segunda-feira, 30 de junho de 2008

Estação


Atenção, atenção!

O trem já vai partir. Por favor, passageiros, dirijam-se todos para a Estação K-torze B (porque nós não gostamos de números - eles são frios e impessoais). Peguem suas malas, e deixem-nas em um lugar onde elas não irão atrapalhá-los. Crianças de colo devem aprender a andar e a cantar para deixarem de chorar.

Será servido rabanete com repolho àquelas que bem se comportarem - isso inclui risadinhas simpáticas, mesmo em momentos de agonia. Nosso serviço de bordo inclui, apenas para os adultos, suco de berinjela e tremoço ralado.

Corram, corram - que o tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bameirindus continua numa boa. Peguem seu Dramin porque essa viagem promete: balançará vagões e corações. Em tempos de cego, quem tem um olho é caolho. Peço, então, para que não se afobem - há lugar para todos (ainda que seja junto às bagagens, às palhas e às madeiras que virarão carvão...não, vocês não virarão carvão - nem e fossem o Pinóquio, tranquilos, passageiros! Pelo menos por enquanto, eu garanto).

Vamos embora - olha a hora! Quem chegar por último é a mulher do sapo ou o homem da sapa (e vocês sabem que eles não costumam ser muito fiéis). Ou, também, pode ser a mulher do padre (leia-se: mula-sem-cabeça). Notem o machismo mundano que ameaça duplamente as mulheres atrasadas!! Não reclamem, meninas: sejam homens e engulam o choro. Eu disse pra engolirem o choro!

É tempo de rosas azuis e céus vermelhos. Ou melhor, não é tempo. Vamos logo, cresçam logo, peguem o trem - não vou dizer que é da vida, para não soltar um clichê, não tenho tempo para clichês!- que já está partindo!

sábado, 28 de junho de 2008

Aleatórios


(I)
dançou
girou
caiu
riu
!!
!

(II)
O chocolate com um nome impressionantemente condizente é o bis.
Impossível comer um só.
Espera. É chocolate ou salgadinho?


(III)

Tal mãe, tal filha

-Filha, você é muito teimosa.
-Eu não sou teimosa, não.
-É sim.
-Não sou!
-É.
-Não sou coisíssima nenhuma!

-Quantas vezes eu vou ter que dizer que você é sim?
-Mas eu não sou! Você que é muito repetitiva!
-Eu? Não! Você que é teimosa!
-Que droga, eu não sou teimosa! Você fica falando mil vezes a mesma coisa. E ainda fala coisa que eu não sou.
-Você é SIM, teimosa.
-Não sou. Repetitiva.
-Teimosa.
-Teimosa, não! Já disse!
-Teimosa e repetiviva.
-Você!
-Não, você.
-Você.
-Nós?
-Não, não e não. Eu não sou teimosa.
-Quantas vezes eu vou ter que repetir?
-Viu! Você que é repetitiva!
-Mas que teimosia!
-Que repetição...

domingo, 22 de junho de 2008

Tinta de Limão


Querido amigo secreto (e não digo aqueles que mudam a cada fim de ano e surgem nomeados em um papelzinho) que você sabe muito bem quem é,

Tenho uma coisa muito importante pra falar pra você. Acho que você sabe como funciona a nossa tática secreta de palavras invisíveis. Acho não. Tenho certeza. Você é tão inteligente quanto o Napoleão, papagaio da nossa vizinha que sabe cantar o hino da frança de trás pra frente e de frente pra trás. Sabia que outro dia eu o vi ensaiando o hino nacional? Mas ele se enroscou naquela parte...ai, agora eu não sei se era a parte de que de amor e esperança à terra desce ou se foi na do lábaro espelhado, ou estrelado, e do verde-louro da flâmula. O que é flâmula? Parece o nome de uma flor de pássaro. Ah, aquela parte com palavras difíceis que todo mundo finge que canta, mas ninguém consegue. Sabe? Eu até ia ajudar o coitadinho, mas como você viu, eu também não sei, então achei melhor ficar quieta.

Mas então, silêncio, hein. Ninguém deve saber do que eu vou te contar. É um segredo nosso. Entre mim e você. (olha como eu sou sabedora de falar direito o português! Você prestou atenção que a tia Andréia ensinou que as coisas só podem acontecer entre mim e não entre eu, né?).

