. Até parece que ninguém nunca mais vai se ver. Até parece que amanhã não virá para aproximar o reencontro. Até parece.
Só parece. Se fosse... ah, se fosse aí sim não poderíamos nem explicar o que sentiremos em uma palavra unicamente brasileira: saudade. Explicaríamos em uma palavra mais internacional, antiga e teatral: tragédia. E aí sim o aperto não seria inexplicável. Seria terrível. Mais terrível do que já é.
Ou será que ele mesmo agora é terrível justamente por não ter explicação?
Pode ver. A partir de agora, a cada texto, ele aparecerá. A cada palavra, ele voltará. A cada foto que a gente insistir em ver. A cada jargão relembrado.
Sem nem perceber, nós vamos começar a propor aos outros "vambebêeeeeeee!". Não vão entender. E nós, jornotaiada, depois de anunciar com o fervor mineiro a vontade de bebemorar não vamos ter nem Oncinha, nem Hell Ice (para a sorte de vocês!). Vamos ter qualquer outra coisa, que junto de qualquer outros bons amigos, será de novo aquela coisa que antes de termos, tínhamos.
Pensei que nunca mais sentiria aquilo que senti ano passado - depois de uma vida com as mesmas pessoas, a separação de vez. E senti. Mesmo que não seja de vez.
Haja coração!
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Reforma Ortográfica
- Fique tranquilo, pinguinzinho, a linguiça acabou mas sobrou ração!
- Não quero. Então eu quero o ceu, e colocá-lo num micro-ondas.
- Nada. Te darei, então, um livro de autoajuda e um creme antirrugas - só o suprassumo. Serve?
- Prefiro um autorretrato. Aliás, tenho que terminar a autoescola.
- Para de tirar o pelo, pinguim. Nem poder dirigir você pode. Quer comer uma pera e parar de falar bobagens?
- Pera! Só um minuto, que eu te perdoo pela falta de linguiça. Agora me vem com fruta... Só enrolação. Já comeu ovo com pão de kiwi (agora eu posso usar o "k" porque está no alfabeto! yes! "y" também!).
- Você está me deixando com enjoo. Whiskas sachê pra você (agora eu posso usar o "w" porque está no alfabeto! yes! "y" também!). Vou te colocar no zoo.
- Só se para isso eu tiver que pegar um voo.
- Você vai é de micro-ônibus, e nada de me dar um contra-ataque.
- Vou é chamar a minha amiga jiboia. Ela sim terá uma ideia ótima para fazer com que você me dê uma linguiça.
- Ai, não aguento mais! Você merece ser sequestrado para bem longe!
- Seria melhor mesmo. Prefiro um sequestro a esse diálogo louco com você.
Cara, depois dessa, nunca mais vi pinguim falar.
[Olha o que essa reforma ainda faz comigo!]
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Carta a un tio, y a ti también
A ver. Hace tiempo desde que no te escribo. A lo mejor, ya no sé como escribirte. Si, eso es. Los días se pasan como noches sin dormir, las horas solamente desaparecen mientras intentamos vivir.
Pienso que es tarde, pero aún tenemos la esperanza, ¿no? ¿De qué? De salir por la calle, jugando a algo - la rayuela que está en el suelo, ¿por que no?
Porque ya no eres una niña, tonta. ¿Cuando comprenderás que en el mundo los que paran para nada - que en la realidad, es todo - se pierden en el otro mundo, y el real problema es que ése otro mundo es mil veces mejor (lo que hace más que difícil intentar volver al estado natural del mundo normal...)?
Eso es. Lo que nos falta. Ahora saldremos a bailar como si no hubiera problemas o imagínate que el vino aun no se ha terminado.
¡¿Que pasó con las luces de este cuarto?! Todas se parecen más oscuras... que hiciste, cabrón? ¿O fuiste tú, voluntad de dormir, que ha cerrado mis ojos?
Creo que una copa de café no seria mal. A lo mejor nos despertaría. No, pero no. No tenemos que usar cafeína para abrir nuestros ojos.
Tenemos que usarnos. Yo a ti y tú a mi. ¿Viste?
