quarta-feira, 28 de maio de 2008

Utilidades

Jornal:

-para fazer o chapéu em dia de pirata.
-para embrulhar copos em dia de mudança.
-para deixar as mãos sujas em dia de banho.
-para forrar o chão em dia de pintar as paredes.
-para acompanhar um solitário em dia de café-da-manhã com tempo.
-para ler os grandes acontecimentos em dia que nada mais aconteceu.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Juca

Deu vontade de gritar bem alto com a voz rouca e perceber como só saía a alegria.

De Repente

Vamos sair por aí.
Apostar uma corrida.
Dançar ridiculamente.
Rir do desnecessário.

Rolar numa grama verdinha.
Pular de um muro bem alto.
Andar na guia sem cair.
Levitar sem sair do chão.

Cantar sem saber a letra.
Sorrir para um estranho.
Abraçar uma velhinha.
Brincar com uma criança.

Tomar um sorvete de pistache.
Beber licor de contos de fadas.
Lembrar da vida engraçada.
Inventar um mundo novo.

Fingir estar de férias.
Imitar os vários sotaques.
Surfar no ônibus vazio.
Entender um quadro surrealista.

Ver nas nuvens desenhos.
Pintar a cara com guache.
Desenhar no vapor do banho.
Colorir com lápis bem apontados.

Balançar as pernas na gangorra.
Dar cambalhota três vezes.
Apertar bem forte as mãos.
Tentar dar uma estrela.

Começar por “Era uma vez”
Apostar que a eternidade existe.
Sentir o sol bater no rosto.
Ouvir o vento recitar poesias.

Tudo isso sem se cansar.

Vamos?

terça-feira, 20 de maio de 2008

Erros Certos (ou Certos Erros)


- Por que você não toma vergonha na cara?

- Como assim?

- É isso mesmo. Vergonha na cara.

- O que foi que eu fiz dessa vez?

- Dessa vez? Dessa vez e sempre. Viu só como você sabe que sempre faz coisa desse tipo? Até falou o "dessa vez". Ou seja, além de tudo você reconhece seu erro e continua repetindo-o.

- Erro? Que erro?

- Esse que é o maior problema. Errar é humano, não é isso que dizem? Agora, errar eternamente, aí não, pelamordedeus, aí é por que tem algum problema. E não é só um erro. Antes fosse. São vários. Todo dia. Sempre. Não dá tempo nem para desculpar que já vêm outros. Não, eu não aguento. Sabe o que é chegar em casa cansada depois de um dia estressante de trabalho, com aquele chefe infernal reclamando na sua orelha, o café frio em cima da mesa, por que você sabe, né?

- O quê?

- O café! Que o café esfria e eu não tenho nem tempo para buscar outro. Quer dizer, eu não tenho nem tempo de tomar o café, senão ele não ficaria frio. Mas é claro que você sabia. Eu já tinha comentado sobre isso. Tá vendo como você não me escuta?! Eu falei!

- Mas você não tinha coment...

-...E ainda tem a coragem de dizer que EU não tinha comentado?! Você não tem jeito mesmo. Eu bem que devia ter escutado a sua mãe. Aliás, você ligou pra ela? Provavelmente não, coitada. Graças a deus que eu não tenho um filho igual a você. Se bem que nem filho eu tenho. Sabia que a Glorinha teve uma menina?

- Não..

- Não? Sabia sim! Pode falar, é claro que sabia. E deve ter sido o primeiro a ficar sabendo. Ou você não joga mais futebol com o Rogério? Não acredito. Não posso nem imaginar em uma hipótese dessa. Por acaso você está me enganando? Dizendo que vai jogar uma pelada...Ah! Agora eu entendi sobre a pelada de quarta. Não, não pode ser. Diz que não é verdade. Descaradamente! E eu, com minha boa vontade, apoiando sua vida menos sedentária! Não, não é possível. Quem é a desgraçada?! O que eu fiz pra merecer isso? Por quê? Qual é meu problema?

- Nenhum...

- Então por que você me deixa aqui sozinha vendo aquela droga de novela nas quartas pra sair com outra?!

- Mas que outra?!

- Aquela. Como que outra?! Você mesmo admitiu que não vai jogar futebol com seus amigos durante às quartas, então pra onde você vai? Visitar alguma creche, asilo? Fazer trabalho voluntário?

- Não, a gente joga sim. Você não tinha comentado que eu até estava com mais fôlego, com menos barriga...

- Isso não se consegue só com umas partidinhas de futebol! E fôlego..não pode ser! Então é verdade!

- É sim.

- É SIM? Você está saindo com uma lambisgóia e me trocando?!

- Não! É verdade que depois do trabalho, eu vou jogar bola.

- Que bola?

- Futebol! Que coisa! Deixa de ser paranóica, eu não estou saindo com ninguém!

- Como não? E você joga sozinho, então?