Continuando. É mais um segredo - e esse não envolve as nossas descobertas no jardim do Alfredo e muito menos nossas conversas de fim de tarde. Também não envolve aquele vaso da sua vovó que eu quebrei sem querer. Quer dizer, eu te contei do vaso da sua vó Florência? Acho que não. Ah, tudo bem, agora você já está sabendo. E eu peço mil desculpas, porque naquele dia meu coração também ficou em caquinhos e nem deu pra colar com superbonder. Em compensação, eu colei meu dedinho. Lembra? Por isso que eu tava mexendo na cola. Você não percebeu?

Tá. Vão achar que é só uma folha em branco. Uma folha em branco, mas com palavras ácidas escritas especialmente para você. Você, que entende e gosta desse gosto cítrico (cítrico era o que tava dizendo a tv sobre aquele coiso de limão, acho que era o chiclete... e como minha tinta é de limão é também cítrico). Você, que ao contrário de mim, prefere as balas do mentos que são amarelas (e me adoça com todas as rosas).

Antes que eu tenha que cortar outros limãos (ou é limões?), deixe-me dizer logo o que eu vim contar para você. E acabar com essa enrolação. Se bem que eu acho que essa enrolação serve mais para me preparar. Porque eu tenho que tomar fôlego e suco de tangerina com bastante açúcar para isso. É o seguinte. Eu vou falar.

Lembra daquele dia que você estava brincando com o Zé, o filho da dona Lúcia, e o Luísinho? E eu estava com a Bi, a Má, a Lá, a Ká, a Patinha, a Rafa, a Déia e a Ju? E todas nós estávamos pulando amarelinha e corda e cuidando das nossas filhas? Aquele dia que a Má chorou porque a boneca dela tinha caído na lama e sujado o vestidinho, lembra? Aí a Rafa foi lá e brigou com ela porque disse que ela não podia chorar pra não assustar a filha dela? E eu nem sabia o que falar, nem o que fazer porque era um vestido novo o da filha da Má? Aí eu voltei e fui embora e fui pra casa e saí de lá?

Eu até te contei essa história. Lembra? Então.


Ai. Eu falo ou não? Vou falar porque tá acabando o suco e se minha mãe perceber que eu acabei com a limonada ela vai reclamar um montão e eu disse que eu ia falar uma coisa muito importante pra você e que era um segredo. E eu confio em você até que bastante.

Pois é. Naquele dia, eu acho que eu percebi, que eu prefiro muito mais de verdade brincar com você do que com elas. Pronto. Falei. Era isso.

Ass.: Euzinha

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Podre Perfumado


O mundo ao avesso expõe suas vísceras banhadas de sangue. Crianças desaparecem - roubadas, mortas, subnutridas. A infância evapora na tentativa prematura de fazer com que existam pequenos adultos, trabalhando, cobrindo rostos pueris com maquiagens ou pés número 28 com grandes sapatos que lembram a figura de um palhaço.

O circo pega fogo e não há bombeiros decentes capazes de apagá-lo: estão todos deitados, dormindo, embriagados com copos na mão frouxa. Copos que caem, e em cacos cortam os pés do menino malabarista do farol.

A política diz ser feita – mãos gordurosas sedentas pelo poder a comandam. Mãos corruptas capazes de, em uma dança hipócrita e repugnante, aclamar ao povo como são boas. Acariciam almas perdidas na sujeira debaixo dos viadutos.

A bala abruptamente rompe o silêncio. Rasga vidas e famílias. Famílias, aliás, inexistentes, pseudofamílias – fachadas sem comunicação. Pessoas não mais conversam, são isoladas individualmente em gaiolas de medos, obsessões, transtornos, pílulas, crenças individualistas, aparelhos de academias, bisturis e pinças.

O riso nervoso se confunde com a música gritante do caos das buzinas. O cheiro fedido do rio é como suco de cadáver da notícia dada no jornal popular (fédivé!). Vincos são formados em rostos aflitos. Rostos nervosos. Rabugentos, jovens tornam-se velhos. Esquecidos, velhos voltam a ser crianças. Crianças, estas, adultas. E os adultos, perdidos, orquestram a desordem.