Ay, que no entiendes nada. A ver la actual crisis de que tanto nos decían. Si que estamos todos perdidos. ¿Pero que hacer? Paremos para pensar, algo que poco se hace actualmente.
Después de pensar, cantemos algo que alegre aquellos que ya no se sostienen por unas pocas notas.
Cantar, bailar y arriba y arriba, capitán.
Después vuelvo a escribirte, cuando el querer una horchata sea mayor que querer un zumo de graviola.
Mucho gusto a ti - persona que acaba de leer.
domingo, 2 de novembro de 2008
Sentidos Perdidos V
Já não aguentava mais as reclamações da mãe. Tudo bem, ela não poderia mais cheirar, cozinhar nem cantar parabéns para o marido, mas ele não sabia como acalmá-la e isso apenas o irritava mais.
Decidiu tomar um banho, o mesmo que havia planejado tomar horas atrás. Ligou o chuveiro. Ouviu o barulho da água. Mas não sentiu-a molhar seu corpo.
Tentou pegar o sabonete, em vão. Escorregava em suas mãos como nunca antes escorregara. Tornara-se um inútil.
Não entendia o que acontecia, mas sabia que não sentia nada. Nem o calor da água que deixara sua pele vermelha e o ar do banheiro extremamente nebuloso, nem as bolhas de sabão formadas enquanto este pulava pelo box.
Cansou-se. O banho estava irritando-o mais ainda. O que estava acontecendo? Não sentia! Pôs uma roupa qualquer, e, pela primeira vez, foi como se não estivesse vestido. Mas ao contrário da sensação de liberdade ao ter o vento acariciando-o, podia sentir apenas a angústia de não sentir.
Saiu de casa para encontrar aquela que sabia tirar qualquer problema seu. Aquela que ensinava a ele as coisas mais simples e lindas do mundo. Aquela que estupidamente o largara na noite passada.
Seus pés, acostumados ao caminho de sua casa, seguiram sozinhos. Sua mente, agora povoada de berros da dona Clotilde ("Ah! Eu vou morrer! Acabou minha vida sem meu nariz! Filho! Faça alguma coisa!") e por vapor de água quente, viajava por um caminho obscuro. Por mais claro que estivesse o dia.
- O que aconteceu?
- Como? O que aconteceu? Comigo ou com você?
- Conosco.
- Conosco? Como você tem a coragem de aparecer aqui depois de tudo que você me falou ontem? Depois do jeito que você me tratou? Depois daqueles milhares de copos de bebida a toa?! - como se não bastassem os berros da mãe, teve que ouvir o berros da garota. Realmente, aquele não seria o melhor dia de ressaca que alguém poderia ter. Não que dias de ressaca fossem bons...
- Eu falei alguma coisa? Eu fiz alguma coisa? O que aconteceu? Se eu falei alguma besteira foi por ter bebido demais.
- Você simplesmente falou que não sentia mais nada comigo.
Abraçou-a, mas seus braços envolveram o nada. Passou a mão pelo rabo-de-cavalo dela - nada. Olhou-a nos olhos, apertou seus corpos, um contra o outro, com toda a sua força. Acariciou-a, por um momento quase pensou ter sentido a leveza do tecido do vestido âmbar ao entardecer da moça. Ilusão.
Tocou os lábios secos de álcool do dia anterior àqueles que sempre o esperavam macios. Beijou-a em um beijo nunca antes tido. Pelo menos, nunca lembrara de ter um como tal. Era um não-beijo. Não tinha nada. Nada de nada nem nada de nada.
Largou-a num impulso desesperador. Realmente, não sentia. Seria falta de amor? Seria doença de cansaço? Seria tudo uma brincadeira de mal gosto ou um daqueles pesadelos reais?
- É. Acho que não sinto mesmo. Sinto muito.
Saiu irritado. Incompreendido. Ela, bateu a porta.
Sem sentido, viu-se perdido. Era mais um com um sentido perdido.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Sentidos Perdidos IV
Tocou a campanhia. Dona Clotilde, com seu avental de flores e seu vestido de bolinhas laranjas, foi correndo atender. Adorava visitas.