- Não se faça de desentendida.

- Você que está agindo como se não soubesse de nada.

- O que eu deveria saber?

- Tudo.

- Tudo? Impossível saber tudo. Ninguém sabe de tudo.

- Pelo menos as coisas que eu falo! Você deveria me escutar mais, e não fingir que está escutando.

- Eu escuto!

- Não! Você não ouve e parece que eu estou falando com as paredes. Aliás, até as paredes me entendem mais do que você. Falando nisso, você não disse que ia pintar nossa casa?

- Nossa?

- Ai, essa casa. Pronto, melhor assim? Sem responsabilidades que o "nossa" carrega? Viu como você é infantil? Então, como eu tinha dito, a filha da Glorinha, a Gabriela...mas que mania de colocar filho com a mesma letra da mãe. Quero ver quando ela tiver outros. Vai chegar num ponto que nem nome vai existir mais com a letra G. Se bem que ela não vai ter mais filhos. Nem sei como conseguiu ter essa menina...você não acha?

- Acho o quê?

- Da Glorinha! Que ela não ia ter filhos. Mas você não presta atenção em nada mesmo, viu. Pois eu pensei que nem fosse ter. A gente tem que ir um dia lá no hospital.

- Hospital? Por quê? Alguém está doente?

- Pra visitar a Glorinha! Ou você acha que ela vai ficar lá pra sempre? Se bem que poderia. É errado falar mal das pessoas, mas aquela mulher, ah, ela merece. Onde já se viu? Tratar o marido daquele jeito, eu, hein. Quer dizer, eles se casaram?

- O Rogério e a Glorinha? Acho que sim.

- Quando? E nem nos chamaram? Como que eles tiveram a coragem de não nos chamar? Deve ter tido uma festa e tanto, a família dela parece que é rica, não é? Mas quando foi esse casamento? A gente estava aqui em São Paulo? Ou foi em algum feriado em que a gente teve que visitar sua família naquela roça desgraçada? Deve ter sido em maio. Maio tem o quê? Dia do Trabalho, Corpus Christi...não, ela não ia se casar em nenhum feriado. Por que a gente não foi?

- Acho que não teve festa..

- Como não? Acha que não ia ter?! Ia sim! Só pra ela ter que jogar o buquê na cara das solteironas. E a Vanessa! Eu não te contei!

- O que aconteceu?

- Encalhada. De novo. O problema é que aí ela afunda no chocolate e fica feito uma baleia. Uma baleia encalhada.

- Não fala assim da sua amiga...

- Não, mas é verdade. Ai, o que tá acontecendo comigo? Tem razão, ela não merece esse tratamento. Mas eu falo pra ela que não é assim que ela vai conseguir ser feliz...Por que eu ando desse jeito?! O que foi que eu fiz? Ela sempre foi tão boazinha comigo. Sempre me ajudou. Que nem aquele dia em que, pera, não foi ela que nos apresentou? Num era aniversário do irmão dela? Como é o nome dele mesmo? Não importa. Viu só, ela sempre foi uma amiga excepcional.

- Já que você pôde me conhecer?

- Não! Você só pensa em você! É "eu, eu, eu" o tempo todo. Onde foi que eu errei?

- Você errou? Não tinha sido eu o erro personificado?

- Tinha. Quer dizer, é! Ah! Ou somos dois? Dois erros perambulando por essa vida.

- Meu erro é você.

- Não. Você é meu erro.

E não tomaram vergonha na cara, na alma, no choro ou no riso. Continuaram se amando.

[assim como eu não tomei e continuarei nessa falta de overdose palavreira]

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Pequenices

(I)

Olhou bem para a mãe, que se perdia em meio a tantos pensamentos enquanto cozinhava o arroz. A cadeira, gigante, a esperava. Empurrou o mostrengo para perto do interfone e começo a escalá-lo.

-Num vai cair...

Não deu ouvidos. Como todas as crianças, ela não precisava se preocupar com o fato de se machucar, não tinha motivos para previnir-se -ainda era tão pequena que se curaria em instantes de qualquer coisa. Colocou o joelho na cadeira, puxou seu corpo com os braços para que a outra perna alcançasse a mesma posição deste e subiu. Finalmente. Do alto, avistou sua mãe. Quase podia enxergar como ela enxergava. Quase não, porque ainda faltavam uns bons decímetros, mas os 50cm de cadeira já eram um avanço.

-Cuidado, filha...

Não desceu. Ainda não havia atingido sua meta: o interfone. Estendeu os braços. Ficou na ponta dos pés. A cadeira andou, fazendo um ruído horrososo, agudos, daqueles que fazem quando são arrastadas nos chãos das cozinhas. Segurou-se no aparelho. Cambaleou.

-Desce daí! Não quero ter que levar filha minha pro hospital! Querida, vem pra cá, vem, fica aqui pertinho.