Amigos não mais se encontram. Corações são dilacerados. Sonhos, rasgados e almas, comprimidas em vidrinhos etiquetados e, não podemos nos esquecer!, com códigos de barra. Ilusões viram loucuras. Relógios tictateiam. Mentes são ocupadas com preocupações. Pontos de interrogação terminam todas as frases.

Em meio a tudo isso, somos capazes de, com gosto, dizer como a vida é bela. Como ainda há esperança. Afirmar que nem tudo está acabado. Levantamos para mais um dia. Sorrimos ao sentir o cheiro do café prontinho. Abraçamos os conhecidos. Pedimos pizzas de frango com catupiry e programamos o carnaval. Reclamamos da pasta de dente que não foi fechada. Trocamos lâmpadas e fazemos disto uma aventura. Vivemos, vivemos, e vivemos. Como?


O que aconteceria...


se o anel de vidro que tu me destes não tivesse se quebrado?
se o gato em que você atirou o pau tivesse morrido?
se o boi tivesse pegado aquela menina que tem medo de careta?
se o pequeno bote dos indiozinhos tivesse virado?
se samba-lelê não tivesse a cadeira quebrada?
se o senhor capitão não tivesse um ginete na mão?
se papai não tivesse ido à roça; nem mamãe, trabalhar?
se a batatinha quando nascesse não tivesse se esparramado pelo chão?
se a borboletinha não soubesse fazer chocolate?
se o balão tivesse, sim, caído na minha mão?
se o coelhinho da páscoa fosse daltônico?

se o Doug não tivesse um diário, o Harry Potter um raio na testa, o Nino mais de 300 anos, o Arnold uma cabeça de bigorda e o Bob um triciclo?
se o cachorro de Tintin fosse um poodle?
se o Pernalonga não falasse "O que há, velhinho?"?
se as Tartarugas Ninjas enjoassem de pizza (ou se o Scooby Doo enjoasse daqueles biscoitinhos)?
se o Beackman (ou o Dexter) fosse um cozinheiro?
se o Pica-Pau não risse de forma engraçada?
se a Magali engordasse ou se o Cascão tomasse banho?
se a amiga da Ginger não fosse fanha?
se os produtos ACME não falhassem?

se a Branca de Neve não gostasse de maçã?
se o Pinóquio fosse feito de plástico?
se o Dumbo comesse tanto que não conseguisse se suportar?
se o sapato da Cinderela estivesse tão apertado e não caísse nunca?
se a Alice tivesse seguido um cachorro marrom e não o coelho branco?
se o Peter Pan não tivesse perdido sua sombra?
se a Ariel quisesse ser um peixe?
se o Alladin não tivesse esfregado a lâmpada?
se o Mufasa pudesse voar?
se o Kuzco virasse um esquilo, e não uma lhama?
se o pai do Nemo não o encontrasse?

[resposta: minha infância teria sido, no mínimo, diferente. E a sua?]

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Drive-Thru

(I)
-Um quarteirão, por favor.

-Para beber?

-Suco de maracujá.

-Algo para acompanhamento?

-Um amor de verdade que não ronque a noite; saiba cantar (pode ser no chuveiro); dance sem preconceitos; seja engraçado (mas não bobo); possua inteligência e saiba usá-la; não reclame de coisas à toa; cozinhe tão bem quanto a minha avó; fique bem humorado mesmo ao acordar cedo; abrace-me com freqüência (mas sem que eu tenha que pedir); goste de discos e livros; sonhe em dar a volta ao mundo; queira conhecer Bangladesh; tenha diploma universitário, carteira de motorista, dentes brancos de não-fumante, um filhote de labrador como bicho de estimação e uma família cheia de primos; goste de andar na praia com os pés na beira do mar; entenda minha TPM; brinque com as crianças do vizinho, mas não me troque por um video-game; passe sua própria roupa e que abaixe a tampa da privada.

-Desculpe moça, mas aqui é só o McDonald´s.

Saiu desiludida e besta com o que acabara de falar. Claro que aquilo era só o McDonald´s. O máximo que eles poderiam oferecer era um palhaço ridículo de cabelo vermelho e roupas amarelas. Pegou seu pacote, pagou, e resolveu ir para casa naquela noite vazia.