- É aqui o 134, né? Vim arrumar algum cano...
- Ah, pode entrar... - sua insatisfação era nítida, ao ver que não era nenhum encanador bonitão para alegrar seu dia. - Olha, pode ficar aí mesmo, é onde tem um cano com problema.
- Mas esse seu banheiro está muito fedido... Eu, hein, ainda vou ter que aguentar esse cheiro?
Clotilde não entendeu nada. Para ela, era o cheiro que sempre sentira. Normal. Cheiro de nada. Largou o moço e voltou para cozinha onde preparava o bolo de aniversário de seu marido.
Adorava cozinhar, principalmente doces. Sempre empanturrara seu Gerson de tortas de morango, de limão, pudins de leite, bombas de chocolate e bolos, bolos, bolos. Depois reclamava do tamanho da barriga do marido, ou da descoberta das diabetes.
- Ô mãaaaae...
Mal colocara o bolo no forno e teve que ir correndo ver o filho que acabara de acordar, com cheio de ressaca. Não percebeu. Só notou o rosto cansado do garoto.
- Que foi? Que horas você chegou ontem?
- Não sei. Só sei que eu precisava ir ao banheiro para tomar banho e tem aquele cara lá. Já não agüento meu cheiro, estou muito fedido, mano.
- Claro que não, filhinho, só está cansado. O moço vai arrumar o banheiro e depois você vai. Você está cheirosinho como sempre.
A mãe, realmente, enlouquecera. Ou estava com o nariz realmente entupido. Nem ele se aguentava com aquele odor desagradabilíssimo que saía de seu corpo após um dia e uma noite suando e nada de banho.
- Mas filho, que bagunça está esse seu quarto! Deixa eu arrumar um pouco...
O "pouco" dela, tornou-se horas de arrumação, e descobertas em meio às roupas amontoadas e revistas espalhadas.
- Mãe... Acho que tem alguma coisa queimando... Você está sentindo?
- Ah, deve ser o vizinho, você sabe como ele é!
Do banheiro, ouviu-se um berro. Era o encanador avisando que sentira cheiro de queimado vindo da cozinha.
- Esse encanador é muito intrometido. Onde já se viu, falar que alguma coisa estaria queimando se não há nem cheiro!?
- Na verdade, mãe, eu estou falando sério, está cheirando sim a queimado. Você não colocou nada no forno?
- Claro que sim, o bolo de aniversário do seu pai, mas acha que eu, nesses anos de cozinha que tenho, deixaria alguma coisa passar do ponto?
- Sei lá, mãe, o cheiro está realmente muito forte...
- Você está imaginando coisas, é o cansaço. - disse enquanto estendia os lençóis.
Um grito desesperado interrompeu a arrumação, era, de novo, o encanador:
- FOGO NA COZINHA!
Saíram correndo. A cozinha estava uma fumaça só. Mal se via o fogão, a geladeira. O cheiro era impossível, sufocante. Não conseguiam respirar. Dona Clotilde, porém, respirava. Não entendia da onde viera aquela fumaça.
- Ué, mas o bolo nem queimou! Como pode ter saído essa fumaceira? - disse após seu filho, com o instintor de incêndio, amenizar o fogão que era, literalmente, um fogão.
- Nem queimou? Isso é só carvão, dona!
- Nossa! É mesmo! Mas nem está cheirando a queimado...
Realmente, o encanador percebera que havia se metido na casa de uma senhora, no mínimo, sem nariz. E quase morrera em um incêndio.
- Mãe, você está doida? Olha isso aqui! Quase que a gente morre!
Doida ela não estava. Só não sentia cheiro nenhum. Seu olfato, de fato, estava com sérios problemas. E agora? Será que nunca mais uma flor seria carregada de perfume?
Se bem que para ela, flores não interessavam. A verdadeira preocupação era com as comidas - não sentiria mais aquele cheirinho de almoço pronto no ar. Não sentiria o gosto de seu almoço. Não saberia se a quantidade de sal está boa. Erraria o ponto de todos os bolos. Erraria a dose de açúcar.