A mãe largou a panela, observar só não adiantava, tinha que agir. Viu que ela tirara o interfone do gancho. Parou.

-Por favor, você poderia ligar para o 192?

Seus olhos se encheram de lágrimas. Sua filha, pela primeira vez, ligando para a amiga. Interfonando para a vizinha. Por livre e espontânea vontade. Sozinha. Sem a ajuda de ninguém. E tinha apenas 2 anos. 2 anos!? Esqueceu-se dos machucados, da filha chorando no chão caso caísse, dos excessivos cuidados de mãe coruja. Era sua bonequinha, agindo como uma mocinha, atingindo seus objetivos, e deixando-a orgulhosa. Toda a preocupação tranformara-se em satisfação. Em apenas alguns segundos.

-Mãe, ela vai vir pra cá. Me ajuda a descer? -disse, estendendo os braços.

Recebeu mais: um abraço.

(II)

-Não tiro.

-Tira sim, vai. Você já está grandinha. Já está mais do que na hora de largar essa chupeta. Pelo menos para dormir. Me dá.

-Ah mãe, eu durmo sim com a minha chupeta. Você só pede pra que eu tire porque não sabe o que é dormir sozinha. Você tem o papai para te acompanhar. Eu tenho a minha chupeta.

E continuou acompanhada por um bom tempo.

(III)

-Em boca fechada não entra mosca.

-E também não entra chocolate!

[melhor do que ouvir histórias é saber que você era a personagem.]

quinta-feira, 20 de março de 2008

Geléia

Era um dia comum, de uma semana comum, de um mês mais comum ainda. Trabalhos, projetos, inúmeras responsabilidades a atordoava enquanto andava em direção à faculdade. Por sorte, a rotina colocara em seu caminho uma loja de animais, de onde algo a chamava. Eram batidas atormentadas no vidro da vitrine, escandalosas. Latidos que mais pareciam súplicas, pedidos de socorro. Ou melhor, eram eufóricos como se houvesse encontrado algo que perdera há tempo.

Sem hesitar, ela parou em frente à loja. O animal acalmou-se, e agora parecia chamá-la: "Entre! Esperei tanto por esse dia!". Foi o que fez. Minutos depois viu-se com a cadelinha nos braços, depois de muitos pulos de alegrias vindos desta.

-Ela é sempre assim?

-Não! Só com a senhora!

-Ela dormiu?

-Parece que sim...

Dormia. A cachorrinha, de olhos fechados, descansava serenamente em seu ombro. Como um bebê, uma criança no colo da mãe.

-Eu vou para a aula, tem como buscá-la depois?

-Claro.

[não sei se o "não! só com a senhora!" foi pura conversa de vendedora -e de boa vendedora-, ou era algo do além, aquelas coisas que dizem ser 'de outra vida']

-Filho! Uma cachorrinha!

Ele não acreditava. Esperava a mãe voltar da aula para pedir a ela que o levasse à casa de um amiguinho, para jogar video game. Agora não precisaria mais.

-Nossa, mãe! Ela faz o quê? Late?

-Late, late, sim! Foi ela que me encontrou, que me chamou!

-Sério? Mas mãe, ela tá tão quieta...

Embaixo dos armários da área de serviço, entre a parede e a geladeira, em cima do criado-mudo, não importava. A cadelinha se acomodava em qualquer lugar e lá ficara durante horas, horas..Não brincava, e muito menos se alegrava para passear. Ela permanecia eternamente "tão quieta".

-Problema no coração. -afirmou o veterinário.

Dias se passaram, e as férias chegaram. Nelas, a obrigação de "forçar o cachorro a passear" foi eliminada. Sem isso a cachorrinha ficava em casa, nos cantos, e só levantava para comer.

Comia, comia..foi engordando.

-Será que ela não tá prenha?

E engordava. Quando deitava, parecia uma geléia. Mal andava. O menino esquecera dela logo, preferia os amigos e os video games.

-O coração?

Continuava batendo, e lembrando do primeiro dia em que viu sua futura dona. Batendo, batendo. Fazendo com que toda sua energia fosse para seu pulsar. Batendo, batendo.

[me contaram hoje essa história, da Teka que tá-gorda-feito-uma-geléia.]

segunda-feira, 17 de março de 2008

Reviravolta


Eu que pensei que nunca mais teria um blog, enganei-me. Nunca mais seria muito tempo de afastamento. Escrever foi um vício. E ainda é. Palavras sempre correram por meu sangue e aqui, finalmente, encontrarão um meio para serem engarrafadas em pequenos vidros, dispostos organizadamente na prateleira dos dias.

Tome com cuidado, mas sem medo. Caso exagere, não me culpe! Foi por livre e espontânea vontade.


Aproveite, deguste e delicie-se com a doçura -ou acidez- dessas doses de palavras.