(II)
-Me vê um big mac.

-O número 1?

-Não, só com uma coca grande.

-Mas e para acompanhar?

-Alguém que não tenha dores de cabeça freqüente; faça caminhadas e trilhas; possua uma família não muito grande (incluindo tias não muito chatas e mãe agradabilíssima); goste de viajar; acampe sem medo de mosquitos; assuma suas responsabilidades; sinta ciúmes ao me ver com a secretária; entenda meu futebol às 4as e aos sábados; aprecie um churrasco; beba cerveja bem gelada; não peça só salada nos restaurantes; leia livros que não sejam de auto-ajuda; escute uma boa música junto com um vinho; faça macarrão que nem a minha mãe; trabalhe -mas nem tanto; tenha senso de direção, decote, simacol, mãos delicadas, meiguice, sorrisos pela manhã, bunda, sensatez; e não tenha muita vergonha, monólogos agudos, falas óbvias e fúteis ou grande compulsão por comprar; goste de nadar no mar sem pensar em tubarões; assine um jornal; beba café; não seja escandalosa a toa e que não pendure a calcinha no chuveiro.

-Senhor, aqui é só o McDonald´s...

Ele sabia. Sabia que era só o McDonald´s e se irritava com a obviedade que a atendente acabara de falar. Po, era só um desabafo. Até quando as pessoas não entenderiam as ironias? Até quando as perguntas mal feitas deveriam ter respostas diretas? Ela perguntou o que ele queria para acompanhar e ele disse. Ponto. Decidiu que melhor seria voltar para casa. E passar a pilha de roupa que o aguardava.

(III)

Entraram no hall e perceberam que os dois carregavam o mesmo pacote do McDonald´s. Olharam um para o outro. Deram um sorriso tímido. Era uma sexta feira sem graça, daquelas em que os amigos esquecem de combinar algo para se fazer depois do incessante dia de trabalho. Talvez por causa da correria da semana, dos inúmeros projetos, textos, deveres a serem entregues. Talvez por que os astros entraram em acordo para que fosse o dia-de-ficar-em-casa-vendo-tv-e-comendo-mcdonalds.

Ela começou a procurar sua chave na imensidão de sua bolsa sem fundo. Ele parou para observar. Nunca tinham se falado – caso haviam, os diálogos, provavelmente, não passavam do educado “bom dia, boa noite” ou da conversa-tema de elevador: “é, parece que vai esfriar”, “calor, né”, “ih, vai chover...”.

-Quer ajuda?

-Não, não...já estou quase conseguindo achar a chave...ah, está aqui.

-Você gosta de acampar? –perguntou ao notar que o chaveiro da moça era um pequeno canivete suíço.

-Gosto, quer dizer, gostava, sempre ia quando era mais jovem, adoro viajar. Por mim conheceria o mundo só com uma mochila nas costas.

-Iria até para Bangladesh?

-Lógico! Sempre quis ir pra Bangladesh. Nossa, por que você falou em Bangladesh?

-Que engraçado, eu não sei porquê, mas também gostaria de ir para lá. Estranho. Achei que fosse o único.

-Ahm...Sabe de uma coisa, você está com vontade mesmo de comer esse seu sanduíche-de-gordura-trans? Assim, porque pensando bem, eu agora perdi a vontade do meu quarteirão...queria fazer um macarrão. Tenho uma receita muito boa, aliás, eu cozinho bem...se você quisesse, a gente..

-Eu..eu tenho uma garrafa de vinho lá em casa, nós poderíamos também beber...

-Se você preferir, pode ser na sua casa. Quer dizer, eu pego os ingredientes aqui e levo.

-Eu tenho algumas coisas também, eu gosto de cozinhar. Provavelmente você não precisa de nenhum ingrediente muito raro, alguma especiaria da índia da época de Cabral, ou algo do gênero, precisa?

-Não, não. Se bem que, é melhor ser em casa mesmo. Depois suas panelas vão ficar sujas, e...ah, essa não é minha intenção.

- Você é que sabe. Na sua casa ou na minha?

Eles pararam por um instante. Olharam-se novamente. Riram. E decidiram.