E perderia o posto de "cozinheira-de-mão-cheia". Todos a criticariam. Deixaria de ser a melhor mãe/esposa/vizinha.
O jeito seria parar de cozinhar - pelo menos assim as pessoas não a veriam errar. Mas, em compensação, nunca mais sorriria ao ver alguém elogiar sua comida, em frente ao prato vazio.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Sentidos Perdidos III
Seu Caetano não entendia como aquelas pessoas podiam se irritar tanto com tão pouco. Se aquela mulher tivesse passado a noite em uma guarita, ela teria motivo para estar, no mínimo, irritada de sono - como ele estava.
O interfone não parara de tocar, cada hora alguém com um problema diferente, como se ele pudesse solucionar todos.
Já não aguentava mais aquele toque, outra vez irritando-o.
- Portaria, bom dia. - pelo menos rima ele fazia.
- Seu Caetano, hoje vai vir um encanador para arrumar meu banheiro, então eu gostaria que você liberasse a entrada. Depois também, se vier uma encomenda no meu nome - uma caixa grande, vermelho tijolo esmaecido - pode aceitar que não é nenhuma bomba, haha, e outra coisa, que horas o meu filho chegou ontem? Sabe como é, eu peguei no sono e agora que eu fui ver ele está lá, acabado, no quarto. Alguma idéia? Foi muito tarde?
-
- Desculpa, você pode repetir?
- !
- Olha, vou ligar de novo porque eu não estou ouvindo nada. Acho que deu defeito na ligação. Você está me ouvindo?
-
- É, não deve estar.
- !!
- Faz assim, espera 2 segundos.
Dona Clotilde, do 134, dona da caixa vermelha tijolo esmaecido, voltou a ligar umas 3 vezes, e nenhuma das vezes ouvia a resposta de seu Caetano. Deixa para lá. Ele deve ter entendido.
Não deu nem tempo de descanso para os ouvidos, interfone insistiu em tocar:
- Oi, você poderia interfonar para o 52 para mim?
-
- Alô, seu Caetano, o 52... Dá para você me responder? Alô? ALÔ?
-
- SEU CAETANO? SÓ ME PASSA PARA O 52!
Seu Caetano passou, enquanto o moço, irritado, achara que ele estivesse fazendo alguma gracinha.
Gracinha que nada! Era sua voz que não saía. Estava mudo.
Mudo, mas feliz: pelo menos agora podia se concentrar apenas no abrir e fechar dos portões, pois já não havia motivo para deixar o interfone no gancho - não conseguia fazer com que os outros o escutassem, mesmo!
Sem contar que agora ninguém mais reclamaria do seu sotaque puxado ou de seu tom de voz. Era tudo o mesmo - nada.
domingo, 26 de outubro de 2008
Sentidos Perdidos II
Chegou na garagem e achou estranho o carro pegar sem que ela antes ouvisse o barulho do motor.
-Seu Caetano! Abre o portão para mim!
O porteiro não abria, assim como ela não ouvira sua voz o chamar. Falou mais alto:
- SEU CAETANO, O PORTÃO!
-Calma, dona! Já vai!
Ela o viu murmurando alguma coisa e em seguida, o portão se abriu. Engraçado não ter ouvido seus berros e nem mesmo o que ele dissera - da próxima vez deixaria o vidro aberto.
Ligou o rádio, e antes mesmo de perceber qual música estava tocando, começou a cantar. Pelo menos isso pensava que estava fazendo. Não ouvia nada. Nem música, nem voz. Sabia estar ligada na estação. Sabia estar gesticulando. Sua voz não saía. Os sons não saiam.
Ou ela não ouvia.
Entrou em desespero. Começou a berrar, a buzinar... Parou o trânsito da esquina de sua casa. Pessoas se aproximaram, todas mexendo os lábios, mas não soltando vozes.
Silêncio absoluto.
Devia ter sido algum feitiço do Seu Caetano. Ela tinha certeza que ele devia estar com ciúmes de seus brincos cor de âmbar ao entardecer.
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