Engraçado como os caminhos se cruzam, como coincidências acontecem e como situações inesperadas podem alegrar uma semana que caíra na rotina. Engraçado como um momento qualquer pode definir os dias seguintes. Ela descobriu alguém que abaixava a tampa da privada. Ele, alguém que não pendurava as calcinhas no chuveiro. E os dois, algo que nunca haviam descoberto.

Classificados

  • Vendo sonho de valsa; sonho de bolero; sonho de MPB; sonho de tango; sonho de bossa nova; sonho de forró universitário; sonho de rock alternativo e sonho de reggae.

  • Troco figurinhas do álbum da Copa do Mundo de 98 por brownies com nozes da Carol.

  • Rifo cafunés -baratinho!

  • Alugo um dia de companhia num gramado ensolarado. Preço/forma de pagamento a combinar.

  • Relíquia! Chifre de unicórnio encontrado em praia brasileira em 1996. Preço incrível!

  • Troco um dia de chuva sem graça por um dia de sol com graça.

  • Adoto pessoas carentes e revoltadas.

  • Procuro noite de sono sem roncos escandalosos. Recompensa-se!

  • Compro baboseiras, quinquilharias, máquinas de coca-cola quente e sem gás, churrasqueiras sem fumaça, amores perdidos, cachorros de agosto, etc.
[e você?]

domingo, 8 de junho de 2008

Futuro



Sem carros:
o mundo seria menos poluído;
o trânsito seria menor;
o petróleo viraria mais plástico;
as ruas seriam menos pratas e pretas.

Sem roupas:
as estilistas seriam extintas;
as praias seriam todas de nudismo;
as vitrines seriam só vidro;
o frio seria mais forte;

a pergunta mais solidária -ou a cantada mais manjada- seria:
"quer vir na minha garupa?"
já a dúvida mais cruel:
"caso ou compro uma bicicleta?"
(porque bicicletas estariam tão em alta que seriam o único sonho de consumo do mundo.)

bicicletas verdes, rosas, amarelas, azuis, pretas, brancas, prateadas.
com marcha, sem marcha.
até chegar ao modelo com escapamento, movido a gasolina e que viesse com roupa especial para o ciclismo.
e tudo voltaria como está.

[passeata em Madrid, ocorrida hoje, sábado -porque eu ainda não dormi então não é domingo-, contra o seqüestro das ruas pelos carros e a favor da recuperação do espaço urbano pelas pessoas.]

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Utilidades

Jornal:

-para fazer o chapéu em dia de pirata.
-para embrulhar copos em dia de mudança.
-para deixar as mãos sujas em dia de banho.
-para forrar o chão em dia de pintar as paredes.
-para acompanhar um solitário em dia de café-da-manhã com tempo.
-para ler os grandes acontecimentos em dia que nada mais aconteceu.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Juca

Deu vontade de gritar bem alto com a voz rouca e perceber como só saía a alegria.

De Repente

Vamos sair por aí.
Apostar uma corrida.
Dançar ridiculamente.
Rir do desnecessário.

Rolar numa grama verdinha.
Pular de um muro bem alto.
Andar na guia sem cair.
Levitar sem sair do chão.

Cantar sem saber a letra.
Sorrir para um estranho.
Abraçar uma velhinha.
Brincar com uma criança.

Tomar um sorvete de pistache.
Beber licor de contos de fadas.
Lembrar da vida engraçada.
Inventar um mundo novo.

Fingir estar de férias.
Imitar os vários sotaques.
Surfar no ônibus vazio.
Entender um quadro surrealista.

Ver nas nuvens desenhos.
Pintar a cara com guache.
Desenhar no vapor do banho.
Colorir com lápis bem apontados.

Balançar as pernas na gangorra.
Dar cambalhota três vezes.
Apertar bem forte as mãos.
Tentar dar uma estrela.

Começar por “Era uma vez”
Apostar que a eternidade existe.
Sentir o sol bater no rosto.
Ouvir o vento recitar poesias.

Tudo isso sem se cansar.

Vamos?

terça-feira, 20 de maio de 2008

Erros Certos (ou Certos Erros)


- Por que você não toma vergonha na cara?

- Como assim?

- É isso mesmo. Vergonha na cara.

- O que foi que eu fiz dessa vez?

- Dessa vez? Dessa vez e sempre. Viu só como você sabe que sempre faz coisa desse tipo? Até falou o "dessa vez". Ou seja, além de tudo você reconhece seu erro e continua repetindo-o.

- Erro? Que erro?

- Esse que é o maior problema. Errar é humano, não é isso que dizem? Agora, errar eternamente, aí não, pelamordedeus, aí é por que tem algum problema. E não é só um erro. Antes fosse. São vários. Todo dia. Sempre. Não dá tempo nem para desculpar que já vêm outros. Não, eu não aguento. Sabe o que é chegar em casa cansada depois de um dia estressante de trabalho, com aquele chefe infernal reclamando na sua orelha, o café frio em cima da mesa, por que você sabe, né?

- O quê?

- O café! Que o café esfria e eu não tenho nem tempo para buscar outro. Quer dizer, eu não tenho nem tempo de tomar o café, senão ele não ficaria frio. Mas é claro que você sabia. Eu já tinha comentado sobre isso. Tá vendo como você não me escuta?! Eu falei!

- Mas você não tinha coment...

-...E ainda tem a coragem de dizer que EU não tinha comentado?! Você não tem jeito mesmo. Eu bem que devia ter escutado a sua mãe. Aliás, você ligou pra ela? Provavelmente não, coitada. Graças a deus que eu não tenho um filho igual a você. Se bem que nem filho eu tenho. Sabia que a Glorinha teve uma menina?

- Não..

- Não? Sabia sim! Pode falar, é claro que sabia. E deve ter sido o primeiro a ficar sabendo. Ou você não joga mais futebol com o Rogério? Não acredito. Não posso nem imaginar em uma hipótese dessa. Por acaso você está me enganando? Dizendo que vai jogar uma pelada...Ah! Agora eu entendi sobre a pelada de quarta. Não, não pode ser. Diz que não é verdade. Descaradamente! E eu, com minha boa vontade, apoiando sua vida menos sedentária! Não, não é possível. Quem é a desgraçada?! O que eu fiz pra merecer isso? Por quê? Qual é meu problema?

- Nenhum...

- Então por que você me deixa aqui sozinha vendo aquela droga de novela nas quartas pra sair com outra?!

- Mas que outra?!

- Aquela. Como que outra?! Você mesmo admitiu que não vai jogar futebol com seus amigos durante às quartas, então pra onde você vai? Visitar alguma creche, asilo? Fazer trabalho voluntário?

- Não, a gente joga sim. Você não tinha comentado que eu até estava com mais fôlego, com menos barriga...

- Isso não se consegue só com umas partidinhas de futebol! E fôlego..não pode ser! Então é verdade!

- É sim.

- É SIM? Você está saindo com uma lambisgóia e me trocando?!

- Não! É verdade que depois do trabalho, eu vou jogar bola.

- Que bola?

- Futebol! Que coisa! Deixa de ser paranóica, eu não estou saindo com ninguém!

- Como não? E você joga sozinho, então?

- Não se faça de desentendida.

- Você que está agindo como se não soubesse de nada.

- O que eu deveria saber?

- Tudo.

- Tudo? Impossível saber tudo. Ninguém sabe de tudo.

- Pelo menos as coisas que eu falo! Você deveria me escutar mais, e não fingir que está escutando.

- Eu escuto!

- Não! Você não ouve e parece que eu estou falando com as paredes. Aliás, até as paredes me entendem mais do que você. Falando nisso, você não disse que ia pintar nossa casa?

- Nossa?

- Ai, essa casa. Pronto, melhor assim? Sem responsabilidades que o "nossa" carrega? Viu como você é infantil? Então, como eu tinha dito, a filha da Glorinha, a Gabriela...mas que mania de colocar filho com a mesma letra da mãe. Quero ver quando ela tiver outros. Vai chegar num ponto que nem nome vai existir mais com a letra G. Se bem que ela não vai ter mais filhos. Nem sei como conseguiu ter essa menina...você não acha?

- Acho o quê?

- Da Glorinha! Que ela não ia ter filhos. Mas você não presta atenção em nada mesmo, viu. Pois eu pensei que nem fosse ter. A gente tem que ir um dia lá no hospital.

- Hospital? Por quê? Alguém está doente?

- Pra visitar a Glorinha! Ou você acha que ela vai ficar lá pra sempre? Se bem que poderia. É errado falar mal das pessoas, mas aquela mulher, ah, ela merece. Onde já se viu? Tratar o marido daquele jeito, eu, hein. Quer dizer, eles se casaram?

- O Rogério e a Glorinha? Acho que sim.

- Quando? E nem nos chamaram? Como que eles tiveram a coragem de não nos chamar? Deve ter tido uma festa e tanto, a família dela parece que é rica, não é? Mas quando foi esse casamento? A gente estava aqui em São Paulo? Ou foi em algum feriado em que a gente teve que visitar sua família naquela roça desgraçada? Deve ter sido em maio. Maio tem o quê? Dia do Trabalho, Corpus Christi...não, ela não ia se casar em nenhum feriado. Por que a gente não foi?

- Acho que não teve festa..

- Como não? Acha que não ia ter?! Ia sim! Só pra ela ter que jogar o buquê na cara das solteironas. E a Vanessa! Eu não te contei!

- O que aconteceu?

- Encalhada. De novo. O problema é que aí ela afunda no chocolate e fica feito uma baleia. Uma baleia encalhada.

- Não fala assim da sua amiga...

- Não, mas é verdade. Ai, o que tá acontecendo comigo? Tem razão, ela não merece esse tratamento. Mas eu falo pra ela que não é assim que ela vai conseguir ser feliz...Por que eu ando desse jeito?! O que foi que eu fiz? Ela sempre foi tão boazinha comigo. Sempre me ajudou. Que nem aquele dia em que, pera, não foi ela que nos apresentou? Num era aniversário do irmão dela? Como é o nome dele mesmo? Não importa. Viu só, ela sempre foi uma amiga excepcional.

- Já que você pôde me conhecer?

- Não! Você só pensa em você! É "eu, eu, eu" o tempo todo. Onde foi que eu errei?

- Você errou? Não tinha sido eu o erro personificado?

- Tinha. Quer dizer, é! Ah! Ou somos dois? Dois erros perambulando por essa vida.

- Meu erro é você.

- Não. Você é meu erro.

E não tomaram vergonha na cara, na alma, no choro ou no riso. Continuaram se amando.

[assim como eu não tomei e continuarei nessa falta de overdose palavreira]

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Pequenices

(I)

Olhou bem para a mãe, que se perdia em meio a tantos pensamentos enquanto cozinhava o arroz. A cadeira, gigante, a esperava. Empurrou o mostrengo para perto do interfone e começo a escalá-lo.

-Num vai cair...

Não deu ouvidos. Como todas as crianças, ela não precisava se preocupar com o fato de se machucar, não tinha motivos para previnir-se -ainda era tão pequena que se curaria em instantes de qualquer coisa. Colocou o joelho na cadeira, puxou seu corpo com os braços para que a outra perna alcançasse a mesma posição deste e subiu. Finalmente. Do alto, avistou sua mãe. Quase podia enxergar como ela enxergava. Quase não, porque ainda faltavam uns bons decímetros, mas os 50cm de cadeira já eram um avanço.

-Cuidado, filha...

Não desceu. Ainda não havia atingido sua meta: o interfone. Estendeu os braços. Ficou na ponta dos pés. A cadeira andou, fazendo um ruído horrososo, agudos, daqueles que fazem quando são arrastadas nos chãos das cozinhas. Segurou-se no aparelho. Cambaleou.

-Desce daí! Não quero ter que levar filha minha pro hospital! Querida, vem pra cá, vem, fica aqui pertinho.

A mãe largou a panela, observar só não adiantava, tinha que agir. Viu que ela tirara o interfone do gancho. Parou.

-Por favor, você poderia ligar para o 192?

Seus olhos se encheram de lágrimas. Sua filha, pela primeira vez, ligando para a amiga. Interfonando para a vizinha. Por livre e espontânea vontade. Sozinha. Sem a ajuda de ninguém. E tinha apenas 2 anos. 2 anos!? Esqueceu-se dos machucados, da filha chorando no chão caso caísse, dos excessivos cuidados de mãe coruja. Era sua bonequinha, agindo como uma mocinha, atingindo seus objetivos, e deixando-a orgulhosa. Toda a preocupação tranformara-se em satisfação. Em apenas alguns segundos.

-Mãe, ela vai vir pra cá. Me ajuda a descer? -disse, estendendo os braços.

Recebeu mais: um abraço.

(II)

-Não tiro.

-Tira sim, vai. Você já está grandinha. Já está mais do que na hora de largar essa chupeta. Pelo menos para dormir. Me dá.

-Ah mãe, eu durmo sim com a minha chupeta. Você só pede pra que eu tire porque não sabe o que é dormir sozinha. Você tem o papai para te acompanhar. Eu tenho a minha chupeta.

E continuou acompanhada por um bom tempo.

(III)

-Em boca fechada não entra mosca.

-E também não entra chocolate!

[melhor do que ouvir histórias é saber que você era a personagem.]

quinta-feira, 20 de março de 2008

Geléia

Era um dia comum, de uma semana comum, de um mês mais comum ainda. Trabalhos, projetos, inúmeras responsabilidades a atordoava enquanto andava em direção à faculdade. Por sorte, a rotina colocara em seu caminho uma loja de animais, de onde algo a chamava. Eram batidas atormentadas no vidro da vitrine, escandalosas. Latidos que mais pareciam súplicas, pedidos de socorro. Ou melhor, eram eufóricos como se houvesse encontrado algo que perdera há tempo.

Sem hesitar, ela parou em frente à loja. O animal acalmou-se, e agora parecia chamá-la: "Entre! Esperei tanto por esse dia!". Foi o que fez. Minutos depois viu-se com a cadelinha nos braços, depois de muitos pulos de alegrias vindos desta.

-Ela é sempre assim?

-Não! Só com a senhora!

-Ela dormiu?

-Parece que sim...

Dormia. A cachorrinha, de olhos fechados, descansava serenamente em seu ombro. Como um bebê, uma criança no colo da mãe.

-Eu vou para a aula, tem como buscá-la depois?

-Claro.

[não sei se o "não! só com a senhora!" foi pura conversa de vendedora -e de boa vendedora-, ou era algo do além, aquelas coisas que dizem ser 'de outra vida']

-Filho! Uma cachorrinha!

Ele não acreditava. Esperava a mãe voltar da aula para pedir a ela que o levasse à casa de um amiguinho, para jogar video game. Agora não precisaria mais.

-Nossa, mãe! Ela faz o quê? Late?

-Late, late, sim! Foi ela que me encontrou, que me chamou!

-Sério? Mas mãe, ela tá tão quieta...

Embaixo dos armários da área de serviço, entre a parede e a geladeira, em cima do criado-mudo, não importava. A cadelinha se acomodava em qualquer lugar e lá ficara durante horas, horas..Não brincava, e muito menos se alegrava para passear. Ela permanecia eternamente "tão quieta".

-Problema no coração. -afirmou o veterinário.

Dias se passaram, e as férias chegaram. Nelas, a obrigação de "forçar o cachorro a passear" foi eliminada. Sem isso a cachorrinha ficava em casa, nos cantos, e só levantava para comer.

Comia, comia..foi engordando.

-Será que ela não tá prenha?

E engordava. Quando deitava, parecia uma geléia. Mal andava. O menino esquecera dela logo, preferia os amigos e os video games.

-O coração?

Continuava batendo, e lembrando do primeiro dia em que viu sua futura dona. Batendo, batendo. Fazendo com que toda sua energia fosse para seu pulsar. Batendo, batendo.

[me contaram hoje essa história, da Teka que tá-gorda-feito-uma-geléia.]

segunda-feira, 17 de março de 2008

Reviravolta


Eu que pensei que nunca mais teria um blog, enganei-me. Nunca mais seria muito tempo de afastamento. Escrever foi um vício. E ainda é. Palavras sempre correram por meu sangue e aqui, finalmente, encontrarão um meio para serem engarrafadas em pequenos vidros, dispostos organizadamente na prateleira dos dias.

Tome com cuidado, mas sem medo. Caso exagere, não me culpe! Foi por livre e espontânea vontade.


Aproveite, deguste e delicie-se com a doçura -ou acidez- dessas doses de palavras.